100 anos, 7 gerações e a mesma solidão
- Revista Curió
- há 9 horas
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Chega ao fim adaptação da Netflix que daria orgulho a Gabriel García Márquez
Por: Laura Mota
Última atualização: 31/08/2026

“Era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.”
Assim termina “Cem anos de solidão”, série da Netflix que teve seu episódio final lançado no último mês e consagra a possibilidade de adaptar clássicos da literatura para o audiovisual com fidelidade.

Amarrada por lendas e acontecimentos quase que paranormais, desde insônias coletivas a anos de chuvas e alagamentos sem fim, a trama se apoia no realismo mágico para acompanhar os Buendía, fundadores de Macondo, na Colômbia.
Entre paixões, decepções, guerras e recomeços, o vilarejo dá palco a uma atmosfera de mistério e cotidiano que se entrelaçam entre os nascimentos e mortes dos componentes da grande família. Nesse ritmo, a narrativa desenrola, do início ao fim, o destino da linhagem já predito pelos pergaminhos sânscritos do marcante cigano Melquíades.
Das páginas para as telas
Composta por 16 episódios divididos em duas partes, a série consegue captar o misticismo da escrita de Garcia Márquez. A precisão técnica, desembocada em beleza audiovisual, tem raiz no cuidado da equipe em atender os pedidos do autor, expressos por seus filhos Rodrigo García e Gonzalo García, produtores executivos da adaptação.
Gabriel exigiu que a produção fosse gravada na Colômbia e em espanhol. Seguindo seus requisitos, os diretores colombianos Laura Mora e Carlos Moreno conseguiram traduzir a intimidade e poesia da obra, evidenciando os costumes latino-americanos com fidelidade. Ainda num esforço em manter a proximidade com a ambientação original da trama, o casting foi composto, majoritariamente, por atores nascidos no país.

A visão criativa e fotografia também ajudam na imersão do espectador na história. Como uma brisa que passa pela casa e pelas ruas de Macondo, a câmera acompanha os acontecimentos com leveza e discrição, de modo a provocar em quem assiste a sensação de estar dentro da cena. Outro ponto de realce técnico são a condução dos efeitos especiais de modo orgânico, transformando coisas absurdas em eventos possíveis e cotidianos, como personagens levitando ou uma chuva de flores cobrindo a cidade.
Passado presente
Para além do irreal metafórico de García, a segunda temporada traz à tona a dimensão política da trama. Com sensibilidade, a série resgata uma tragédia da história da Colômbia: o “Massacre das Bananeiras”, evento real ocorrido em 6 de dezembro de 1928 na cidade de Ciénaga.

Apesar do apagamento histórico, Gabriel investigou o ocorrido utilizando uma combinação única de memória familiar, relatos orais locais e técnicas do jornalismo investigativo, e o incorporou ao livro. No penúltimo episódio da série, uma sequência de cenas quase teatrais revive, então, a execução de trabalhadores em greve da multinacional americana United Fruit Company pelo exército colombiano, para proteger interesses comerciais estrangeiros.
Com delicadeza, mas sem remover o peso da tragédia, a adaptação homenageia a lembrança dos camponeses cruelmente assassinados e reforça sua vertente de protesto contra o abuso da classe trabalhadora.
O fim da solidão
E, quando tudo parece finalmente se encaixar, as previsões e avisos dos primeiros episódios se concretizam e a solidão geracional atinge os Buendía uma última vez.
Após oito capítulos intensos, o fim, como todo o enredo, volta ao começo e resta a imagem que assombra gerações em Macondo: o tão anunciado rabo de porco. Aquilo que durante tanto tempo foi contado com medo, como um presságio distante, finalmente ganha forma.
Talvez algumas histórias estejam destinadas a terminar exatamente como começaram e seja essa a beleza: perceber, página após página, que algumas coisas estavam ali desde sempre, aguardando nosso olhar atento. Por isso que, depois de conhecer Macondo, é tão difícil simplesmente deixá-la para trás. É preciso revisitar a trama, o passado, remexer em traumas e até nos identificar com certas dores para absorver sua profundidade.
Despedindo-se do público, “Cem Anos de Solidão” se consagra, então, ao preservar os detalhes que fizeram do livro uma das obras mais marcantes da literatura latino-americana. Um verdadeiro tributo à poesia de Gabriel García Márquez, a produção foi apontada pela Variety como “uma das adaptações mais fiéis de um livro para a tela nos últimos anos”.



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