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Entrevista: Sobre o documentário “Atleticanidade” com a co-autora Júlia Rolindo

Foto do escritor: Revista Curió
Revista Curió
há 2 dias
5 min de leitura

A revista Curió conversou com a comunicóloga, que junto do jornalista Arthur Henrique, buscou entender a subjetividade feminina na paixão pelo futebol


Por: Gabriel Monteiro

Última atualização: 15/09/2026


Júlia Rolindo - Acervo Pessoal
Júlia Rolindo - Acervo Pessoal

Torcedora fanática do Clube Atlético Mineiro desde berço, Júlia Rolindo Paiva cresceu e desenvolveu seu senso de identidade de forma sempre atrelada ao futebol. Porém, com o passar dos anos, Júlia percebeu como certos aspectos de sua relação com a “Atleticanidade” se enquadravam em um recorte de gênero onde também habitam uma infinidade de outras mulheres, atravessadas por uma série de complexas vivências.


É do encontro de Julia com seu colega Arthur Henrique e do interesse mútuo pela investigação dessas experiências que nasce em 2026 o documentário “Atleticanidade (s.f.): o Galo por elas”, uma produção que mescla o registro cotidiano em torno do time com depoimentos de diversas mulheres atleticanas, que posicionam seus pontos de vista em meio ao universo da torcida. 


Atleticanidade (s.f.): o Galo por elas - Reprodução
Atleticanidade (s.f.): o Galo por elas - Reprodução

Após assistir o filme em primeira mão, a Revista Curió sentou para conversar com sua co-autora, para entender melhor os processos e experiências exploradas ao longo da criação.


Curió: Boa noite, Júlia. Como entusiastas do cinema documental, é um prazer falar com você sobre seu projeto. Já tendo assistido ao documentário, fica muito claro o quanto o tópico central é pessoal pra você, ao mesmo tempo que representa a vida de tantas outras pessoas. Sabe-se que apesar do olhar "científico" de qualquer documentário, o seu autor engrandece o cinema entendendo seu lugar em meio a tudo aquilo e se posicionando da forma que achar melhor. Como você descreve essa dualidade entre a pesquisa e a vivência?


Júlia: Acho que vale a pena começar falando que sou co-autora desse documentário com meu colega Arthur Henrique, hoje Jornalista pela UFMG. Trago isso, porque esse é um tema pessoal demais, e o Arthur, sabendo disso, topou 100% mergulhar comigo em algo que não era sobre ele, sendo um verdadeiro parceiro nessa jornada. Obrigada, Arthur! Lembro de temer demais soar egocêntrica a escolha de aparecer como essa figura central. No final das contas, eu percebi que isso guiou muita coisa ali, seja no nosso raciocínio, seja na montagem, e fez muito sentido com as outras histórias. Eu falo pouco no documentário, porque aqueles arquivos ali falam muito além do que eu poderia tentar verbalizar. Diria até que esse documentário não surgiu em 2025, ele começou quando minha vontade de registrar o mundo se chocou com minha história com o Galo. Entendemos que essa vivência não é e nem deve ser universal, o que eu sei vem da minha experiência, que é singular, mas jamais a “certa”. Inclusive, sobre torcer “certo” ou não, abraçar as controvérsias de cada personagem ali era um objetivo também. Como alcançar a razão em um ato tão puramente irracional, como é o torcer? A gente até tenta, né? No final das contas, é um documentário sobre amor. Têm coisas que simplesmente não se explicam, porque surgem de um outro lugar. Acho que tentar rastrear esse sentimento é uma tentativa que a gente fez, mas no final surgem mais perguntas do que respostas e é isso. 


Júlia Rolindo - Acervo Pessoal
Júlia Rolindo - Acervo Pessoal

Curió: É incrível e inspirador para outros cineastas o nível de qualidade que vocês foram capazes de atingir, sabendo que foi um projeto sem financiamento externo e concretizado entre apenas duas pessoas. Quanto tempo durou todo o processo de produção do documentário? 


Júlia: Ficamos exatos um ano na função de executar esse trabalho, foram 13 diárias de captação, escolhidas pensando, basicamente, na agenda de jogos do Galo. Muitas imagens da mesma sequência foram feitas em dias diferentes, pra tentar ambientar melhor cada espaço, mas também porque a gente precisava ser estratégico com essa logística - era peso demais de equipamento, rua cheia de torcedor e muita coisa pra registrar. Acho que conciliar as agendas entre Galo, Júlia, Arthur e entrevistadas foi o mais difícil, às vezes isso simplesmente não acontecia e precisávamos gravar como dava. Achei muito interessante como a gente vai tendo intimidade com o Trabalho aos poucos e entendendo qual caminho ele vai tomando, pra assim entender o que ele pede. 


Atleticanidade (s.f.): o Galo por elas - Reprodução
Atleticanidade (s.f.): o Galo por elas - Reprodução

Curió: Nos vários depoimentos coletados por vocês, são narradas experiências que não atravessam só gênero, como também raça, classe, idade e maternidade. Para atingir aqueles que ainda não tiveram a chance de assistir o documentário, qual das várias histórias que vocês ouviram você acha que melhor resume aquilo que vocês imaginaram passar através da produção de vocês?


Júlia: Trazer outras mulheres em paralelo, sem buscar hierarquizá-las, vem pra validar cada uma de suas histórias e registrar ali o fator comum: amor pelo Galo. A Débora, por exemplo, traz essa fagulha no torcer pro Galo surgindo quando ela se reconhece na torcida, o que é absolutamente legítimo. Mas pra nós, jamais essa vivência super politizada da arquibancada podia ser colocada como mais ou menos válida do que a que teve dona Vanda, sabe? Não tem mais ou menos atleticana. Aquelas mulheres são absolutamente diferentes, únicas e tão apaixonadas, mas ao mesmo tempo parecem se resumir nelas mesmas. Uma personagem que acho que ilustra muito bem quem buscamos representar talvez seja a Carol, da Galo TV. Ela traz essa vivência - que tenho muita vontade de pesquisar a fundo - da torcedora do interior, que conhece o Galo, por muito tempo, só através da rádio e pelo que lhe é transmitido de sua família. Uma relação muito diferente da que eu tenho com meu time. Eu sempre fui ao estádio, comi tropeiro, vivi o Galo de perto. O amor dela nasceu à distância, e ainda assim é o mesmo, sabe? Pra além disso tudo, ela é uma mulher negra, repórter do canal oficial de comunicação do Clube. Ela trabalha com os ídolos do pai dela, olha a grandeza disso! Enfim, a história da Carol, pra mim, bate forte demais.


Atleticanidade (s.f.): o Galo por elas - Reprodução
Atleticanidade (s.f.): o Galo por elas - Reprodução

Curió: Quando um cineasta finalmente expõe sua obra é como parir um filho, o que obviamente nos gera expectativas, mas como isso funciona na sua visão? Como você enxerga o lugar desse projeto no mundo e pra onde você quer que ele te leve?


Júlia: Foi necessário tomar um ar! Nesse meio-tempo aconteceram coisas legais com relação à repercussão que me fizeram me atentar à necessidade de levar isso pra frente. Era tanta tensão em executar da melhor forma dentro das condições que tínhamos, que não sobrava tempo pra mensurar a grandeza do que ia nascer. Foi na primeira apresentação que eu senti o primeiro baque, tivemos a honra de ter como orientadora uma referência em estudos de Comunicação e Esporte no país, que é a Ana Carolina Vimieiro e a co-orientação da incrível pesquisadora Flaviane Rodrigues Eugênio. Na banca examinadora, Luisa Almeida de Paula (Doutoranda na Kent State University) e Rafaela Cristina de Souza, Doutoranda em Comunicação Social pela UFMG. Foram essas mulheres que me fizeram ter a dimensão da importância do que vimos nascer nesses longos meses de trabalho, ouvir todas as pontuações de quem sou grande admiradora me tocou demais e me fez entender que tudo era maior do que eu pensava. Da mesma forma que ouvi maravilhas sobre nosso tema, enfrentei também desdém, mas todo sentimento ruim plantado a partir daí caiu por terra quando fiz uma postagem despretensiosa sobre o documentário nas redes sociais, que nos rendeu holofotes da torcida e da mídia. Dias depois, vimos nosso Trabalho no Galo Acadêmico, um repositório que reúne pesquisas que têm o Galo como objeto de estudo e compõe o Centro Atleticano de Memória. De repente, a gente fazia parte da história do Galo - e com ciência. Acho que deu pra me convencer que precisamos dar atenção pra isso, levar pra mostras e coisas do tipo e poder trazer esse debate pra mais gente. Poder aprofundar essa discussão pra outros lugares, outros times, quem sabe? É algo que eu gostaria muito de ver.


O documentário “Atleticanidade (s.f.): o Galo por elas” por Júlia Rolindo e Arthur Henrique está disponível neste link: https://www.youtube.com/watch?v=OAhX8vghvYQ

Para acompanhar mais de perto o trabalho dos autores, você pode seguí-los em suas redes sociais: @juliarolindo e @__arthurh__



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