Fidelidade ou reinvenção: os desafios por trás de uma adaptação
Diferentes versões de uma mesma história mostram como o tempo e a linguagem interferem na construção de uma narrativa
Por: Victória Kelly e João Henrique do Nascimento
Última atualização: 10/09/2026

O recente lançamento de Christopher Nolan, A Odisseia (2026), transpôs uma das principais epopeias gregas escrita por Homero para o cinema. A adaptação alcançou a marca de produção com classificação adulta de maior bilheteria, com arrecadação de US$ 1,35 bilhões (R$ 6,95 bilhões), destronando Deadpool & Wolverine (2024). Mais do que transportar uma história milenar para as telas, o filme reacende uma intensa discussão que acompanha o cinema ao longo de suas adaptações e mostra como uma obra pode ganhar novos sentidos ao mudar de linguagem sem perder a essência na narrativa original.
O processo de adaptação literária para o cinema exige transformar o trabalho que o leitor teria nos livros de imaginar para a imagem e o som, de forma que a produção seja envolvente e tenha relação com a história escrita. Extrapolar a tendência polarizada de analisar as adaptações apenas pelo olhar do “bom” ou do “ruim” permite enxergar uma diversidade muito grande de processos das “teorias da adaptação”, que se volta para as relações entre literatura e a sétima arte.
É comum a fetichização de escritores canônicos, como Machado de Assis e William Shakespeare, que torna seus textos “proibidos” de modificações – isso somado a um grande número de conotações negativas associadas às adaptações, como se elas fossem uma vulgarização ou traição dos originais. O fato é que apenas “fidelidade” como parâmetro de qualidade do filme à fonte literária pode ser insustentável.
Adaptar uma obra pode ser entendido como uma forma de tradução entre linguagens diferentes, levando em conta que é uma ação que irá passar de um formato midiático para outro. Pedro Lavigne, doutor em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais, afirma que “na adaptação de um livro para um filme, no filme temos muito menos espaço para trabalhar determinadas ações ou eixos narrativos, enquanto no livro existe uma visualidade meio poética. Ou seja, estão em campos diferentes”.
As diferenças entre literatura e cinema fazem com que uma mesma narrativa assuma uma nova forma ao ser direcionada de uma mídia para outra. Contextos, cenários históricos, características físicas e psicológicas e até mesmo a jornada do personagem podem enfrentar processos de escolhas do diretor. “Tolkien fica páginas e páginas escrevendo essas ações, escrevendo o tabaco que os hobbits fumam. Isso para o cinema seria insuportável, não seria viável.”, aponta Pedro.

A tradução transmidiática, seja de filmes ou de livros, carrega sempre atualizações inevitáveis para os novos produtos que servem de reflexo para como a sociedade funciona de acordo com seu tempo. As possibilidades de alteração em cada releitura são infinitas, já que variam conforme a opinião e pensamento de cada público e da produção.
“O processo de tradução, de leitura desse texto, é mais vivo, um processo que é mais atualizável no tempo. Então, uma coisa é o filme que está ali, materializado. Outra coisa é o espectador que assiste esse filme. Quem assiste, por exemplo, Matrix lá nos anos 2000 estava pensando numa coisa, quem assiste hoje está pensando em outra coisa. Então esse processo de tradução, de leitura, ele é inerentemente vivo, é intrínseco à vida, ao humano.”, destaca Pedro.
O Casamento de Romeu e Julieta (2005), dirigido por Bruno Barreto, é um exemplo notável de uma adaptação que preserva a premissa do amor entre lados rivais, mas encaixa a trama no contexto da “rivalidade” do futebol atual. Julieta é transferida da família Capuleto para outra apaixonada pelo time do Palmeiras. Já Romeu torce para o Corinthians desde criança. Quando os dois se apaixonam, Romeu tenta disfarçar o apreço pelo rival para ficar com a mulher.

Nesse movimento de tradução transmidiática, o cinema pode oferecer ao espectador novas perspectivas sobre temas seculares. Isso faz das obras organismos vivos, capazes de sofrer mudanças ao entrar em contato com novos contextos e plateias. “O que faz uma boa adaptação para mim é isso, é você conseguir, a partir dessa narrativa, você trazer questões que são questões importantes para a nossa vida agora.”, complementa Pedro.
Como movimento contrário, as novelizações acontecem quando uma narrativa originalmente produzida para o cinema é transformada em livro. Nesse cenário, o caminho percorrido é o inverso, onde elementos que foram desenvolvidos por meio de imagens, sons, atuações e montagens passam a depender da descrição e da linguagem escrita de forma a alcançar o leitor. Observamos toda essa sistematização ao redor do filme Interestelar (2014), também dirigido por Nolan, que resultou em versões literárias baseadas na narrativa cinematográfica, levando a história a discorrer em busca de uma nova forma de existência.

Seja do livro para o cinema ou das telas para as páginas, o ato de adaptar carrega escolhas da equipe de direção, levando em consideração que partes do enredo podem ser condensadas, ampliadas ou até mesmo modificadas para que funcionem ativamente dentro de cada setor. Desta forma, avaliar uma obra somente pela fidelidade ao original é uma atitude superficial e pode ignorar a complexidade por trás do processo, que prevê a possibilidade da construção de novos sentidos a partir do contato com diferentes mídias, contextos e públicos.
Em uma análise entre a fidelidade e a reinvenção, a adaptação se estabelece como uma ação de transformação, onde versões de uma mesma história carregam marcas do seu tempo, da linguagem em que são produzidas e dos olhares de quem as recria, encontrando novas formas de ser contada.



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