Mitos milenares com adaptações modernas
- Revista Curió
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Heróis e deuses gregos saem do Olimpo e dominam as telas de cinema novamente
Por: Evelyn Costa e Laura Torres
Última atualização: 21/07/2026

Por que continuamos recontando as mesmas histórias?
Vinda de séculos de tradição oral através de histórias contadas até hoje, a mitologia grega sobrevive à antiguidade por meio da literatura e da arte, exercendo há muito tempo grande influência na cultura contemporânea. Não faltam elementos na cultura pop, como filmes, séries, animações, HQs, jogos eletrônicos e até música inspirados em personagens mitológicos, aventuras e dilemas éticos que resistem ao tempo.
Essa presença marcante se sustenta, em parte, numa estrutura com deuses, heróis e homens mortais que formam uma hierarquia bem definida e possuem características e papéis próprios dentro das narrativas.

Sendo seres imortais, os deuses detém poder absoluto sobre as forças da natureza e aspecto da vida humana. Já os heróis ocupam uma posição intermediária entre deuses e mortais, geralmente são frutos da união entre um deus e um mortal, os chamados semideuses. Mas há casos de heróis sem linhagem divina direta, como o de Odisseu, que se destaca por seus feitos extraordinários e sua astúcia.
Apesar de mais fortes, corajosos e habilidosos que humanos comuns, cedo ou tarde os heróis morrem. Por fim, os mortais são os seres humanos comuns, sem parentesco direto com os deuses, sujeitos à velhice, à doença e à morte, sem exceção alguma.
Um dos principais motivos da sobrevivência da mitologia grega ao longo do tempo é justamente a identificação com os personagens desses mitos e histórias: conseguimos nos colocar no lugar tanto dos mortais quanto dos próprios deuses, que possuem muitos aspectos humanos, já que não controlam seus impulsos. Eles não são modelos de perfeição moral, mas sim espelhos dos nossos próprios atos e defeitos com sentimentos e falhas como amor, ciúme, inveja, ira, orgulho, vingança e falta de moral, todos amplificados por seus poderes divinos.
É justamente essa combinação de elementos humanos e divinos que mantém a mitologia tão presente na cultura pop atual. Com deuses, heróis, criaturas poderosas, guerras épicas e dilemas éticos, ela influencia constantemente filmes, séries, jogos e músicas através de diversas adaptações contemporâneas, que apresentam essas histórias sob novas perspectivas e as mantêm interessantes mesmo que já as tenhamos ouvido antes, é o caso da série Percy Jackson, de jogos como God of War e Assassin's Creed Odyssey, e até de canções como "Cassandra", da Taylor Swift. Essa permanência também se deve à dominância cultural que ela exerceu ao longo do tempo em comparação a outras mitologias, como base estrutural da educação e da arte no ocidente, o que consolidou sua presença como referência recorrente nas narrativas.
Desde a Antiguidade que os mitos gregos influenciam profundamente a cultura, as artes e a literatura da civilização ocidental, sistematizados por poetas como Homero e, mais tarde, reinterpretados quando os romanos conquistaram os territórios gregos. A dominação militar da Grécia provocou um impacto cultural profundo em Roma, que passou a adotar o modelo educacional grego e sua tradição helênica, o que garantiu sua transmissão contínua através dos séculos, permanecendo enraizada na herança e no vocabulário até hoje. Sua influência ocupa até o campo da ciência, como mostram os nomes dos planetas do Sistema Solar, além de atravessar áreas como a psicanálise e a antropologia, e esse enraizamento cultural criou um terreno fértil para que a mitologia grega continuasse sendo reinventada.
Múltiplas faces da mitologia no cinema

Uma das maiores virtudes dos mitos é a sua capacidade de transformação. O cinema percebeu que eles não são monumentos esculpidos em pedra e mármore, como muitas de suas representações, e aprendeu a moldá-los de uma forma que dialoga com diferentes gerações.
Por um lado, a abordagem infanto-juvenil, imortalizada na saga literária Percy Jackson, adaptada para filmes a partir de 2010 e ganhando uma série da Disney em 2023, fez o movimento de colocar um jovem visivelmente comum no centro de uma narrativa épica. Antes de descobrir que era um semideus filho de Poseidon, Percy é introduzido como um garoto qualquer de Nova York, que enfrenta o dia a dia difícil no colégio e lida com a sensação de deslocamento o tempo todo, como muitos adolescentes.
Nesse contexto, as fraquezas e os dilemas desse garoto são usados para ressignificar o mito, com a dislexia de Percy simbolizando o fato de sua mente entender grego antigo, por exemplo. Com esses detalhes, como o Monte Olimpo no topo do Empire State Building, a história traz o cenário grego para os dias atuais, e a representação do protagonista como uma pessoa vulnerável e insegura reforça a mensagem passada de que qualquer pessoa poderia carregar o peso de uma grande saga.

Por outro lado, quando o cinema opta pela abordagem clássica, a reinterpretação do mito ganha uma versão como a de Tróia (2004). O épico deixa os deuses em segundo plano para focar no drama e nas guerras, já que a adaptação romantizada da Ilíada, de Homero, traz o heroísmo por meio da busca pela glória eterna e o dilema moral entre dever e paixão. Essa escolha de narrativa ameniza o peso da intervenção direta dos deuses, que manipulam o destino dos mortais na obra original, para transformar a tragédia em um espetáculo. No contexto desse filme, a fúria divina dá lugar para questões como a vaidade, a honra e a fatalidade da morte. Assim, seja em animações leves como o Hércules (1997) ou em sátiras e adaptações modernas, o mito reflete o público de cada época sem perder sua essência.
Odisseia, o clássico de Homero
A Odisseia de Homero foi e continua sendo uma grande inspiração para a indústria cinematográfica, com adaptações diretas, literais e releituras. A trama narra a jornada de Odisseu em seu retorno a Ítaca após a Guerra de Tróia, período em que ele esbarra com criaturas como o ciclope Polifemo, as sereias, a feiticeira Circe, os Lestrigões, um monstro de seis cabeças, o mundo dos mortos e Calipso.
Diante de toda essa história, podemos observar a Odisseia como um modelo clássico da jornada do herói, que segue um percurso no qual o protagonista viaja rumo ao desconhecido e enfrenta diversas provações para então retornar ao mundo conhecido.

É justamente ao longo dessa jornada que o herói passa por um amadurecimento interior e por uma busca de identidade. Suas falhas de caráter, a falta de autocontrole e o orgulho ferido o tornam vulnerável e ao mesmo tempo mais próximo da realidade, marcado por um protagonismo imperfeito. Essa imperfeição favorece a identificação do público que, mesmo sem enfrentar personagens fictícios como ciclopes e sereias, a vida real tem seus próprios monstros e todos passam por momentos de incerteza, perdas, escolhas difíceis e desafios que exigem crescimento.
Por isso, mesmo escrita há séculos, a Odisseia permanece atual, já que sua narrativa e seus temas universais permitem que diferentes gerações se identifiquem com o herói.
Agora, em uma nova adaptação do clássico, Christopher Nolan aposta em uma produção que reflete sua assinatura autoral, marcada pela busca constante por imersão visual em grande escala, precisão técnica e realismo, tudo isso registrado inteiramente por câmeras IMAX de 70 mm.
A escala do épico

Contar uma história do tamanho da Odisseia exige certa imponência visual. É aqui que entra a obsessão do diretor britânico Christopher Nolan pela exibição em película e no formato IMAX 70mm. A escolha por essa tecnologia simboliza uma tentativa de promover uma escala monumental e imersiva ao mito de Homero, mas a busca pela “melhor experiência cinematográfica” toca em uma realidade de muitos cinemas: a falta de acessibilidade.
Salas IMAX com especificações técnicas nessa escala são poucas (os projetores de filme originais de 70mm estão disponíveis em apenas 41 cinemas no mundo todo) e estão concentradas nos grandes centros urbanos, funcionando com ingressos com preços caros para a maioria dos espectadores. Isso reforça a ideia de que o cinema é uma forma de lazer para os privilegiados e expõe um dilema sobre o futuro da sétima arte.
Sem diretores como o Nolan, que projetam filmes especificamente para essas telas, a própria função das salas IMAX perde o sentido, afinal, de que adianta manter uma infraestrutura tão específica se poucas produções a exploram de fato. Por outro lado, para que exibições nesse formato se popularizem, a indústria cinematográfica precisa enxergar que existe uma demanda real e constante vinda do público, que, muitas vezes, não tem condições de frequentar esses espaços.
Quando o acesso às telonas se torna um luxo, as pessoas tendem a consumir filmes em casa, enfraquecendo a cultura de ir ao cinema. A experiência oferecida deve justificar o deslocamento até as salas, e isso é algo que depende da democratização.



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