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A arquitetura do Oscar

  • Foto do escritor: Revista Curió
    Revista Curió
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

As indicações de “O Agente Secreto” ajudam a revelar como a Academia organiza o reconhecimento no cinema


Por Lara Gomes

Última atualização: 12/03/2026


Foto: Reprodução/O Globo
Foto: Reprodução/O Globo

Por trás da cerimônia televisionada e da corrida por estatuetas existe uma estrutura muito mais complexa: uma arquitetura de categorias que espelha a própria divisão do meio cinematográfico. Criado em 1929, o Oscar foi estruturado desde o início como um reflexo da divisão profissional da indústria estadunidense. Seus membros estão organizados em ramos — atores, diretores, roteiristas, técnicos de som, montadores, designers de produção — e cada um deles participa diretamente da escolha dos indicados em sua área. Cada prêmio corresponde a um ofício, um território de criação, um espaço específico dentro da engrenagem que transforma uma ideia em filme.


O resultado é uma premiação que, ao mesmo tempo em que consagra obras, também desenha um mapa de reconhecimento dentro do cinema, que oscila entre impulsionar ainda mais os blockbusters ou abrir caminhos para produções emergentes. Em outras palavras, as categorias do Oscar revelam quem ocupa determinados espaços da indústria  e quem tem o poder de legitimá-los.


Se o público costuma acompanhar a premiação como uma disputa entre filmes, para a própria Academia ela funciona como uma espécie de retrato coletivo da produção cinematográfica. Um espaço onde se distribuem prestígio, visibilidade e memória. Neste ano, mais uma vez, os olhares brasileiros seguem na torcida por produções nacionais rompendo barreiras do idioma e da cultura, desta vez através de O Agente Secreto (2025).


As categorias que realmente definem um vencedor


Dentro dessa arquitetura, algumas categorias concentram um peso simbólico maior. Conhecidas informalmente como o “Big Five”, elas reúnem Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Roteiro (que se divide entre Roteiro Original e Roteiro Adaptado). São prêmios que, historicamente, definem o lugar de um filme dentro da história do Oscar e frequentemente determinam a narrativa dominante de cada edição da premiação.


Foto: Reprodução CNN/ Parte dos indicados a Melhor Filme em 2026
Foto: Reprodução CNN/ Parte dos indicados a Melhor Filme em 2026

Entre todas, Melhor Filme ocupa o topo dessa hierarquia. Diferentemente das demais categorias, cuja votação inicial é restrita aos profissionais de cada área, o prêmio principal é decidido por todos os membros da Academia. Isso transforma a categoria em um espaço de consenso, ou de disputa, sobre qual obra melhor representa o cinema daquele ano.


Já Direção e Roteiro costumam funcionar como indicadores da força autoral de um projeto, enquanto as categorias de atuação projetam as performances que se tornam o rosto público de cada filme.


Um prêmio que, assim como cinema, mudou com o tempo


Ao longo dos anos, o Oscar passou por transformações que acompanham mudanças na própria indústria. Novas categorias surgiram para reconhecer áreas que ganharam relevância com o avanço tecnológico e a diversificação das formas de produção.


Foi o caso de Melhor Filme de Animação, criada em 2001 em resposta ao crescimento da animação como força comercial e artística no cinema contemporâneo, em grande parte pela popularização dos filmes da Disney Pixar. Na edição de 2026, a Academia anunciará pela primeira vez o prêmio de uma categoria relacionado ao casting: Melhor Direção de Elenco, reconhecendo uma função central na construção de personagens e dinâmicas dramáticas do filme, mas historicamente invisibilizada dentro da premiação. 


O diretor de elenco, sem dúvidas, exerce uma função essencial na montagem da atmosfera do filme ao selecionar os atores que encenaram a narrativa. Esse sempre foi um trabalho de pré-produção e backstage, o que nem sempre trazia à tona o quão trabalhoso pode ser a colaboração e co-criação realizada entre os diretores, os produtores e diretores de elenco, mas a partir da edição deste ano da premiação, a Academia trará aos holofotes esse processo de pesquisa, seleção e direcionamento.


Veículos de mídia como a CNN e críticos da área de cinema já analisaram a adição da categoria de casting como uma mudança significativa no sistema de premiações, uma vez que essa novidade abre espaço para a possibilidade das produções começarem a priorizar cada vez mais o conjunto de profissionais que formam o filme ao invés de investir apenas em um grande nome já muito conhecido na atuação.


Ao mesmo tempo, outras categorias desapareceram ou foram reorganizadas. Durante décadas, por exemplo, o Oscar dividiu o prêmio de som entre edição de som e mixagem de som, distinção que acabou sendo unificada na mesma categoria em 2020. Essas mudanças revelam que a própria estrutura do prêmio permanece em movimento, adaptando-se às transformações técnicas e estéticas do cinema. Por isso, observar as categorias do Oscar é também observar a evolução da indústria.


O Agente Secreto na corrida do Oscar


As indicações de O Agente Secreto chamam atenção não apenas pelo número, mas pelo tipo de reconhecimento que o filme conquistou. Ao aparecer em Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator, a produção brasileira ocupa simultaneamente espaços distintos dentro da estrutura do Oscar, o que vai desde o reconhecimento coletivo da obra à valorização de escolhas criativas específicas.


A presença na categoria de Melhor Filme é, por si só, um marco significativo, alcançado por representantes do país pela segunda vez consecutiva, após a indicação de Ainda Estou Aqui (2024) na edição passada. 


Outra indicação que chama atenção é a de Melhor Direção de Elenco, categoria inédita da premiação. No caso de O Agente Secreto (2025), o responsável pela direção de elenco foi Gabriel Domingues, que já colaborou com Kleber Mendonça Filho em outras produções. A seleção do elenco e direcionamento dos atores realizados por Domingues e Mendonça Filho enfatiza que o processo de criação presente na obra possui caráter coletivo e cuidadoso, indo desde a seleção dos artistas à direção de cena dos personagens.


Foto: Divulgação/O Agente Secreto
Foto: Divulgação/O Agente Secreto

Em termos de chances de premiação, o cenário permanece aberto, mas não exatamente confortável. A categoria de Melhor Filme costuma favorecer produções que conseguem reunir amplo consenso dentro da Academia, algo que nem sempre ocorre com filmes internacionais. Já em Filme Internacional, a disputa tende a ser mais imprevisível, ainda mais pela concorrência direta com Valor Sentimental (2025), produção norueguesa que também concorre a Melhor Filme, assim como o filme brasileiro.


O crescimento do cinema internacional


Nos últimos anos, o prêmio de Melhor Filme Internacional deixou de ser visto apenas como uma distinção paralela e segregadora dentro do Oscar e passou a ocupar um espaço cada vez mais central no debate cinematográfico global.


Esse movimento acompanha uma mudança significativa na própria Academia, que ampliou consideravelmente o número de membros internacionais em seu quadro de votantes. Ao mesmo tempo, o acesso ampliado a filmes estrangeiros por meio de festivais e plataformas de streaming tem aproximado o público de produções que antes circulavam de forma mais restrita.


O resultado é um cenário em que obras de diferentes países não apenas competem entre si nessa categoria, mas também passam a disputar espaço nas principais premiações da noite. A vitória do sul-coreano Parasita (2019) como Melhor Filme, além de Melhor Filme Internacional, marcou um momento emblemático desse processo, reforçando a ideia do cinema global como fator essencial – ainda mais reconhecido no cenário brasileiro após a vitória de Ainda Estou Aqui (2024) na mesma categoria.


Foto: Reprodução/O Globo
Foto: Reprodução/O Globo

As categorias de uma premiação importante como o Oscar possibilitam observar como o cinema organiza seus próprios espaços de visibilidade. Cada indicação revela o sucesso da obra e os caminhos pelos quais ela foi reconhecida dentro da indústria. Mais do que especular vencedores, olhar para essa arquitetura permite compreender como o cinema escolhe enxergar a si mesmo em cada edição do Oscar.


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