Entre no meu corpo. Seja água. Seja Fogo.
“Memórias Póstumas”, de Jão, vai muito além do luto
Por: Vitória Pessoa e Thiago Daniel
Última Atualização: 30/09/2026

O lançamento da nova era de Jão, cantor e compositor brasileiro, com seu quinto álbum de estúdio “Memórias Póstumas” foi introduzido por um teaser de 2min34s com um texto do cantor refletindo sobre o luto e o sentir dessa perda no cotidiano. Com sua gravadora U.F.O. Sounds (da qual Pedro Tófani e Renan Augusto também fazem parte), e em colaboração com a Universal Music, o menino do interior abrange em seu novo disco a perda transmutada por meio da arte. Aqui aparece uma novidade intrigante: Pedro Tófani, co-escritor favorito e namorado de Jão, está presente em 9 das 14 faixas do “Memórias Póstumas”.
Após a pausa, que durou 476 dias, a primeira aparição do Jão foi feita em um breve anúncio de televisão, que, para o fã-clube mais fiel do Brasil, foi um prato cheio para teorizar e ansiar pelo comeback do cantor. Sua carreira sempre mobilizou fãs, que possuem um relacionamento próximo com o cantor, cenário em que o próprio Jão enviou e-mail para a fanbase sobre sua volta.
Ele, que começou a publicar vídeos no YouTube em sua adolescência, hoje apresenta um início de turnê que registra o maior número de público da história do Nubank Parque. João Vitor Romania Balbino fez de seu quarteto de álbuns (Lobos, Anti-Herói, Pirata e Super) uma era para cada e, agora, com Memórias Póstumas, volta aos palcos para mover multidões, mas de uma forma mais madura e sóbria, retratando conflitos internos sobre o falecimento de seu pai, as tensões ocorridas em seu relacionamento com Pedro e uma jornada de autoconhecimento sensorial.
Jão já mostrou que usa sua música para se curar e, nessa nova fase de amadurecimento, ele procura se conectar também com seu eu, conversando com o público sobre uma dor que pode atravessar qualquer pessoa a qualquer momento. Em seu discurso inicial na audição do novo álbum, ele diz: “esse disco é sobre as palavras e como elas podem transformar nossa realidade”, e isso conversa muito com o que ele busca trazer com esse novo projeto: o luto como um processo.
Jão, que antes não queria morrer sozinho, agora apenas quer ser feliz de novo.
O luto é uma experiência individual, mas ainda há sensações muito parecidas que são reconhecíveis por um público geral. Ele trata esse amor de uma forma mais ferida e sóbria, construindo um jeito inteligível de lidar com suas perdas. Jão perdeu seu pai durante a pausa na carreira, num dia comum, numa terça feira qualquer. A morte veio inesperadamente e levou alguém importante, o que complica o processo de cura, porque a vida continua, a expectativa do público continua e o mercado fonográfico continua. Como lidar com tanta dor?
Além de falar sobre essa perda, as faixas do disco também abordam seu relacionamento com Pedro Tófani, que já passou por reviravoltas, períodos afastados e voltas cinematográficas em meio ao público de seu show de turnê em São Paulo. Em “João”, faixa de número oito, escrita exclusivamente por Tófani, existe uma versão melancólica de uma música de amor e dor, como um complemento para a “nota de voz 8” do álbum Anti-Herói. Coincidências? E por falar em coincidências, a faixa 10 que recebe este nome vem mostrar que Jão não brinca com coincidências, usando uma narrativa bonita de acasos, musicalidade profunda com instrumentos fortes, além de uma bela produção musical.
O Arquiteto, escrita exclusivamente por Jão, traz uma das letras mais bonitas do álbum, que também conversa com a música “Por você”. Característica que é muito interessante nas suas músicas, letras que conversam entre si, como um referencial que deixa o disco bem amarrado com seus trabalhos anteriores. Em “Curioso”, Jão aposta na guitarra e nos vocais, e nas batidas mais animadas de “Passeios Noturnos”, é possível ver o público comprando uma balada que ameniza as feridas do eu-lírico.
A fotografia, assinada por Hugo Comte, expressa uma visão etérea do cantor, com a simbologia das flores brancas presentes na estética de “Memórias Póstumas”, marcando um símbolo do luto, também presente com Marisa Sabino. Com o figurino mais social e clássico, Jão vem comunicar a literatura de suas letras com alto estilo, relembrando um look acadêmico e poético, mas sem usar de tons escuros e sim, mais sóbrios.

Com tema pouco explorado antes em seus álbuns, é nítido que essa nova era traz muitas camadas diferentes e com uma direção de arte inovadora. Além disso, Memórias Póstumas também explora novos ritmos e novas formas de se escrever músicas.
Após o último álbum, “Super”, que foi uma grande celebração da carreira, em Memórias Póstumas ele vem diferente, mostrando a reflexão sobre essa mesma carreira, se questionando sobre a grandiosidade e longevidade de tudo. O que existe depois da perda?
Com Marisa Sabino no trailer, ele mostra como é o luto assumindo o controle de vários momentos da vida, e ele entende que ela faz parte de vários momentos e aprende a conviver com ela. Em um dia comum, o luto chega e precisa ser sentido. E foi assim que o Jão passou por seu processo e ainda passa, tentando transformar o luto em suas músicas e trazer luz para lidar com o sentimento, que faz parte dos dias e sempre aparece em alguns momentos para dar um soco na cara.
A produção musical do projeto é dividida com Zebu, velho conhecido dos fãs, que já colaborou com o cantor anteriormente, bem como seu companheiro artístico Pedro Tófani, presente em vários momentos da vida do cantor e em sua produção dos outros álbuns.
Com instrumentos orgânicos e arranjos que culminam em guitarras rasgadas e solos profundos, a grande questão que pairava antes da estreia era: como um registro tão doloroso e confessional se traduziria para uma multidão de milhares de pessoas? A resposta veio logo nos primeiros acordes da turnê. Mesmo diante de versos que expõem as feridas mais íntimas do eu-lírico, a catarse é coletiva. O público absorve a melancolia e a devolve em plenos pulmões, provando a força do engajamento de Jão: não há uma única faixa nova que os fãs não tenham na ponta da língua, transformando lamentos sobre a morte e términos em verdadeiros hinos de arena.
Como produzir uma obra tão íntima e tão dolorosa pode ser capaz de, na multidão de fãs, se transformar em algo leve? Jão responde em carta que escreveu aos fãs antes de performar "Catedral” no show de abertura da turnê no dia 25 de setembro:
“É um título que significa um lugar sagrado, esse ambiente onde deuses e homens se conectam, onde os vivos e os mortos se encontram. Pra cada um de nós esse lugar pode ser uma coisa diferente. Tem gente que vai à igreja pra se conectar com o divino, tem gente que usa alguma substância, tem gente que peregrina, tem gente que pula no mar. Pra mim esse lugar de encontro com o lado de lá é cantar. Esse disco, o meu santuário, onde eu encontrei refúgio, foram essas letras e agora esse show. Nesse exato momento, se você tem alguém que faz falta na sua vida, que você sente saudade, eu prefiro acreditar que agora essa pessoa está aqui, celebrando com a gente, suada, cantando. E eu acho que eu só escrevi essas letras, gravei esse disco pensando nesse momento de agora, bem aqui. Pra cada um esse lugar vai ter um nome diferente, mas pra mim ela se chama Catedral.”

Junto de Isabel Teixeira, atriz e diretora brasileira, que brilhantemente estrela como Pilar em Quem Ama Cuida, Jão constrói uma narrativa de arrepiar. Em 5 monólogos ao longo do espetáculo, Isabel dá vida à morte, uma personagem que, entre as músicas do "Memórias Póstumas” e grandes hits da carreira de Jão, aparece para nos lembrar da finitude na vida. Aparece também para debochar da necessidade do Homem de controlar o tempo e reger a partida de seus entes queridos. Contracenando ora com Jão e ora com um lobo, Isabel, por fim, encanta-se pela vida. Jão, que antes estava perdido e desolado, ao performar Catedral, a última faixa do show, faz as pazes com a morte, abraçando-a e reconhecendo que, apesar de misteriosa, inicialmente malvada e que destrói a expectativa do público no início do show, é intrínseca à existência humana.
No entanto, é justamente na arena que a nova era encontra seu paradoxo. Com uma direção de arte sofisticada e estética etérea, o espetáculo sofre com sua própria ambição visual. A decisão de utilizar um palco 360º entra em conflito direto com a narrativa hipercinematográfica exibida nos telões: parece que o show funciona mais como uma narrativa audiovisual do que, de fato, um show para quem está ali no estádio.
Nas filmagens dos telões, as luzes que piscam das pulseiras distribuídas na entrada do Nubank Parque, servem como um pano de fundo que esbanja grandiosidade, mais cenográfico que, de fato, presente. Ainda assim, quando o distanciamento visual ameaça esfriar a experiência, a música retoma o controle. Jão sabe muito bem da potência de seus fãs e os explora com uma maestria que só uma carreira de 8 longos anos de existência poderia conceber.
Com um álbum tão potente e com um público tão fiel, expor as fragilidades de sua existência foi um acerto incontestável, mas que, apesar de grandes momentos de dramaturgia durante o show, parece um pouco mais mercadológico do que realmente deveria. Não que fazer um documentário em parceria com a Netflix e uma festa pós-audição com a Adidas seja um problema, ou que um show patrocinado pelo Itaú numa arena chamada Nubank Parque seja de péssimo tom, apenas apresenta um paradoxo que talvez acompanhe Jão pelo resto de sua carreira: a grandiosidade e a intimidade conseguem andar lado a lado?
De certa maneira, sim. A delicadeza do álbum combina com a experiência de ouvi-lo em fones de ouvido ou dentro de casa. Em um estádio com sua capacidade máxima, talvez não.



Comentários