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A FÉ COMO LINGUAGEM DO POP

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    Revista Curió
  • há 1 hora
  • 2 min de leitura

Como a espiritualidade deixou de ser apenas provocação para se tornar símbolo de identidade e busca por significado na música contemporânea.


Por: Guilherme Vasconcelos

Última Atualização: 20/05/2026


Anitta em EQUILIBRIVM - 2026 via Instagram/Reprodução
Anitta em EQUILIBRIVM - 2026 via Instagram/Reprodução

Álbuns com temática espiritual têm se tornado cada vez mais comuns. Rosalía, com LUX, Anitta, com EQUILIBRIVM e M.I.A, com M.I.7 são alguns dos recentes lançamentos que trazem a fé como ponto central. Mas por que isso tem se intensificado?


Parte da resposta está no que alguns pensadores chamam de pós-secularismo: a ideia de que a religião não desaparece na modernidade, mas ressurge sob novas formas.


Quando voltamos um pouco no tempo, é possível perceber que essa representação do sagrado na música pop já foi bastante diferente. Antes, a religião aparecia como fator de subversão e provocação, um sistema de poder a ser desafiado. Artistas como Madonna e Lady Gaga já protagonizaram embates significativos com a Igreja Católica ao trazer questionamentos sobre desigualdade e opressão em seus trabalhos.


Hoje, porém, o cenário é outro. A religião já não surge no pop, majoritariamente, como algo a ser combatido, mas como algo a ser reinterpretado. Isso reflete uma mudança mais ampla: o lugar da fé na vida contemporânea também se transformou. As grandes instituições perderam parte de sua centralidade, mas a necessidade de significado permaneceu.


Nesse contexto, a espiritualidade aparece menos como dogma e mais como um repertório pessoal. Os artistas não necessariamente defendem uma religião específica; em vez disso, apropriam-se de elementos espirituais para construir narrativas sobre identidade, cura, propósito e pertencimento. É por isso que, em trabalhos recentes como os de Rosalía, Anitta e M.I.A., a fé surge como dimensão interpessoal, mas também como campo aberto de experimentação estética e emocional.


No Brasil, essa discussão ganha um peso ainda maior, já que falar de espiritualidade também é falar de apagamento cultural. Quando MC Tha lança Rito de Passá, misturando elementos da umbanda com funk e outras sonoridades brasileiras, ela retoma um movimento que já aparecia em Um Banda Um, de Gilberto Gil, mas com uma nova roupagem e uma mistura de ritmos inovadora para a música contemporânea brasileira. 


Nesse sentido, é importante reconhecer como um álbum independente ajudou a abrir caminhos para discos que hoje não hesitam em utilizar símbolos, sons e figuras de religiões de matriz africana, como Carranca, de Urias, Ojunifé, de Majur, e, mais recentemente, EQUILIBRIVM, de Anitta.


Mais do que uma tendência estética, essa retomada da espiritualidade no pop escancara um sintoma do nosso tempo. Em um cenário marcado pelo excesso de informação, pela lógica das redes sociais e por um certo esgotamento coletivo, a fé reaparece como uma tentativa de reorganização pessoal. O pop, como termômetro cultural, não cria esse movimento sozinho, mas o amplifica: transforma essa busca difusa em imagem e som. Talvez seja menos sobre religião em si e mais sobre a necessidade contemporânea de acreditar em alguma coisa, ainda que essa crença precise constantemente ser reinventada.

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