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Comprando brigas que valem a pena

Foto do escritor: Revista Curió
Revista Curió
27 de mai.
7 min de leitura

A 9ª edição do Festival Imune celebra, mais uma vez, a excelência artística mineira, negra e independente.


Por: Stela Maris

Última atualização: 27/05/2026


Vita Pereira no Festival IMUNE por Bárbara Moreira / @eusoubabs 
Vita Pereira no Festival IMUNE por Bárbara Moreira / @eusoubabs 

Entre os dias 02/05 e 03/05, o Coletivo IMUNE e a Feira SEMPRE celebraram a cena eletrônica mineira e a cultura ballroom, apresentando suas novas apostas para o mercado da música, tudo somado ao arrebatador espetáculo de Vita Pereira ao apresentar seu recente álbum “Vita’s House”.


Muito do que chega ao radar nacional, vindo de Belo Horizonte, um dia nasceu entre Bahias e Florestas, passou pelo viaduto Santa Tereza – por cima e por baixo, vale lembrar – e ergueu palcos em casas que (também um lamento recorrente sobre a cidade) não existem mais.


É nas ruas, na vontade de fazer um coletivo, que, como diz o estereótipo do bom mineiro, esses pequenos movimentos vão ali, comendo quietos, pelas beiradas, até que um dia você vai a um rolê pela primeira vez e se pergunta: como não vi/ouvi isso aqui antes? Como nunca fui nessa festa? Que mundo é esse que eu não sabia que existia?

Bem, é preciso sair um pouco de casa e procurar nas frestas o que conversa com você. Sair com aquele amigo sumido. Se deixar levar pela programação para a qual alguém não muito próximo te chamou, sem medo de ser o entrosa da vez. Porque, se há sempre algo novo ou uma ideia nascendo, ao mesmo tempo, nós, como frequentadores, precisamos estar abertos a isso, sem que tudo precise cumprir a expectativa do Novo Grande Momento, do centro do hype ou do lugar mais bafo.


Na capital com jeito de cidade pequena, é um misto de sensações ver, algumas vezes, os mesmos rostos nos mesmos lugares. O conhecer alguém que conhece alguém que pode se conectar a você tem um grande potencial para parcerias criativas, que ganham o adendo honesto de serem pautadas em boas conexões com chegades. Mas deixar as portas um pouco mais abertas para quem ainda tem um pezinho com vontade de entrar também precisa ser parte desse exercício de possibilidades. Às vezes, boas descobertas vêm naquela despretensão, em algum lugar nem tão ali no Circuito. Se há um DJ e meia dúzia de gente ouvindo, mas há propósito na troca, no porquê, na interação arte/artista/público, já é uma faísca, um passo para isso viver. Bem, sobreviver é outra coisa, vamos com calma!


Por onde caminha o IMUNE?


Entre ter muitas pulsões artísticas e vontade, surge a necessidade de haver um meio e um realizador – alguém que vai ouvir essas vozes e ajudar com um banquinho, um som, ligar um microfone, fazer uma nota sobre; não como a caridade salvadora do “dar voz e luz” – whatever that means – mas entendendo por que essa voz é importante e sabendo que é possível amplificá-la.


É nessa que o IMUNE – festival que centraliza a arte de pessoas pretas nascidas em BH, assim como o coletivo que o nomeia – comemora seus 9 anos, sobrevivendo a uma pandemia e às diferentes mudanças no fazer cultural no Brasil, no Sudeste e na capital de Minas. Na edição mais recente, uniu nomes como GDZ (do duo Cyberkills, de São Paulo) e também convidou joias da casa, como a artista Cleópatra, que integra a curadoria do festival IMUNE e da Feira SEMPRE.


Bia Nogueira, que está à frente deste grande ecossistema que inclui música, debates e oficinas, e está em frutífera parceria com a Feira SEMPRE - Semana da Música Preta, Indígena, Periférica e LGBTQIAPN+, pensa as singularidades na música mineira e a ocupação de espaços entre o alternativo, o independente e a busca por oportunidades:

Bia Nogueira: “Uso meu privilégio de poder circular, porque gasta dinheiro. A gente sempre fala isso entre pessoas negras: aprender a ler para ensinar meus camaradas. Foi por isso que eu fiz a feira. Precisamos chamar os players, os produtores e programadores para virem para cá (BH), porque os nossos artistas não têm condição, todos, de ir morar em São Paulo, ir morar no Rio, ou ficar circulando o Brasil inteiro.A gente só tá vendo antes porque estamos conectados com a vida cotidiana real. Acho que o Festival Imune tem esse papel de estar olhando para o presente. O mainstream sempre é o passado. A gente sempre está no futuro, tenho muito orgulho disso. Meu papel como artista, como pensadora, como alguém da cultura, agente da cultura, é fazer conexões.Temos muita coisa rica para apresentar. Mas precisa de articulação, a gente precisa de estratégia. Quando o nome cresce, esse nome precisa levar o resto. Meu papel é ver quem está crescendo e falar: ‘Eu vou te ajudar, mas quando você tiver grande, se você tiver grande, leva quem tá junto.’ Quero que as pessoas entendam que esse individualismo, que é próprio do capitalismo, mas que se aprofundou com as redes sociais, não é benéfico”.

Apostando alto


Neste ano, o IMUNE inaugurou uma nova ‘editoria’ dentre as pautas do festival: a sessão Aposta, elegendo como tal nomes fortes e com grande potencial para alavancar o que o coletivo propõe como norteador. Vita Pereira, primeira da série, é, para além de cantora, atriz e diretora, também produtora cultural, e participou das palestras da programação trazendo sua visão sobre a importância entre os polos que o IMUNE e a Feira SEMPRE reúnem:

VITA: “Às vezes, nós, artistas, temos, para além das redes sociais, outros espaços para conversar sobre a nossa pesquisa, sobre o nosso trabalho, sobre um single, sobre a sua nova era. Acho que essas feiras, debates, oficinas, workshops e residência servem como uma ponte para a gente conseguir falar aquilo que a música não dá conta, falar aquilo que o teatro não dá conta, falar aquilo que só com a conversa, com a troca a gente consegue. Estou muito feliz de também poder mostrar minha intelectualidade, que parte, por sua vez, de vários estudos de outras pessoas trans.”

E quem há de contestar a grandiosidade de existir ali uma comunidade? O saldo da noite foi um público que cantou as músicas e absorveu as letras. Absorver o que existe entre repetir um milhão de vezes, ao comando da cantora, que na casa da Vita vai rolar uma putaria, e, em outro momento, profetizar junto quando ela própria entoa: ‘quebre a disforia’ e ‘na casa de Exu há Vita’. Coisas que números de plays nas plataformas de streaming e engajamento no Instagram não podem comprar.


É o cool, um estilo, um jeito de se ver e projetar no mundo que deixa fácil perceber o que é real e o que é tentar acompanhar a próxima tendência. É o cunt – que Candy Mel, na letra do feat com Vita, Treme a Língua, já avisa: “quem não tem, se arrepia”.

“Eu inventei a categoria Aposta por causa da Vita. Ela, muito além de tudo que ela representa (enquanto artista travesti negra), é muita potência. Ela veio dar o depoimento, contar do case dela, e eu tô fazendo várias conexões dela com outros compradores de shows, com outras pessoas do mercado. É uma parceria artística lógica, política e de mercado. E eu vou levar ela para almoçar na minha casa. (risos)", diz Bia Nogueira.

Aposta é acreditar na força de um espetáculo – com balé, DJ, participações com as pratas da casa (Mac Julia, MC Morena e Amerikana, cuja aparição foi memorável no show, recebida pelo público aos berros da tagline “a-me-ri-amerikana”) – e não só dizendo que o trabalho é lindo, forte e representativo: mostrando que ele o é. Vendendo ingressos, lotando casas de show, apresentando-se a novos fãs e, sobretudo, valorizando o trabalho de todas essas pessoas que vivem da arte, que não se faz apenas com amor – se ocupa lugares, passa recado, compra a briga dos grandes pela mensagem do conjunto da obra. E, com Vita, não tinha como não ser grandioso.


Entre outros acertos: momento ballroom toma conta do IMUNE


Outro grande destaque da noite foi logo na abertura – o DJ Calleb, ali como Calleb Capiva, abriu as portas para a ball “BH é Quem?”, promovida pela Kiki House of Capiva. Era cedo, mas grupos de pessoas aqui e ali, em preto e branco (o dress code da ball), já marcavam presença.


“O dress code foi basicamente dentro das cores que estão sendo usadas no álbum da Vita. E nos nossos grand prizes (os prêmios), a gente colocou umas chavinhas dentro, como se fossem as chaves da casa da Vita. Espero que ela não tenha uma surpresa (risos)”, afirma GOOLIVER.

“Underground da cultura LGBTQIAPN+”, como define o father (na ballroom, figura de liderança nas houses) Goolliver Capiva, a Ballroom em BH é frutífera, um dos berços da cultura no Brasil. Ser polo importante do Vogue na América Latina é um título do qual se orgulhar, mas, dessa vez, trazê-la para o grande público no IMUNE também conversa 100% com o que diferencia o “dar voz” de amplificá-la. Felizmente, o festival está na segunda alternativa:

“Ver a comunidade Ballroom tendo esse espaço e o público a conhecendo de verdade, não apenas por conta de seriado ou de uma forma equivocada – como alguns reality shows que a usam de inspiração, mas não necessariamente são ballroom, como o Drag Race, que tem a sua importância, mas não fala realmente daquilo que é a comunidade – é significativo. Então, mesmo que a gente considere esses eventos como ‘mini balls’ e ‘show balls’, eles são uma ponte para que as pessoas consigam entender um pouquinho de verdade”, retoma.

O palco ferve desde o início, mas o clima atinge o auge durante as categorias, momentos em que as pessoas irão primeiro ganhar um júri de peso e depois batalhar com outras “competidoras” para levar o autoexplicativo grand prize: não há silêncio.


A banca contou com a presença de Tasha Dengo, que também está em Sequência Cunt e, além de mother na House of Dengo, é dançarina, acompanha Vita nessa turnê e, assim como o resto do balé, tem essa conexão com a ballroom. Com a régua no alto, Satya Capiva (“tag” ou “sobrenome” que indica a house de onde a pessoa vem, ou 007 se não tiver uma), Timmy Dubeco e Negona Dance 007 também compuseram a mesa.

“A gente quis trazer runway, Batekoo versus passinho, sex siren e o vogue OTA, porque todo mundo adora o pessoal dançando Vogue (risos). E o sex siren não é apenas a pessoa chegar e simplesmente ser erótica ou se mostrar; é, basicamente, seduzir o júri, seduzir o público em si. E seduzir não necessariamente é mostrar tudo", diz GOOLIVER.

Entre os pedidos para que “batam palmas, joguem a energia no alto”, do palco, Chanter, MC e até quem está na produção movimentam o público – e entre leigos, de fato, espectadores recorrentes ou pessoas da cena que só não caminharam no dia, é sempre divertido acompanhar as expressões de choque, encanto e surpresa a cada categoria.


Envolve pela música, cujos beats acompanham os 5 elementos do vogue que o júri quer ver. O jeito certo de executar uma caminhada no runway para não levar chop. Entre o glamouroso e o autêntico de se levar a esse espaço, criando ou não uma versão nova de você, também é sobre levar para caminhar e ressignificar o que você leva como vulnerável. E, por fim, é bonito observar aí, também, a noção de comunidade.


Dos bons finais de semana em BH, longa vida ao IMUNE e à Feira SEMPRE.

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