Entre o azul e o preto: a delicada busca por conhecimento em Moonlight
- Revista Curió
- 3 de jul. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 10 de jul. de 2025
Eleito o quinto melhor filme do século XXI pelo The New York Times, a obra acerta ao apostar na simplicidade para discutir assuntos sérios
Por: Tol Ramos e Rafael Silva
Última atualização: 03/07/2025

Das praias de Miami ao coração do litoral cubano, brilha a mesma luz da lua. Por ela, guiam-se garotos negros, que, na areia, dão os primeiros passos rumo ao auto conhecimento. É essa subjetividade que norteia Moonlight: Sob a Luz do Luar (2016), um dos filmes mais aclamados da última década.
Moonlight não fala, mas sussurra questionamentos que nos levam a entender tudo o que o silêncio diz. Barry Jenkins, diretor do longa e de outros trabalhos brilhantes, como Se a Rua Beale Falasse (2018) e Aftersun (2022), aposta em uma cronologia simples com tom singelo, tornando tudo muito autêntico.
Entre dilemas que envolvem raça, vulnerabilidade social e sexualidade, acompanhamos o jovem Chiron em três fases: infância, adolescência e vida adulta. A trama começa por onde, naturalmente, deveria, fugindo de recursos comuns do audiovisual contemporâneo, como o flashback, para fazer com que cresçamos exasperadamente com o garoto, sem olhar para trás.
No primeiro capítulo, somos introduzidos a Little, um pequeno menino de Liberty City, um subúrbio da Flórida, nos Estados Unidos – curiosamente, o mesmo local em que Jenkins cresceu. Quem dá vida ao menor, franzino e introspectivo, é Alex R. Hibbert, que esconde, no fundo dos olhos, a dor e curiosidade quase oculta da figura que interpreta. É por esse mesmo olhar que conhecemos e sentimos tudo que vem a seguir.
Refém de algo que não controla, Little é vítima de homofobia mesmo sem saber o que isso significa. E, em fuga de tudo o que o perturba, cruza seu caminho com o de Juan, chefe do tráfico de sua região, que se materializa na genialidade de Mahershala Ali, premiado com o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel.
Contra tudo o que pensamos, esse homem altivo e imponente não é tão intimidador quanto parece. Com o tempo, ele preenche o espaço da figura paterna que se fez ausente por ali. O encontro torna a vida do garoto mais viva, assim como a nossa experiência enquanto espectador. Juan mostra a Chiron que ele também pertence ao mundo.
É neste momento que o filme nos joga a primeira responsabilidade: tentar entender quem é essa pessoa. Um exercício que nos leva a pensar quem somos nós. Assim, quebra-se a primeira grade da prisão de Chiron. É, talvez, onde as lágrimas começam a rolar pelo nosso rosto. Esse cenário se materializa de forma emblemática quando Juan ensina Little a nadar.

Sem ar. É assim que o menino fica na maré incrivelmente azul da costa norte-americana. É também como nos sentimos ao assistir. A câmera viaja e nós nos afogamos. Nos braços do mais velho, o menino preto, que não pertence a lugar nenhum, conhece o mar como sua nova casa. Little aprende a dar as primeiras braçadas sozinho e a água vira refúgio. Acontece uma espécie de batismo, enquanto nós assistimos orgulhosos.
Vemos tudo azul, tom que nos acompanha ao longo da história. Juan conta que, quando criança, corria e gritava pelas praias de Cuba, até ser parado por uma velha senhora. “Você fica correndo por aí sob a luz do luar. Em noite de luar, meninos pretos parecem azuis. Você é azul. Eu vou te chamar assim: Azul”. Little questiona se é dessa maneira que Juan se apresenta. “Não. Em algum momento, você tem que decidir quem quer ser. Não pode deixar que ninguém decida por você”.
Logo, damos de cara com o segundo capítulo: Chiron decide assumir o próprio nome. Juan já não está mais em cena, sua partida fica subentendida. O cuidado com o adolescente fica a cargo de Teresa, esposa do traficante falecido, descrita na compreensão de Janelle Monáe.
Tudo fica mais visceral. As agressões físicas ganham contornos ainda mais severos no ambiente escolar, enquanto a pressão psicológica de sua mãe, cada vez mais imersa nas drogas, torna-se um desafio ainda maior. O grito do menino fica cada vez mais engasgado, assim como o nosso.
Jenkins consegue prender nossa atenção na tela com belos primeiros e primeiríssimos planos, que atravessam a alma dos personagens e nos fazem um convite à empatia– característica registrada do diretor. A luz no fim do túnel vem de maneira muito ambiciosa: pelo amor. É o que nos faz acreditar que algo no meio de tanto azar ainda traz sorte.
O sentimento adquire o rosto de Kevin – na infância como Jaden Piner, adolescente como Jharrel Jerome e adulto como André Holland –, uma figura presente desde a infância de Little. É o mais próximo de um amigo que conhecemos, mas é também mais um garoto numa busca conturbada por si mesmo. Em frente à sociedade, tal procura não abre brecha para outros tipos de orientações sexuais.

A praia, que se torna nosso ambiente de conforto, é palco do primeiro beijo entre os meninos, iluminados pela luz azul do luar. No entanto, uma reviravolta impede que os dois, de fato, se aproximem.
Com altas doses de surpresa, surge o terceiro ato. Chiron agora é Black, apelido pelo qual o amigo e romance o chamava. Vivido por Trevante Rhodes, agora ele é o novo chefe do tráfico do local onde mora; um espelho de Juan.
É forte, dono da área, tem ouro nos pulsos e até nos dentes. Veste uma armadura e chama a atenção por onde passa. É, por fora, tudo o que um dia quiseram que ele fosse. Os trejeitos que se voltavam à feminilidade não existem mais. O que permanece é a introspecção.
O fim é um grande arco de redenção. Ali, Moonlight mostra sua maior arma: a delicadeza. As cenas, ao contrário dos pedaços anteriores, são mais longas. Agora, Chiron fala, mesmo que com receio. É um trabalho de perdão na vida do protagonista. É a poesia em forma de audiovisual.
Ao longo do filme, conhecemos três faces de Chiron – três fases de sua lua. A última, fica a nosso encargo. Um afago de um futuro próspero e amoroso para o protagonista.
Quase uma década depois do lançamento, a obra de Barry Jenkins mantém seu impacto na indústria e na vida daqueles que assistiram. A quantidade exorbitante de participações em prêmios da sétima arte, os quais venceu 235 dos 310 indicados– como o Oscar de Melhor Filme em 2017, no conturbado episódio com La La Land (2016) – , vai contra todo o pouco barulho de Chiron durante a história.
Moonlight não termina em 1 hora e 51 minutos. Ele cria mais e mais questionamentos, espalha-se por mais e mais rostos. Afinal, quem somos quando a luz do luar nos toca?
NOTA: 5/5



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