“O Drama” é tudo que você espera de um romance da A24
- Revista Curió
- há 7 horas
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Produtora entrega um longa que desconforta, julga e não oferece absolvição
Por Lucas Ducone e Vitor Pepino
Última atualização: 09/04/2026

O mais novo filme da A24, estrelado por Zendaya e Robert Pattinson, parecia ser mais uma daquelas típicas comédias românticas. Mas a Curió assistiu O Drama (2026) – a convite da Diamond Films – e pode afirmar: o título faz jus à fama da produtora e entrega muito mais que só melancolia e drama sem necessidade.
Logo quando foram divulgadas as primeiras imagens do filme, a ideia que pairava era de um casal feliz, apaixonado e cheio de química – pronto para o casamento do ano. Isso caiu por terra assim que foi divulgado o primeiro trailer, e as dúvidas começaram: o que aconteceu com aquele casal de jovens prontos para viver o sonho do casamento perfeito?
Esse é o questionamento que permanece durante os primeiros 20 minutos de filme (por isso o ideal é ir assistir O Drama sem muitas informações anteriores). O diretor norueguês Kristoffer Borgli (O Homem dos Sonhos, 2023), nos mostra Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya), personagens que se desenvolvem de maneira calma e encantadora, até a semana do casamento - que deveria ser a consolidação desse amor -, justamente o momento em que tudo desmorona.

Esse é o questionamento que permanece durante os primeiros 20 minutos de filme (por isso o ideal é ir assistir O Drama sem muitas informações anteriores). O diretor norueguês Kristoffer Borgli (O Homem dos Sonhos, 2023), nos mostra Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya), personagens que se desenvolvem de maneira calma e encantadora, até a semana do casamento - que deveria ser a consolidação desse amor -, justamente o momento em que tudo desmorona.
Durante uma brincadeira entre amigos, cada um deve revelar “qual a pior coisa que já fez na vida”, e é a partir dessa confissão despretensiosa que a história começa. Emma, que se encontra um tanto quanto embriagada, se sente confortável após todos dizerem suas piores atitudes e decide, naturalmente, contar para os amigos, e para Charlie também.
Após a revelação, o clima na mesa muda, a linguagem do filme vira, e o que vemos agora são gritos, julgamento, desconforto e vergonha, sentimento que Borgli sabe bem como conduzir. A edição, comandada por Joshua Raymond Lee, é um dos destaques e dita perfeitamente o tom em que o filme quer nos colocar: com quebras de eixo e muitas vezes cenas sem continuidade – o sentimento que fica é de aflição a cada segundo que passa, como se o longa não quisesse entregar tudo que acontece da forma mais fácil. Utiliza de flashbacks, close-up e tenta nos colocar dentro da cabeça de Emma e Charlie, fluindo pelos seus pensamentos confusos.

A trama se passa majoritariamente pela ótica de Charlie, que sem saber lidar com a situação, tenta encontrar motivos para continuar ou não com o casamento, que se aproxima e o sufoca cada vez mais. Ele não consegue mais acessar suas próprias lembranças sem contaminá-las com o que acabou de descobrir, e o filme encena isso literalmente, com flashbacks que agora parecem demonstrar o que sempre esteve em sua cara. Borgli faz uso dessa escolha formal e elegante, que diz mais sobre o mecanismo do trauma do que qualquer diálogo poderia.
Enigmático e espontâneo, o roteiro nem sempre anda por caminhos cronológicos. O longa brinca com o confuso, com a imaginação e, principalmente, com a tensão em toda relação interpessoal que é mostrada. As atuações, tanto dos protagonistas como dos coadjuvantes, complementam bem a obra cinematográfica: a indignação de Rachel (Alana Haim) ao descobrir a história e o cinismo durante o jantar de casamento; ou a forma como Misha (Hailey Gates) se deixa levar pelas loucuras do noivo, que encanta e a0 mesmo tempo gera cada vez mais desconforto.
A partir disso,o público sente a necessidade de tomar partido. Como dissociar o feito de alguém anos atrás de sua imagem atual? Emma já não é a mesma, mas agora qualquer atitude que tenha no presente remete a Charlie ao que ela fez no passado. E sem uma luz no fim do túnel, a história parece impossível de chegar no sonhado felizes para sempre. O Drama subverte a ideia do casamento, como um balde de água fria, mostrando que nem sempre conhecemos tudo sobre quem nos relacionamos e deixa no ar: até onde vai sua tolerância emocional?
Se tratando de um assunto tão sério e um dilema um tanto quanto presente na vida dos estadunidenses, O Drama promete severas discussões nas redes sociais. Apresentando debates reais, ele brinca com o pensamento, com o desejo, e as ações que tomamos a partir disso: querer fazer algo ruim é tão abominável quanto fazer algo ruim? Resposta certa, no longa, não existe.
Constrangimento, vergonha alheia, timidez e tensão social são alguns dos sentimentos que surgem ao assistir o filme. Isso o torna não apenas um romance, uma comédia, ou um drama – O Drama reúne o que há de melhor em cada uma das definições e se coloca para fora da caixa.



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