Hacks é a série definidora dos anos 2020
- Revista Curió
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A história de amor de Ava Daniels e Deborah Vance perdurou durante 5 anos para acabar do jeito que começou: com a comédia
Por: Pedro Naves
Última atualização: 04/06/2026

Mais uma quinta-feira se inicia – e nunca mais será uma quinta de Hacks. As estreias da HBO nesse dia da semana farão menos sentido sem Ava e Deborah. Aos que não sabem sobre quem estou falando, em breve terão a chance de conhecer e se apaixonar pelas maiores personagens da comédia da década. Assim como elas aprenderam a se amar.
Uma veterana da comédia precisa reviver sua carreira e atingir novos públicos. Ela precisa vender shows para que estrelas como o Pentatonix – sim, o grupo que fazia covers no youtube – não roubem suas datas. A solução: contratar uma jovem roteirista para tornar seu texto mais "woke". É assim que se inicia a primeira temporada de Hacks, série original da HBO Max, estrelada por Jean Smart (Deborah Vance) e Hannah Einbeinder (Ava Daniels).
Já familiarizada com o gênero na televisão, Jean Smart é um colosso da comédia – a mulher que em tela domina tudo. Colecionadora de sete Emmys, sendo quatro deles por interpretar a Deborah na série, ela mostra como os veteranos têm muito lugar nas grandes séries tanto quanto os novos astros.
Os criadores da série, Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky, acreditam muito no poder da estrela. Paul, que também interpreta Jimmy, o empresário das protagonistas, segurou a estatueta do Emmy 2024 quando venceu Melhor Série de Comédia e discursou: “Pessoas com mais de 60 anos representam 20% da população e são apenas 3% dos personagens na televisão. Eu gostaria de ver mais deles, porque eu sou um ótimo jovem ator coadjuvante e eu adoraria ser um excelente protagonista velho”.
A discussão sobre a presença de pessoas idosas em tela não fica apenas nos bastidores e na produção da série. É um tema central dentro do show.
Os excelentes – sem nenhum eufemismo – jovens atores coadjuvantes levam Jean Smart ao estrelato. Queria poder mencionar todos, mas só a presença de Hannah Einbeinder, Paul Downs, Megan Stalter e Kaitlin Olson já é suficiente para um texto individual.

Para além das performances, seus personagens discutem a relação com a protagonista, uma mulher de 70 anos. Então, no final de tudo, Hacks é uma série sobre conflito geracional, e é justamente por isso trato ela como definidora dos anos 2020.
O contraposição entre o conservadorismo e o woke aparece no cerne de seu desenvolvimento onde uma roteirista bissexual e ativista feminista tem que trabalhar para uma comediante consagrada que faz piadas batidas sobre sexo e aborto.
Em nenhum momento esses personagens são estereótipos de suas representações. Ava inicia a primeira temporada em uma depressão profunda e completamente engolida pelo sistema de trabalho vigente. Mesmo nesse lugar, ela não deixa de ser uma pessoal dificílima de trabalhar e desesperada por atenção.
Deborah é uma velha, branca e rica que ganhou sua vida na comédia e trata mal todas as pessoas que pode. Apesar disso, ela não deixa de ser uma pioneira na sua área que sofreu todos os tipos de agressão possível para ser a primeira mulher em… qualquer coisa.
Ava e Deborah têm que encontrar a melhor forma de se reconciliar e no final de tudo é a comédia que as une. No primeiro episódio, Ava é contratada por ter coragem de revelar uma piada que estragou sua reputação e isso fez com que a comediante pensasse em outra piada genial. Esse ciclo se fecha no último episódio da série, quando pensar sobre uma piada que, com certeza seria melhor do que a que está encaixada no texto, fez com que Deborah tivesse vontade de viver.
Ao decorrer da trama, a veterana passa a enxergar como certas discussões merecem carinho ao mesmo tempo em que a novata entende a dor necessária para pavimentar o caminho.
Tanto que se torna difícil se desvencilhar dessa batalha quando ambas personagens assumem o controle do Late Night e Deborah entende que precisa fazer certas concessões para que os chefões da emissora – homens brancos e velhos – permitam a existência do seu programa. Já Ava acredita que a apresentadora chegou tão longe justamente por não ceder a estas pressões.

Final de drama épico
Engraçado como seria uma grande sacada uma série sobre as aparências, sobre como você quer ser visto e que legado deixar pro mundo terminasse em um desfecho de eutanásia. Mas os personagens que já passaram pelo vale das sombras da depressão terminam com um papel e caneta na mão prontos para dizer uma nova piada e confirmar: essa era a melhor piada.
Na discussão sobre como você quer ser lembrado, Deborah me lembrou muito minha avó. Uma pessoa que, acima de tudo, se importa com as aparências. Acho que por essas pequenas semelhanças vejo como o conflito geracional da série é um de seus motores.
A comediante quer ter controle total de seu legado, como vai ser lembrada e como vai morrer. O problema é que a própria série já nos mostrou que não existe controle. Você não sabe quando será o auge ou o momento mais baixo da sua carreira.
Você pode estar completamente ferrado enquanto comanda o Late Night with Deborah Vance e pode ser a pessoa mais feliz do mundo enquanto faz um show de graça no Central Park. Não existem explicações, apenas apreciar o caminho e as surpresas que ele te traz.
Deborah e Ava se aproveitaram desta maneira: entendendo as imperfeições uma da outra e convivendo bem com isso. Não à toa, a ideia que vai render a personagem de Hannah, uma série dentro da série, é a vivência entre duas amigas de gerações completamente diferentes.
Hacks também é uma série que discute a indústria e essa amostra de metalinguagem no final permite ver como ela entende esse aspecto perfeitamente. Em um quase epílogo, após o auge de Deborah Vance, o episódio final da série permite que essas personagens vivam com alegria porque merecem depois de tudo.
Ava Daniels aparece pela primeira vez sorrindo por trás do title card da série. A personagem que começou em um fundo do poço agora pode sorrir, porque além de estar realizando seus sonhos encontrou em uma das suas maiores amigas, um amor para sua vida.

O Twitter desde o início é infestado com o ship entre as protagonistas. A piada até rendeu o episódio Montecito (7x5) em que elas fazem um fake date. Apesar disso, o casal nunca ocorreu de forma canônica, e está tudo bem, porque essa também é uma série sobre encontrar o amor de sua vida.
Não da forma mais convencional, mas em seus amigos. Deborah e Ava se amam, assim como as atrizes Hannah Einbinder e Jean Smart. Essa é uma série que fala sobre o amor no meio das diferenças – às vezes inegociáveis – e como isso atravessa gerações. Por isso espero que o tempo passe e sigamos falando sobre Hacks.
Deborah Vance entra pra história mais uma vez
Nos primeiros resquícios do legado que Hacks ainda vai construir, Jean Smart está prestes a bater mais um recorde e se tornar a primeira atriz a vencer um Emmy pela atuação em todas as temporadas de uma série de comédia.
Essa marca quase foi alcançada por Julia Louis-Dreyfus em 2019 quando a protagonista de Veep perdeu por sua atuação na última temporada da série para a Phoebe Waller-Bridge como a lendária Fleabag. A derrota veio depois de seis vitórias consecutivas da veterana pela comédia em que ela interpreta a vice-presidente dos Estados Unidos.

Na temporada atual, Jean Smart deve concorrer com outro novo grande. Lisa Kudrow deve aparecer na lista como Valerie Cherish, protagonista de The Comeback. A atriz volta depois de 21 anos para a temporada final e é forte candidata a corrida.
A possível vitória da protagonista de Hacks dá o feito inédito a Smart e também iguala o recorde de prêmios por atuação do Emmy, de 8 estatuetas. As detentoras dele atualmente são Cloris Leachman e Julia Louis-Dreyfus.
O novo marco vem depois de Jean Smart ser a primeira pessoa a realizar o sweep – levar todos os prêmios da temporada da televisão americana pela mesma temporada – duas vezes. A veterana levou o Emmy, o Globo de Ouro, o SAG Awards, o Critic’s Choice Awards e o Television Critics Association Awards (TCA Awards) pela segunda vez durante a terceira temporada de Hacks.
O primeiro sweep aconteceu na primeira temporada da série e ela se juntou a Sarah Paulson, Phoebe Waller-Bridge, Rachel Brosnahan e Catherine O’Hara como detentoras do posto. Recentemente, Noah Wyle foi o primeiro ator a conquistar os cinco principais prêmios da temporada pelo primeiro ano do drama médico The Pitt.
Essa é uma conquista notável porque além de vencer todos principais prêmios de Melhor Atriz/Ator na categoria da sua série, o candidato precisa conquistar o TCA Awards, premiação onde as performances de homens e mulheres são premiadas sem distinção de gênero, então as categorias de Drama e Comédia juntam todas as performances da temporada.



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