Terror independente é vitrine para cinema de baixo orçamento
- Revista Curió
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Produções de terror de pequenos produtores ultrapassam metas de bilheteria e “espantam” com a qualidade ascendente das cenas e narrativas
Por Evelyn Costa e João Henrique Nascimento
Última atualização: 10/07/2026

Investir uma quantia que representa apenas a mínima fração de um retorno posterior significativo alcançado a partir de um longa-metragem independente se aproxima de um roteiro de ficção. No entanto, o cinema de terror de pequenos produtores está se mostrando disruptivo com esse padrão e abrangendo o público com certa originalidade. Backrooms - Um Não Lugar (2026), longa-metragem dirigido pelo norte-americano Kane Parsons, é um exemplo palpável deste fenômeno cinematográfico.
O filme é baseado na creepypasta de mesmo nome, na qual pessoas aleatórias, em lugares indeterminados, sofrem um fenômeno chamado No Clip e atravessam paredes para entrar em outra realidade. Esta outra dimensão é composta por espaços liminares, ou seja, espaços de transição, como estacionamentos ou corredores, que possuem tamanhos anormais e não seguem um padrão. São uma espécie de labirinto infinito em que as vítimas do No Clip devem tentar escapar resolvendo enigmas.
O filme de Parsons é um dos exemplos do conjunto de produções cinematográficas consideradas indie – termo que vem da abreviação do inglês “independent”. Essas obras independentes são produzidas e distribuídas por cineastas independentes ou por pequenas produtoras, além de possuírem pouco ou nenhum envolvimento de grandes empresas de cinema e serem desenvolvidas a partir de características únicas de cada diretor. Contudo, há uma nuance detalhe no caso do longa de Parsons, no qual embora tenha raízes independentes na internet, o projeto foi viabilizado pela produtora destaque A24. Esta injetou orçamentos maiores, cerca de US$ 10 milhões (aproximadamente R$ 51 milhões) em visões autorais, sem podar a liberdade criativa do autor.
Naturalmente, por não receberem grandes subsídios, é esperado que o orçamento necessário para as etapas de produção seja baixo.
Assim como Backrooms - Um Não Lugar (2026), filmes como Corrente do Mal (2015), Terrifier (2016-2024) e Obsessão (2026) também fazem parte de um mesmo gênero cinematográfico, o terror. Por sua vez, gêneros no cinema seriam categorias que convergem obras a partir de um grau de afinidade entre elas de diversas camadas, no qual as características que mais determinam um filme em um gênero costuma ser o aspecto narrativo e o temático.
A identificação de um gênero em um filme pode ser feita a partir da observação da ampla seleção de obras que ele se encaixa. Nesse sentido, vários elementos podem ser analisados na obra para identificar um gênero: tipos de personagens, de situações, temas abordados, elementos de cena e de símbolos etc. Em determinado momento, haverá uma dimensão crítica do gênero quando este padrão de características pode ser visto em um vasto número de filmes. A exemplo do terror, há a tendência de causar repulsa e paranóia no espectador.
Atualmente, as bilheterias dos filmes de terror independentes vivem um cenário diferente e vêm surpreendendo a imprensa. Backrooms - Um Não Lugar (2026), em uma semana de lançamento, alcançou a marca de US$ 118 milhões (cerca de R$ 600 milhões), o que representa um valor 10 vezes maior do que o custo da produção. Outro caso é o de Obsessão (2026), produzido com apenas US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 5 milhões) e, como resultado, arrecadou US$ 74 milhões globalmente em duas semanas de cartaz. Relevante sublinhar, também, a diferença entre investimentos para ambos os filmes serem realizados, que pode ser explicada por Parsons ter recebido apoio da significativa produtora A24, enquanto Curry Barker produziu a trama ciumenta de forma totalmente independente, tendo conseguido respaldo posterior de outras produtoras maiores para projetos futuros.

De criadores de conteúdo no YouTube a diretores de bilheteria
Uma coisa que Backrooms: Um Não-Lugar (2026) e Obsessão (2026) têm em comum, além do fato de serem filmes de terror independentes, é que os diretores começaram no YouTube antes de chegar às telas de cinema. Kane Parsons, criador de Backrooms, ganhou fama ao publicar uma websérie em seu canal que viralizou e acabou se tornando a base da adaptação cinematográfica. Já Curry Barker seguiu um caminho parecido, construindo audiência com curtas e conteúdos de terror até ser notado pela indústria.
Com apenas 20 anos, Parsons, mais conhecido na internet como Kane Pixels, dono de um canal com 3,4 milhões de inscritos, passou a ocupar o posto de diretor mais jovem a levar um longa ao topo das bilheterias. Ele tinha apenas 17 anos quando a A24 o contratou para transformar seu found footage de nove minutos The Backrooms (2022) em uma adaptação cinematográfica. O curta com 89 milhões de visualizações no YouTube seguia a estética típica do gênero found footage da qual finge ser uma "gravação encontrada", como se as imagens tivessem sido captadas por câmeras amadoras ou celulares antigos.

Já Curry Barker começou no YouTube com conteúdo de comédia ao lado do amigo Cooper Tomlinson, que conheceu na faculdade de cinema. Os dois chegaram a abandonar o curso para se dedicar ao canal 'That's a Bad Idea', onde os vídeos ganharam uma pegada característica: começavam de forma cômica e terminavam de maneira tenebrosa. Foi esse estilo que o levou a dirigir o curta The Chair (2023), premiado em diversos festivais e responsável por dar a Barker o reconhecimento necessário para ser chamado a produzir um longa-metragem.
A proposta inicial era que o filme fosse baseado em The Chair, mas Barker apresentou uma ideia diferente. Com um orçamento de baixo custo, a obra se tornou um fenômeno global e ultrapassou as bilheterias mundiais de Pecadores (2025) que foi vencedor de quatro Oscars, ao ter arrecadado mais de US$371 milhões.
Os dois casos mostram como o YouTube deixou de ser só uma vitrine e passou a funcionar como uma espécie de laboratório. Tanto Parsons quanto Barker construíram suas carreiras longe dos moldes convencionais de Hollywood testando ideias e formatos direcionados a uma audiência que crescia junto com eles na plataforma. Foi justamente esse contato direto com o público que permitiu que ambos desenvolvessem sua identidade dentro do terror e conquistassem uma base de fãs sólida antes mesmo de chegar ao cinema.
E o resultado está visivelmente nos números, visto que dois filmes de baixíssimo custo se tornaram fenômenos de bilheteria provando que a nova geração de diretores de terror pode nascer de um canal do YouTube e, ainda assim, disputar espaço com as produções da indústria. Se antes o caminho para o cinema passava quase que obrigatoriamente pelas escolas tradicionais e pelos círculos fechados de Hollywood, hoje ele também pode começar em um quarto com uma ideia boa o suficiente para viralizar.



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