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Terror independente é vitrine para cinema de baixo orçamento

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    Revista Curió
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  • 5 min de leitura

Produções de terror de pequenos produtores ultrapassam metas de bilheteria e “espantam” com a qualidade ascendente das cenas e narrativas


Por Evelyn Costa e João Henrique Nascimento

Última atualização: 10/07/2026


Ambiente monocromático das Backrooms / Foto: Reprodução / Indreams
Ambiente monocromático das Backrooms / Foto: Reprodução / Indreams

Investir uma quantia que representa apenas a mínima fração de um retorno posterior significativo alcançado a partir de um longa-metragem independente se aproxima de um roteiro de ficção. No entanto, o cinema de terror de pequenos produtores está se mostrando disruptivo com esse padrão e abrangendo o público com certa originalidade. Backrooms - Um Não Lugar (2026), longa-metragem dirigido pelo norte-americano Kane Parsons, é um exemplo palpável deste fenômeno cinematográfico.


O filme é baseado na creepypasta de mesmo nome, na qual pessoas aleatórias, em lugares indeterminados, sofrem um fenômeno chamado No Clip e atravessam paredes para entrar em outra realidade. Esta outra dimensão é composta por espaços liminares, ou seja, espaços de transição, como estacionamentos ou corredores, que possuem tamanhos anormais e não seguem um padrão. São uma espécie de labirinto infinito em que as vítimas do No Clip devem tentar escapar resolvendo enigmas.


O filme de Parsons é um dos exemplos do conjunto de produções cinematográficas consideradas indie – termo que vem da abreviação do inglês “independent”. Essas obras independentes são produzidas e distribuídas por cineastas independentes ou por pequenas produtoras, além de possuírem pouco ou nenhum envolvimento de grandes empresas de cinema e serem desenvolvidas a partir de características únicas de cada diretor. Contudo, há uma nuance detalhe no caso do longa de Parsons, no qual embora tenha raízes independentes na internet, o projeto foi viabilizado pela produtora destaque A24. Esta injetou orçamentos maiores, cerca de US$ 10 milhões (aproximadamente R$ 51 milhões) em visões autorais, sem podar a liberdade criativa do autor.


Naturalmente, por não receberem grandes subsídios, é esperado que o orçamento necessário para as etapas de produção seja baixo.


Assim como Backrooms - Um Não Lugar (2026), filmes como Corrente do Mal (2015), Terrifier (2016-2024) e Obsessão (2026) também fazem parte de um mesmo gênero cinematográfico, o terror. Por sua vez, gêneros no cinema seriam categorias que convergem obras a partir de um grau de afinidade entre elas de diversas camadas, no qual as características que mais determinam um filme em um gênero costuma ser o aspecto narrativo e o temático.


A identificação de um gênero em um filme pode ser feita a partir da observação da ampla seleção de obras que ele se encaixa. Nesse sentido, vários elementos podem ser analisados na obra para identificar um gênero: tipos de personagens, de situações, temas abordados, elementos de cena e de símbolos etc. Em determinado momento, haverá uma dimensão crítica do gênero quando este padrão de características pode ser visto em um vasto número de filmes. A exemplo do terror, há a tendência de causar repulsa e paranóia no espectador.


Atualmente, as bilheterias dos filmes de terror independentes vivem um cenário diferente e vêm surpreendendo a imprensa. Backrooms - Um Não Lugar (2026), em uma semana de lançamento, alcançou a marca de US$ 118 milhões (cerca de R$ 600 milhões), o que representa um valor 10 vezes maior do que o custo da produção. Outro caso é o de Obsessão (2026), produzido com apenas US$ 1 milhão (aproximadamente R$ 5 milhões) e, como resultado, arrecadou US$ 74 milhões globalmente em duas semanas de cartaz. Relevante sublinhar, também, a diferença entre investimentos para ambos os filmes serem realizados, que pode ser explicada por Parsons ter recebido apoio da significativa produtora A24, enquanto Curry Barker produziu a trama ciumenta de forma totalmente independente, tendo conseguido respaldo posterior de outras produtoras maiores para projetos futuros.


Obsessão (2026) Reprodução / Times Brasil
Obsessão (2026) Reprodução / Times Brasil

De criadores de conteúdo no YouTube a diretores de bilheteria


Uma coisa que Backrooms: Um Não-Lugar (2026) e Obsessão (2026) têm em comum, além do fato de serem filmes de terror independentes, é que os diretores começaram no YouTube antes de chegar às telas de cinema. Kane Parsons, criador de Backrooms, ganhou fama ao publicar uma websérie em seu canal que viralizou e acabou se tornando a base da adaptação cinematográfica. Já Curry Barker seguiu um caminho parecido, construindo audiência com curtas e conteúdos de terror até ser notado pela indústria. 


Com apenas 20 anos, Parsons, mais conhecido na internet como Kane Pixels, dono de um canal com 3,4 milhões de inscritos, passou a ocupar o posto de diretor mais jovem a levar um longa ao topo das bilheterias. Ele tinha apenas 17 anos quando a A24 o contratou para transformar seu found footage de nove minutos The Backrooms (2022) em uma adaptação cinematográfica. O curta com 89 milhões de visualizações no YouTube seguia a estética típica do gênero found footage da qual finge ser uma "gravação encontrada", como se as imagens tivessem sido captadas por câmeras amadoras ou celulares antigos.


Kane Persons / Foto: Reprodução / IMDB
Kane Persons / Foto: Reprodução / IMDB

Curry Barker começou no YouTube com conteúdo de comédia ao lado do amigo Cooper Tomlinson, que conheceu na faculdade de cinema. Os dois chegaram a abandonar o curso para se dedicar ao canal 'That's a Bad Idea', onde os vídeos ganharam uma pegada característica: começavam de forma cômica e terminavam de maneira tenebrosa. Foi esse estilo que o levou a dirigir o curta The Chair (2023), premiado em diversos festivais e responsável por dar a Barker o reconhecimento necessário para ser chamado a produzir um longa-metragem. 


A proposta inicial era que o filme fosse baseado em The Chair, mas Barker apresentou uma ideia diferente. Com um orçamento de baixo custo, a obra se tornou um fenômeno global e ultrapassou as bilheterias mundiais de Pecadores (2025) que foi vencedor de quatro Oscars, ao ter arrecadado mais de US$371 milhões.


Os dois casos mostram como o YouTube deixou de ser só uma vitrine e passou a funcionar como uma espécie de laboratório. Tanto Parsons quanto Barker construíram suas carreiras longe dos moldes convencionais de Hollywood testando ideias e formatos direcionados a uma audiência que crescia junto com eles na plataforma. Foi justamente esse contato direto com o público que permitiu que ambos desenvolvessem sua identidade dentro do terror e conquistassem uma base de fãs sólida antes mesmo de chegar ao cinema.


E o resultado está visivelmente nos números, visto que dois filmes de baixíssimo custo se tornaram fenômenos de bilheteria provando que a nova geração de diretores de terror pode nascer de um canal do YouTube e, ainda assim, disputar espaço com as produções da indústria. Se antes o caminho para o cinema passava quase que obrigatoriamente pelas escolas tradicionais e pelos círculos fechados de Hollywood, hoje ele também pode começar em um quarto com uma ideia boa o suficiente para viralizar.


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