Morte e Vida Madalena: o retrato do próprio ofício de fazer cinema
Unindo comédia, drama e metalinguagem, Guto Parente transforma o caos de uma produção independente em razão de continuar criando diante das adversidades
Por: Evelyn Costa
Última atualização: 17/09/2026
Morte e Vida Madalena (2026) acompanha uma produtora de cinema grávida que se vê no centro de um furacão, no qual precisa encarar o luto pela morte recente do pai, salvar a produção de um ficção científica de baixo orçamento e lidar com o sumiço repentino do diretor.
O título já entrega o jogo de morte e vida acontecendo simultaneamente, atravessando Madalena ao colocar o luto pela morte do pai em sobreposição à vida que está por vir com a sua gestação. Ao mesmo tempo, em uma espécie de paralelo, ela tenta “dar vida” a um filme que o pai deixou inacabado, assumindo também a tarefa de levar adiante aquilo que ele não pôde concluir. A personagem está literalmente carregando uma vida enquanto também tenta carregar o legado de alguém que morreu.

Tal dualidade se manifesta não só na trama, mas na trilha sonora, como em Porto Solidão, de Jessé, e Juízo Final, de Clara Nunes, com versos que dizem "rimas de ventos e velas, vida que vem e que vai, a solidão que fica e entra, me arremessando contra o cais" e "o sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações, do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente", trechos que não apenas ilustram a história, mas também representam esse trânsito entre perder alguém e continuar vivendo.
Madalena atravessa uma transformação complexa, em que um problema parece surgir atrás do outro, enquanto o set de filmagem se torna justamente o espaço onde essas questões humanas vêm à tona. É nesse ambiente caótico que Guto Parente encontra a oportunidade de falar sobre luto, maternidade, criação e, sobretudo, sobre a necessidade quase irracional de continuar fazendo cinema quando tudo parece conspirar contra essa possibilidade.

A partir da metalinguagem de um filme dentro de um filme, o diretor aproxima a experiência da personagem da própria experiência de realização cinematográfica, o caos da produção, as limitações e os imprevistos deixam de ser apenas obstáculos à história e passam a integrar a própria reflexão sobre o ato de criar.
É, assim, um retrato dos desafios que cercam o cinema independente brasileiro. A ficção do filme, marcada por improvisos, falta de dinheiro, burocracias, ameaça de greve e uma produção que parece caminhar constantemente à beira do descontrole, espelha as dificuldades concretas de fazer cinema fora do eixo dos grandes estúdios. E, ainda assim, a esperança persiste, visto que mesmo quando parece não haver nada de ruim que não possa piorar, o projeto segue em frente, sustentado pela insistência de continuar criando.

O filme traz a maternidade para o cinema sem reduzir a personagem a isso, escapando do clichê. O interessante em Madalena é justamente a forma como a gestação está presente o tempo todo, de maneira física no corpo da atriz e em pequenos gestos, como o cigarro que ela segura sem acender, mas nunca se torna a única lente pela qual a personagem é lida. Ela continua sendo filha, produtora, diretora, além de uma mulher atravessada pelo luto, pelo trabalho e pelas próprias escolhas. Antes de ser “a grávida”, ela é uma personagem complexa, cuja maternidade é apenas uma das dimensões que compõem sua experiência.

E diante de todas as situações, o longa apresenta o humor como um mecanismo de resistência, que nasce justamente do acúmulo de desastres e adversidades, aproximando-se de uma certa tradição da comédia brasileira que encontra no absurdo cotidiano uma forma de enfrentá-lo. “Está tudo sob controle” é o que Madalena repete para o mundo externo a cada nova desgraça que se soma às anteriores, como se a insistência em afirmar o controle fosse uma maneira de não sucumbir ao caos, e graça surge justamente desse descompasso entre o que a personagem diz e aquilo que está acontecendo ao seu redor. A vida não respeita a dramaturgia da tragédia: o pai morreu, mas alguém ainda precisa resolver os problemas do set; o diretor desapareceu, mas a filmagem precisa continuar; Madalena está grávida de oito meses, mas existe uma produção inteira que depende dela.
Não há tempo para interromper tudo diante de cada tragédia, porque a precariedade obriga as pessoas a continuarem vivendo. E é nesse ponto que o humor entra, não como algo que amenize o peso das situações, mas como um caminho possível para atravessá-las, rindo do absurdo enquanto se busca, de algum jeito, seguir adiante.
Morte e Vida Madalena é o 11º longa de Guto Parente, mas, assim como em outros curtas e longas, o diretor mantém um fio comum: colocar seus personagens em situações em que as estruturas que deveriam organizar a vida, como família, trabalho, amor e dinheiro, deixam de funcionar, e é justamente quando tudo se desorganiza que algo novo passa a ser inventado. Há no diretor uma ideia muito forte de coletividade como forma de sobrevivência, na qual, mesmo diante do estado de caos, ele só se torna produtivo porque existe um coletivo disposto a improvisar junto, no qual, mesmo quando os personagens estão perdidos, raramente estão completamente sozinhos. Isso aparece em Inferninho (2018), em um bar; em Estranho Caminho (2023), na relação familiar; e em Morte e Vida Madalena, literalmente, no set de filmagem.
Quando as estruturas tradicionais falham, os personagens improvisam outras formas de existência, e em Morte e Vida Madalena fazer um filme é uma maneira de continuar vivo e continuar vivo é, inevitavelmente, fazer alguma coisa com aquilo que ficou depois da morte.




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