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Na tela voam pipas, fora dela sonhos

  • Foto do escritor: Revista Curió
    Revista Curió
  • 23 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura

O projeto Cinema da Favela mostra o resultado de sua primeira edição no curta “Adolescência” e com ele, o sonho de toda uma turma de jovens da PPL em tela


Por: Gustavo Monteiro, Pedro Naves e Rafael Silva*

Última atualização: 23/12/2025


Luiza Wollny/Divulgação
Luiza Wollny/Divulgação

A 1ª edição do Cinema da Favela, projeto de formação audiovisual voltado a jovens moradores da Pedreira Prado Lopes, foi responsável por presentear a comunidade local – e a nós – com o curta-metragem Adolescência


“Levei o projeto para a Escola Belo Horizonte. Eles foram super abertos. Nos receberam com todo apoio e juntou a turma. Eles selecionaram os meninos que acharam que tinham mais engajamento e a gente conseguiu executar.”, destaca Tamira, coordenadora do projeto, da produtora Nós da Fita e uma das diretoras do curta ao contar brevemente sobre o surgimento do projeto e sua adesão na comunidade.


Esse trabalho conjunto deu origem a um projeto que reflete uma realidade muitas vezes apagada sobre as favelas, mas que, sob o olhar juvenil,  torna-se o foco de uma forma ainda mais bonita.A narrativa, com 8 minutos de duração, foi fruto de uma série de oficinas ministradas aos alunos da Escola Municipal de Belo Horizonte, na Pedreira Prado Lopes, Região Noroeste de BH


Adolescência acompanha Stephanie na chegada a uma nova escola em um momento em que ela ainda carrega traços da infância, como a companhia de sua boneca de pano. Entre ajustes, descobertas e novas convivências, o filme retrata sua transição para a adolescência na Pedreira Prado Lopes, marcando o início de outras formas de ser, sentir e se colocar no mundo.


Luiza Wollny/Divulgação
Luiza Wollny/Divulgação

Adolescência 


A exibição do curta feito pelos alunos já começa com palmas. A primeira cena está a poucos segundos na tela e todos dentro da sala do Cine Graciano vibram muito. Ver na sua frente o resultado de 6 meses de trabalho parece não ser apenas gratificante para os profissionais envolvidos, mas também para os estudantes. Na roda de conversa realizada posteriormente, eles destacam como o filme deu esperança a eles – de diferentes formas, o projeto se conectou com aspectos da vida dos jovens de maneiras inimagináveis. 


Um dos momentos marcantes do filme se inicia quando a boneca de Tetê (apelido de Stephanie) ganha vida. E com ela, as outras artes da favela. A personagem, interpretada por Bárbara, de 11 anos, então aluna do 6º ano,  traz para tela o talento da vida real: o rap. A jovem compôs 2 canções (A Vida e a 2ª esperança) para o projeto e pôde integrá-las na história. Apoiada por seus colegas, que a alçaram ao patamar de artista, a menina tem grande apoio familiar para seguir seus sonhos. Em entrevista, contou como a notícia foi recebida pela mãe, que a acompanhava na exibição, com muita alegria:


“Eu contei para todos eles (familiares). A minha mãe ficou muito feliz porque é uma oportunidade que a gente que mora na favela não vai ter sempre. Então, eu contei para todo mundo, todos ficaram doidos: ‘Bárbara, que dia que vai sair? Que dia o filme vai estar pronto?’”, afirma a atriz. 


Além da música, a dança também ganha evidência no curta. Essa, que é o principal motor do filme, une todo aquele grupo de alunos que inicia distante e é unificado pelo sonho de participar de um concurso de dança no Rio de Janeiro. Uma realidade que perpassa a tela, já que um dos alunos do projeto, que não aparece em tela, foi a inspiração para a história. Seus colegas realizaram seus sonhos contando as conquistas de seu amigo – existe sentimento de comunidade maior do que esse?


Ao final da história, fica a sensação de que a exibição apresentou uma realidade da Pedreira que costuma ser esquecida: um lugar cheio de sonhos. Sejam daqueles que estavam reabrindo o Cine Graciano, localizado no Bairro Lagoinha, na Região Noroeste de Belo Horizonte – local que permitiu essa exibição e conta com uma programação gratuita a partir daquele dia – como uma forma de resistência cultural, dos alunos que agora percebiam diversas oportunidades e escolhas pela frente, dos pais que enxergam um futuro para os filhos longe de um realidade estigmatizada ou até mesmo dos professores (da escola e das oficinas), que puderam confirmar suas esperanças de que a educação é transformadora. O nome da obra ganha relevância não apenas pela representação dessa fase específica da vida, mas também por ela ser um momento de esperança, de acreditar em um mundo melhor e praticá-lo.


Luiza Wollny/Divulgação
Luiza Wollny/Divulgação

O bairro Pedreira Prado Lopes  – ou apenas PPL –, localizado na Região Noroeste de BH, é a favela mais antiga da capital mineira. Estima-se que ela começou a ser ocupada entre 1900 e 1920. Ela se formou em decorrência da necessidade de trabalhadores de residirem mais próximo ao centro de Belo Horizonte, o que fez com que eles assentassem e desenvolvessem o aglomerado. 


A escolha do nome deve-se ao fato de que o local era um ponto de extração de pedras – calcário e blocos de rocha – que foram utilizadas para a construção da cidade. A antiga Pedreira da Viação foi comprada pelo engenheiro e governador de Minas Gerais, Antônio Prado Lopes Pereira, que ficou no posto representativo por cerca de 1 mês em 1910. O nome atual da comunidade se dá justamente por causa do ex-donatário. 


Estima-se que mais de 7 mil pessoas residem na PPL atualmente, um dos locais com o acervo cultural mais interessante da cidade. Foi lá que surgiu a primeira escola de samba de BH, a Unidos do Guarany, e o primeiro bloco de rua do município, os Leões da Lagoinha. 

Mesmo sendo um local rico culturalmente, a maior parte das matérias jornalísticas que surgem cotidianamente sobre o bairro retratam sobre as violências que ocorrem no local. Uma rápida busca no google expõe como as tragédias cotidianas viram matéria e estigmatizam quem reside / quem vem de lá.  


Yasmim, mãe da Bárbara – atriz e compositora das músicas inéditas para o filme mencionada anteriormente –, aponta que espaços como esse de construção artística são importantes de se ter na comunidade. Afinal, é assim que  se mostra um lado que costumeiramente não é visto nas manchetes de jornais.


Foi bom ver no filme um outro lado da favela. Por vezes, não enxergamos a comunidade do mesmo modo. Em algumas ocasiões, achamos que o lugar não é bonito, só que no filme ficou tudo lindo e perfeito”, diz. “A favela é realmente aquilo retratado na história, com as crianças brincando na rua… Logicamente tem suas coisas ruins, mas não podemos deixá-las nos impedir de crescer. Temos que sonhar e ter vontade de sair dessa realidade”, finaliza Yasmim.  


A mostra


Além de Adolescência, a mostra contou com outros dois curtas-metragens que retratam as óticas de quem reside na periferia. A obra PPL é Quem? conta sobre aqueles que pavimentaram o cenário cultural e comunicacional da Pedreira. No enredo, tem-se contato com diferentes figuras da comunidade, que compartilham suas vivências e hábitos. O filme brinca com essa mescla de passado e presente através dos relatos, somadas aos novos modos de se comunicar. 


Já o filme Engole o Choro trabalha algo comumente visto no Brasil como um todo. Ambientado em São Paulo, o curta trata da questão do abandono parental e as possíveis consequências dessa ausência familiar. Com um final para lá de emocionante, a obra mostra que mesmo que existam distâncias geográficas, muitas das dores vivenciadas por residentes de periferias são similares.


A produtora cultural, idealizadora do projeto de oficinas e responsável pela curadoria dos filmes que passaram no sessão, Tamira Abreu, aponta que a escolha dos filmes se dá pela possível proximidade da narrativa com a vida dos jovens que iriam assistir o curta. Ela ainda informa que a intenção era a de que o ator da história, Renato Novaes, fosse conversar com os jovens, mas um conflito de agenda impossibilitou que isso ocorresse. 


“A proposta era trazer filmes sobre as quebradas”, diz. “É difícil fazer esse link, trazer filmes que vão conversar com a mostra, com a proposta que você está fazendo e que dialoga com a faixa etária que você está lidando, porque são adolescentes. Eles têm que entender, se identificar com as histórias”, completa Tamira.


Luiza Wollny/Divulgação
Luiza Wollny/Divulgação

Os filmes foram escolhidos por questão de reconhecimento, mas também para entender que há esperança naquela e em outras quebradas. Antes da exibição, Tamira destacou que aquele era um movimento importante porque os alunos estavam exercendo funções que, muitas vezes, a sociedade não julgava adequadas para eles. Os dias anteriores à exibição na PPL foram marcados por rondas de helicópteros que eram os despertadores dos moradores. 


As pipas, alçadas aos céus no curta, são um contraponto ao tumulto dos veículos aéreos da polícia, mas também são uma forma de demonstrar que aquela é a realidade que os moradores querem e acreditam. As hélices cortam o céu como quem corta os sonhos da comunidade. 


Elas se esquecem que as pessoas, que ali moram, não vivem de violência, mas vivem ao lado dela. Eles se mantêm de sonhos. Os mesmos que começaram com os trabalhadores que só precisavam morar mais próximos ao centro. O curta, mesmo que em 8 minutos, deu a oportunidade que precisavam de se ver representados. 

“A favela em si tem muita violência. Só que tem muitas pessoas de bem. A cada 10 moradores, acho que não chega nem ser um que é da vida errada, mas não é isso que o jornal mostra. A favela é realmente aquilo, as crianças brincando na rua, igual foi retratado no filme”, aponta Yasmin, mãe da Bárbara. 


As oficinas 


O projeto, voltado para discentes do Ensino Fundamental 2 – do 6º ao 9º ano –, foi feito entre os meses de agosto e novembro. Os alunos tiveram contato com as principais funções na construção de um filme: roteiro, direção, câmera, som, arte, figurino, produção e edição. Ele foi viabilizado através de uma captação de recursos, através das políticas de incentivo da Secretaria Municipal de Cultura. 


Todas as aulas foram ministradas por especialistas do mercado do audiovisual, com mesclas entre aulas expositivas e práticas. O intuito era não somente a produção do curta-metragem, mas também a abertura de novos horizontes profissionais na mente dos jovens artistas. 


De acordo com Tamira, a ideia de ofertar oficinas partiu de diálogos com o pai, o que suscitou o interesse de colocar para frente a idéia de dar aulas sobre cinema aos jovens. “A princípio, eu tinha pensado em fazer as oficinas no Centro Cultural. Depois, através de um outro projeto que vi, pensei: ‘Não, eu vou fazer o seguinte, não irei esperar virem até mim, vou atrás do meu público’”, aponta a produtora cultural.


Novos modos de fazer arte e, a partir disso, novos modos de sonhar foram construídos nessa dinâmica que une pedagogia e cinema. O estudante Matheus Gilmar, de 14 anos, aluno do 7º ano, gostou de ter contato com todas as oficinas, principalmente a de som. Ainda, ele observa que uma nova porta pode ter se aberto com essas novas habilidades desenvolvidas. 


“Para mim a experiência foi boa. Todas as aulas foram. Não tinha uma que nós não prestamos atenção, focamos em todas. “Eu quero mais", diz. “Planejamos fazer outros filmes, mas eu quero fazer a parte dois de ‘Adolescência’”, afirma o aluno. 


Os alunos aparentam ter pegado gosto pela atuação, o que demonstra que a intenção de abrir novos horizontes com as oficinas pode ter acendido a chama de uma profissão no campo da arte pode ter surgido no coraçãozinho dos nossos atores. De acordo com a aluna Kemely Santos, de 14 anos, estudante do 9º ano, o resultado final com o filme fez com que valesse a pena cada aula que tiveram. 


“Eu achei que foi legal, pensei que ia ficar com mais vergonha, só que até que foi pouco”, aponta. “Foi a nossa primeira vez fazendo um filme. Por isso, achei que não ia dar muito certo”, aponta a jovem. 


Tanto a Kemely quanto o Matheus tiveram que superar a timidez para atuar. A proximidade deles não fica só nessa característica. Ambos relataram que a cena que mais gostaram de atuar foi a cena final: uma confraternização em uma sorveteria, em que a alegria reinou e sorrisos contagiantes ganharam destaque. 


Esse sentimento compartilhado por todos no último ato, somada aos discursos dos alunos na roda de conversa, demonstra o poder e a importância do projeto para a vida das crianças. Esperamos que a parte dois supere os roteiros e telas e venha na tão comentada viagem ao Rio de Janeiro que não saiu da boca dos nossos multi artistas.


*Esta matéria foi elaborada por uma colaboração entre Revista Curió e RU3 | Revista Universitária. Você pode conferir o texto em ambas as plataformas.


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