Por que o cinema está olhando para trás?
- Revista Curió
- 18 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Relançamentos de clássicos mostram como a nostalgia se transformou em estratégia de redução de risco na indústria cinematográfica
Por: Lara Gomes e Lucas Ducone
Última atualização: 18/12/2025

Em um cenário de excesso de conteúdo original e escassez de atenção, a indústria cinematográfica decide vender memória, pertencimento e experiência coletiva. Com o fim de 2025 se aproximando e em clima de retrospectiva, já se pode dizer que, sem dúvidas, esse foi um ano marcado por relançamentos no cinema. Não que a indústria não esteja investindo em inovações – o cinema segue incorporando transformações tecnológicas e narrativas –, mas o apego à nostalgia e a reexibição de clássicos revelam uma estratégia de garantir relevância cultural com risco econômico controlado.
Quando o passado vira programação
O fenômeno pode ser mais antigo, mas os exemplos de relançamentos se multiplicaram ao longo de 2025. A celebração dos 20 anos de Star Wars: Episódio III – A Vingança dos Sith (2005) levou novamente fãs aos cinemas não apenas para rever a história, mas para vivê-la em conjunto. Nesse sentido, o apelo emocional se tornou um recurso criativo que alavanca a bilheteria – com pôster comemorativo, brindes variados e fãs emocionados, o relançamento do filme arrecadou mais de U$25 milhões de dólares somente nos Estados Unidos.
De modo semelhante, sessões especiais com vários dias de exibição dos filmes do Studio Ghibli transformaram animações já consagradas em eventos culturais para celebrar os 40 anos da produtora japonesa. Esse movimento atraiu tanto admiradores antigos quanto novos públicos, proporcionando que os espectadores fossem à sala de cinema rever os seus favoritos e conhecer outros filmes da empresa. O resultado? Apenas entre 21 a 24 de agosto, as reexibições de Princesa Mononoke (1997) arrecadaram US$35 mil em bilheteria nas salas IMAX brasileiras.
O sucesso de bilheteria dos relançamentos reforçam a percepção de que, em períodos de instabilidade econômica, excesso de estímulos e incerteza social, o cérebro humano tende a associar memórias positivas do passado à sensação de segurança. Como não poderia ser diferente, o consumo acompanha essa conjuntura e passa a se orientar por escolhas previsíveis.
Relançar um clássico reduz custos de aquisição de audiência, dispensa longas campanhas de “educação do público” e diminui o risco de bilheterias fracas. Franquias conhecidas já carregam reconhecimento de marca, valor simbólico e comunidades engajadas, elementos esses que são altamente valorizados pelos algoritmos de marketing e pelas plataformas digitais, que favorecem o que já é familiar e compartilhável.

Alinhado a isso, a propensão à moda nos últimos anos é, cada vez mais, o culto ao que remete ao retrô. Com as tendências cíclicas nos hábitos e vestuários da população aderida principalmente pelos jovens, lançamentos de produções e momentos que remetem ao passado – como Stranger Things (2016 – ) e Quarteto Fantástico: Primeiros Passos (2025) são cada vez mais demandados.
O cinema como evento
Seja na música, na moda, no futebol ou em quase qualquer outra esfera cultural, a frase de que “antes era melhor” ou “já não se faz como antigamente” costuma dar as caras nas conversas entre amigos e familiares. Não muito distante, o “ir ao cinema” se transforma também em uma atividade anacrônica – e esse retomar de toda uma outra época sentimental nos dias atuais é possibilitado, dentre outras possibilidades, pelos relançamentos.
O fenômeno se repetiu com Interstellar (2014), que voltou diversas vezes às salas, especialmente em formatos premium como IMAX. Blockbusters como Harry Potter e o Cálice de Fogo (2005), Avatar (2009), Tubarão (1975) e até títulos como Hannah Montana: O Filme (2009) retornaram às telas impulsionados por datas comemorativas e formação de novas gerações de fãs.
Se antes o cinema competia entre suas salas, hoje disputa atenção com o streaming, as redes sociais e o consumo fragmentado. Em contrapartida, assistir a um clássico no cinema passa a ser uma experiência memorável, algo que não se reproduz integralmente em casa. Assim, a lógica do evento devolve ao cinema seu caráter ritualístico e o relançamento se torna um ponto de contato de fãs com o filme dentro de todo um ecossistema de experiência e consumo em busca de um conforto nostálgico, seja reativando a franquia, impulsionando a venda de produtos variados ou promovendo debates online.

Além do movimento de relançamentos possibilitar o resgate a experiência e ao universo de filmes já amados pelo público, ele também opera como uma possibilidade de reposicionamento estético e tecnológico. Muitos são os filmes que retornam às grandes telas após restauração ou revitalização em uma nova tecnologia de mercado.
Este é o caso do clássico Paris, Texas (1984), que esteve de volta aos cinemas em setembro deste ano para celebrar os 80 anos do diretor Wim Wenders e 40 anos do drama cult, com uma nova versão remasterizada em 4K que foi restaurada a partir do negativo original de 35mm. A nova versão promete uma qualidade visual impressionante a partir de tecnologia recente, o que atualiza a experiência estética do filme sem perder a fidelidade ao trabalho original do diretor.
Atualizações como essa, seja em relação a imagem, som ou formato, revitalizam a comunicação e discurso dos filmes ao mesmo tempo em que se tornam um atrativo na venda de ingressos. Novamente, uma associação entre mercado e nostalgia acena positivamente para a tentativa de proporcionar esses filmes-evento que tentam unir diferentes gerações na frente do projetor.
Relançamentos no Brasil
Sem dúvidas, 2025 foi uma temporada incrível para o cinema nacional. Após a euforia de ver Fernanda Torres e Ainda Estou Aqui (2024) concorrendo à grandes premiações pelo mundo, o hábito de visitar as salas de cinema para abraçar os produtos nacionais ganhou força. Diante dessa oportunidade, a indústria brasileira não ficou de fora da tendência de relançamentos e, mais do que isso, usou desse momento para promover a valorização das suas produções.
Assim, este ano também presenciou a reexibição, em cinemas e festivais, de obras como Saneamento Básico: O Filme (2007) e O Que É Isso, Companheiro? (1997) – ambas com a participação da atriz carioca que faturou o Globo de Ouro. Esses retornos reposicionam o cinema brasileiro no imaginário do público, ampliando seu alcance e reafirmando sua relevância histórica como memória cultural.

A memória vai muito além de um "olhar para trás"
Aliado a uma crescente crise de produção original na indústria cinematográfica – a crescente investida da Disney em continuações em detrimento de novas histórias é um grande exemplo disso –, o fenômeno dos relançamentos ganhou um enorme fôlego em 2025. Por mais que diferentes obras tenham obtido diferentes resultados no seu retorno às telonas, contemplações antigas e novas maneiras de se relacionar com o passado fazem parte do grande mundo do cinema atual. Nesse sentido, o cinema tem se tornado uma demonstração que “olhar para trás” também é um olhar para o agora e um olhar para frente.
O fato é: seja com grandes séries, blockbusters ou até filmes de nichos específicos, os relançamentos estão cada vez mais em alta no Brasil e no mundo. Com a possibilidade das últimas gerações acompanharem clássicos de uma nova forma e os mais antigos revisitarem boas memórias, é de se esperar que essa prática se torne figurinha carimbada na mão dos estúdios para os próximos anos. Dentre vários desdobramentos sobre esse fenômeno, a mensagem que fica a partir disso é que, com um trabalho de qualidade e de estabelecimento de conexões com o público, o audiovisual pode ser atemporal.



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