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Luz, câmera… premiações!

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    Revista Curió
  • há 6 dias
  • 5 min de leitura

Reconhecimento de produções brasileiras como “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” amplia interesse do país no circuito cinematográfico internacional


Por: Ana Clara Moreira

Última atualização: 08/01/2026


Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, de “O Agente Secreto”, na cerimônia do Critic Choice Awards 2026 – Kevin Winter/Critics Choice Association
Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, de “O Agente Secreto”, na cerimônia do Critic Choice Awards 2026 – Kevin Winter/Critics Choice Association

O início de um novo ano marca o momento mais importante da temporada de premiações da indústria cinematográfica internacional, que geralmente começa no final de novembro, com o Gotham Film Awards, e termina com a entrega das estatuetas do Oscar, em março.


O sucesso de Ainda Estou Aqui (2024) fez com que os brasileiros passassem a torcer e vibrar de forma ainda mais intensa com títulos nacionais, que vem ganhando cada vez mais espaço neste circuito. Em 2025, o filme dirigido por Walter Salles não só saiu vitorioso do Oscar e do Globo de Ouro – conquistas celebradas com gostinho de Carnaval e em clima de Copa do Mundo –, mas foi indicado em diversas categorias de outras premiações, como o BAFTA, Critics Choice Awards e o Festival de Veneza.


Neste ano, o representante do país é O Agente Secreto (2025), que já garantiu o Critic Choice Awards como Melhor Filme Estrangeiro, assim como o título de Melhor Ator para Wagner Moura no Festival de Cannes. A vitória deixa as expectativas em alta para as próximas premiações, em que o filme de Kleber Mendonça Filho deve ter uma disputa acirrada com o norueguês Valor Sentimental (2025) e com o iraniano Foi Apenas Um Acidente (2025).


Brasil nas premiações


Antes de Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto (2025), o Brasil figurou em algumas das mais relevantes listas de indicados e vencedores do cinema. A estreia do país no Oscar, por exemplo, foi na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, com O Pagador de Promessas (1962). Embora tenha perdido a estatueta para o francês Sempre Aos Domingos (1962), o longa dirigido por Anselmo Duarte levou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cartagena e a Palma de Ouro no Festival de Cannes – a única do país até o momento.


“O Pagador de Promessas” foi o único brasileiro a conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes – O Pagador de Promessas/Reprodução
“O Pagador de Promessas” foi o único brasileiro a conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes – O Pagador de Promessas/Reprodução

Na ocasião, o brasileiro superou cineastas consagrados como Michelangelo Antonioni, Luis Buñuel e Robert Bresson, fazendo com que os olhos do mundo se voltassem para produções nacionais e latino-americanas. O roteiro retrata principalmente as complexidades do sincretismo religioso, além de provocar o espectador sobre o papel de instituições como a Igreja e o Estado em questões como a função social da propriedade.


O segundo representante nacional na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar foi O Quatrilho (1995). A trama se passa nas colônias italianas do Sul do Brasil e conta a história de dois casais e uma troca de parceiros, explorando temas universais como amor, ciúmes e escolhas, o que cativou público e crítica. Apesar da derrota para o holandês A Excêntrica Família de Antônia (1995), o título foi um importante avanço nos aspectos técnicos do cinema brasileiro, com destaques para a direção de Fábio Barreto, as atuações de Glória Pires e Patrícia Pillar, a trilha sonora de Jaques Morelenbaum e a música de Caetano Veloso.


Dois anos depois, O Que É Isso, Companheiro? (1997) foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, além de ter concorrido em categorias semelhantes do Festival Internacional de Cinema de Berlim e do Prêmio do Público de Melhor Longa Metragem no American Film Institute – do qual saiu vitorioso. Com direção de Bruno Barreto, a dramatização do sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil por integrantes do MR-8 e da Ação Libertadora Nacional – grupos de combate ao regime militar –, se sobressaiu por retratar um evento real de grande relevância histórica.


Já na virada do milênio, a trajetória de reconhecimento internacional do cinema brasileiro também teve um momento emblemático com Central do Brasil (1998), de Walter Salles. O filme foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional e rendeu a Fernanda Montenegro a histórica indicação na categoria de Melhor Atriz — a primeira para uma intérprete brasileira.


Fernanda Montenegro venceu o Urso de Prata pela atuação em “Central do Brasil” – Central do Brasil/Reprodução
Fernanda Montenegro venceu o Urso de Prata pela atuação em “Central do Brasil” – Central do Brasil/Reprodução

Ambientado na travessia entre o Rio de Janeiro e o sertão nordestino, o longa articula questões sociais profundas, como abandono, deslocamento e afetividade, a partir de uma narrativa intimista e humanizada. A recepção calorosa em festivais como Berlim, onde a artista venceu o Urso de Prata, consolidou a obra como um marco do cinema nacional e reafirmou a capacidade do Brasil de produzir histórias localizadas, mas de ressonância universal, encerrando um ciclo de afirmação que ajudou a projetar o país de forma duradoura no cenário cinematográfico global.


Além dos troféus


Sinônimo do maior reconhecimento no universo cinematográfico, o Oscar foi criado em 1927, junto com a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que surgiu com o objetivo de promover a excelência no cinema, assim como para mediar questões trabalhistas no segmento.


A primeira cerimônia foi realizada em 1929, premiando os melhores filmes de 1927 e de 1928. Na ocasião foram avaliadas 15 categorias, sendo Asas (1927) – um épico da Primeira Guerra Mundial dirigido por William A. Wellman –, o primeiro vencedor da história como Melhor Filme. Outros destaques daquela noite incluíram Janet Gaynor e Emil Jannings, que receberam os primeiros prêmios de Melhor Atriz e Melhor Ator, respectivamente.


Em 1929, “Asas” foi o primeiro grande vencedor da história do Oscar – Asas/Reprodução
Em 1929, “Asas” foi o primeiro grande vencedor da história do Oscar – Asas/Reprodução

Desde então, a premiação passou a exercer um papel que ultrapassa o caráter artístico, funcionando como uma poderosa vitrine internacional. Especialmente para países que não integram o eixo tradicional de produção cinematográfica, o Oscar e outros grandes festivais representam uma oportunidade estratégica de visibilidade, legitimação cultural e inserção no mercado global. Ser indicado ou premiado significa romper barreiras linguísticas e geográficas, ampliando o alcance de obras que, de outra forma, permaneceriam restritas aos circuitos nacionais.


Apesar do destaque conquistado por cinematografias menos estruturadas, como vem acontecendo com o Brasil, cabe mencionar que as grandes premiações seguem fortemente centradas no eixo Estados Unidos–Europa, revelando limites estruturais na forma como o cinema é reconhecido e legitimado. Episódios recentes evidenciam essa assimetria, como a decisão do Critics Choice Awards de não transmitir a premiação de O Agente Secreto (2025), ao mesmo tempo em que escalou Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura para apresentar a principal das categorias da noite, gesto interpretado por muitos como uma “consolação simbólica” diante da ausência de visibilidade efetiva da obra.


Soma-se a isso o caráter cada vez mais questionável da própria categoria de “Melhor Filme Internacional”, que, ao segmentar produções fora do eixo hegemônico, reforça uma lógica de separação entre o cinema produzido no centro da indústria ou fora dele. Ainda que conquistas como o prêmio de Melhor Ator para Wagner Moura no Festival de Cannes reafirmem a força artística do cinema brasileiro, o cenário indica que o reconhecimento internacional, embora relevante, continua condicionado a estruturas históricas de poder que limitam a plena circulação e valorização das cinematografias periféricas.


Mais do que troféus, essas premiações funcionam como selos de qualidade capazes de impulsionar políticas públicas, atrair coproduções internacionais e ampliar o interesse de distribuidores estrangeiros. O reconhecimento externo frequentemente influencia a circulação dos filmes, o financiamento de novos projetos e a formação de público. Nesse sentido, festivais como Cannes, Berlim e Veneza, assim como o próprio Oscar, desempenharam e ainda desempenham papel decisivo na consolidação de cinematografias.


As grandes premiações internacionais cumprem, portanto, um papel que vai além da consagração simbólica. Elas atuam – ou deveriam atuar – como ferramentas de diplomacia cultural, projeção econômica e afirmação identitária, permitindo que todos os tipos de cinematografias conquistem espaço em um sistema historicamente concentrado. No caso do Brasil, cada indicação ou prêmio não apenas celebra um filme específico, mas reafirma a potência criativa de um cinema que, mesmo diante de limitações estruturais, segue capaz de dialogar com o mundo.


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