O cinema como prática de memória
- Revista Curió
- 25 de jun.
- 4 min de leitura
Na 21ª CineOP, formação, memória e autoria se entrelaçam para pensar o cinema como experiência viva
Por: Ana Clara Moreira
Última atualização: 25/06/2026

Na cidade onde o passado não é ruína, mas permanência, o cinema chega como uma espécie de continuidade. Nesta quinta-feira (25/06), quando começa a 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, a CineOP, a cerimônia de abertura não se limita a um instante inaugural, mas é distribuída em camadas, em gestos, em diferentes modos de começar.
Antes da projeção noturna na praça, antes mesmo da cerimônia, são crianças e adolescentes que ocupam as salas. O “Cine-Expressão – A Escola Vai ao Cinema” inaugura a mostra a partir de um deslocamento sutil, mas decisivo: em vez de começar pelo espetáculo, começa pelo olhar. Organizadas por faixa etária, as sessões reúnem curtas de animação e ficção para estudantes de Ouro Preto e região, propondo algo que vai além da exibição: a construção de uma relação com a imagem.
Ao integrar o eixo Educação, a iniciativa sugere que o cinema não se sustenta apenas naquilo que produz, mas na forma como é percebido, interpretado e compartilhado. Há, nesse gesto, uma compreensão do audiovisual como linguagem, como algo que se lê, se questiona e se inscreve no mundo. Em um festival dedicado à preservação, começar pela formação não é um detalhe: é um posicionamento.
Essa ideia atravessa toda a programação. Ao longo de seis dias, a cidade se transforma em um circuito de imagens, com sessões distribuídas entre o Cine-Praça, na Praça Tiradentes, o Cine-Teatro Petrobras, o Centro de Artes e Convenções da UFOP e o Cine-Museu, instalado no anexo do Museu da Inconfidência. São 135 filmes – entre longas, médias e curtas – que percorrem diferentes tempos e contextos, do cinema histórico às produções contemporâneas, incluindo obras restauradas e experiências realizadas em espaços educativos.
Tradição
Ao longo de mais de vinte anos, a CineOP se consolidou como um importante espaço de articulação. Diferente de festivais orientados pela estreia ou pela consagração, a mostra organiza sua programação a partir de três eixos (História, Preservação e Educação), que deslocam o cinema de um lugar exclusivamente expositivo para um campo de reflexão contínua.
Essa estrutura se manifesta tanto na diversidade das obras quanto nos modos de exibição. Filmes históricos convivem com produções contemporâneas, obras restauradas dialogam com experiências realizadas em contextos educativos, e o circuito de salas se expande pela cidade de Ouro Preto, incorporando museus, praças e espaços institucionais. O que se constrói, assim, não é apenas uma programação, mas uma rede de relações entre imagem, território e público.

Há, nesse desenho, uma compreensão de que o cinema não se sustenta apenas na produção, mas na circulação e na permanência. Preservar implica tornar visível; educar implica criar condições de leitura; exibir implica reinscrever as imagens no presente. A mostra, ao articular essas dimensões, transforma o ato de assistir em um processo mais amplo, que envolve memória, acesso e interpretação.
É nesse contexto que a homenagem a Helena Solberg se insere. Mais do que um reconhecimento individual, ela funciona como extensão desses eixos, assim como uma forma de pensar como determinadas trajetórias atravessam o tempo e continuam a produzir sentido quando revisitadas.
Homenagem
Ao longo da trajetória, Helena Solberg construiu um cinema que não se limita a registrar o mundo, mas se propõe a interrogá-lo. Primeira mulher a integrar o Cinema Novo, sua presença naquele contexto já indicava uma fissura: a entrada de um olhar que desloca, tensiona e reconfigura a forma como as imagens são produzidas e compreendidas.

Seus filmes, marcados por uma atenção constante às dimensões sociais e políticas da experiência, encontram nas questões femininas não um tema isolado, mas um ponto de inflexão. Em obras como A Entrevista (1966) e Meio-Dia (1970), o que está em jogo não é apenas o que é dito, mas quem pode falar – e sob quais condições. Há, nesses trabalhos, uma recusa silenciosa de papéis previamente estabelecidos, uma tentativa de devolver às mulheres a possibilidade de se verem para além daquilo que lhes foi historicamente atribuído.
Mais do que pioneira, Solberg se firma como uma cineasta que compreende o cinema como espaço de disputa simbólica. Sua filmografia atravessa décadas mantendo uma mesma inquietação: a de que toda imagem carrega uma posição, e que filmar é, inevitavelmente, escolher um ponto de vista.
Até o dia 30 de junho, a CineOP segue ocupando diferentes espaços de Ouro Preto com uma programação gratuita que reúne filmes, debates e atividades formativas. Mais do que acompanhar sessões, o convite é para atravessar a mostra como experiência – entre imagens que retornam, outras que se revelam e aquelas que, vistas pela primeira vez, passam a fazer parte de um repertório em construção.



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