top of page

O Agente Secreto: a primeira cena

  • Foto do escritor: Revista Curió
    Revista Curió
  • 19 de mar.
  • 3 min de leitura

As reflexões sobre memória e a banalidade da violência em um posto de gasolina de beira de estrada


Por: João Pedro Ribeiro

Última atualização: 19/03/2026


O Agente Secreto/Reprodução
O Agente Secreto/Reprodução

Não existe o certo a se fazer em uma primeira cena de filme. Como forma de arte, o cinema dispensa manuais e fórmulas para ser realizado. Ao mesmo tempo, isso não significa que não há convenções narrativas que ajudem a conectar a história ao espectador.


A cena inicial de O Agente Secreto (2025), de Kléber Mendonça Filho, ocupa uma zona cinzenta nessa simples reflexão. Desde o próprio título do filme, o diretor pernambucano transforma os primeiros minutos de tela em um grande resumo da temática da obra ao brincar com nossas expectativas e com nosso imaginário cinematográfico, manipulando as benditas convenções para nos apresentar o contexto da jornada que nos aguarda.


“Nossa história se passa no Brasil de 1977, uma época cheia de pirraça”. Com estes dizeres, o fusca amarelo de Armando interrompe sua viagem para abastecer num posto de gasolina de estrada. Tudo muito normal. Sem muita enrolação, nós (espectador e protagonista) logo nos deparamos com um detalhe que quebra essa normalidade: um defunto estirado no chão, coberto por pedaços de papelão.


Aventuras na História/Divulgação
Aventuras na História/Divulgação

Mas logo então percebemos que, talvez, esse cadáver sem rosto ou nome não escapa da normalidade tanto assim – pelo menos não para todos. Enquanto a inquietação do personagem de Wagner Moura denuncia o incômodo daquele corpo abandonado, tanto pelo contexto geral como pelo mau cheiro causado, finalmente chegam os policiais… 


Finalmente? Mesmo notificados sobre o defunto tanto pela confirmação sensorial (mesmo que a visão ignore, o olfato não deixaria passar batido) quanto pela insistência do frentista, aquela cena se mostra como corriqueira para os agentes que, na verdade, estão ali para abordar Armando.


E é justamente aqui que entram as brincadeiras com nossos imaginários e expectativas mencionadas no início do texto: Kléber Mendonça promove uma escalada da desconfiança no que está acontecendo, alimentada pelo nosso (até então) desconhecimento da trama e dos personagens


O policial demonstra uma suspeita evidente. Armando reluta em sair do carro. Os planos se fecham dentro do veículo enquanto o homem o vasculha, a procura sabe-se lá do quê. Como se resgatasse tudo o que um “agente secreto” pode representar em nossas mentes, Kléber nos insere numa tensão desenfreada e nos faz crer que alguma coisa irá estourar em breve – afinal, um agente secreto não é agente (e muito menos secreto) por acaso, né?


No Set/Divulgação
No Set/Divulgação

Mal sabíamos nós que o maior crime cometido por aquele cidadão foi defender seu departamento de pesquisa da universidade do empresariado. Mas acredite, essa afronta pode despertar mais atenção do que uma morte. Enquanto isso, o corpo permanece putrefando a poucos metros de distância…


Na sequência, a tensão é subitamente quebrada pela chegada de um carro com uma família, que prontamente se afasta ao perceber o cadáver. Estranhamento para uns, rotina para outros. É aqui que a tônica do longa-metragem e daquele período de nossa história nos é apresentada: aqueles que, em tese, deveriam sustentar a vida, banalizam a morte. Enquanto o automóvel se distancia, o rádio desabafa: “eu não sou cachorro, não”.


O distanciamento entre Estado e população se faz presente nos mínimos detalhes. Armando pode até estar limpo, mas com certeza ele ainda deve ter algo para oferecer aos nobres agentes da lei que zelam pela sua proteção. Mesmo diante da constatação de que o motorista do fusca não tinha como contribuir com a caixinha da corporação, o policial se contenta com os cigarros oferecidos – mas… desde que seja o maço inteiro.


Revista Casa e Jardim/Divulgação
Revista Casa e Jardim/Divulgação

No meio disso tudo, o cadáver segue intocado. Sem nome, sem rosto, sem voz. Cachorros tentam se aproximar e viajantes se distanciam apavorados Mesmo atraindo os olhares de todos que o cercam, ele permanece imóvel. Como mais um dia qualquer, os policiais e todos os outros seguem seu caminho. Aquele é só mais um corpo e o Carnaval está logo ali. Com certeza existem coisas mais importantes a se fazer.


Na sua tranquilidade costumeira, Armando retorna a estrada em direção a Recife. A cena é encerrada sem que cause qualquer impacto no resto da narrativa. No fim das contas, o filme é justamente sobre isso: não sobre o que se encontra na estrada principal, na história “oficial”. Mas sobre o que está nas bifurcações, nas encruzilhadas, nos caminhos alternativos que somos obrigados a pegar para sobreviver a todo esse absurdo que nos rodeia.


O Agente Secreto é, sobretudo, sobre memória. E para fazer jus a essa memória, o que consta páginas de jornal nunca será suficiente.

bottom of page