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Se Eu Fosse Vivo... Vivia: a vida como travessia de mão dupla

Foto do escritor: Revista Curió
Revista Curió
há 12 minutos
4 min de leitura

Novo longa de André Novais Oliveira abre a 20ª CineBH em noite marcada pela estreia de Conceição Evaristo como atriz e pelo encontro de gerações no cinema


Por Lara Gomes e Gabriel Monteiro

Última atualização: 24/09/2026


Universo Produções/Divulgação
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Em sua vigésima edição, a mostra CineBH abre a semana de programação com cerimônia no Cine Theatro Brasil e com a exibição da nova produção da Filmes de Plástico, “Se eu fosse vivo… vivia” (2026), que reuniu mais de mil espectadores na última terça-feira (22). O excesso comum a toda abertura de festival encontrou ali um centro claro: a celebração pública da parceria entre André Novais Oliveira e Conceição Evaristo, como colaboradores de um inédito projeto artístico em que a escritora mineira tem sua estreia como atriz.


O longa acompanha o casal Jacira (Conceição Evaristo) e Gilberto (Norberto Novais Oliveira), juntos por cinco décadas de vida em comum em Contagem, começando nos anos 1970. Cinquenta anos depois, após complicações de saúde, Gilberto passa a viver situações perturbadoras e fora do comum, que o conduzem rumo ao desconhecido. É nesse ponto que o filme muda de registro, deslocando o cotidiano de miudezas para uma zona de fantasia, sem nunca abandonar de fato o realismo afetivo que é marca da Filmes de Plástico. 


Não é pouca coisa colocar Conceição Evaristo, referência maior da literatura afro-brasileira contemporânea, diante de uma câmera pela primeira vez na vida, e André Novais faz isso em um gesto de cuidado, que convida à escritora não para uma aparição especial, mas para um papel que sustenta o filme inteiro.


Universo Produções/Divulgação
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“Quando fui convidada, eu perguntei: ‘André, você sabe o que você está fazendo?’ Porque foi uma experiência inusitada. Jamais pensei viver essa experiência. Vocês me fizeram. A receptividade da equipe, todas as pessoas me deixaram bastante à vontade para perguntar, para brincar, para experimentar. André é um diretor mais do que humano. É impressionante como no silêncio, na calma, ele vai dando dicas”, revelou Conceição através de chamada de vídeo no evento, uma vez que não conseguiu estar presente para receber o Prêmio Horizonte, sendo representada por integrantes de sua família que receberam a premiação das mãos dos diretores André Novais e Maurílio Martins.


O simbolismo das homenagens pré-exibição ganham ainda mais espessura quando se olha para quem compõe o elenco ao redor dela. Conceição contracena com Norberto Novais Oliveira, pai do próprio diretor, e tem sua juventude interpretada por Tainá Evaristo, sua sobrinha. O filme se torna, assim, um objeto de parentescos reais emprestando corpo a uma história sobre parentescos ficcionais: sangue e afeto verdadeiros sustentando sangue e afeto imaginados.


Universo Produções/Divulgação
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Não à toa, Norberto reconheceu no roteiro semelhanças com sua própria relação com a companheira, Maria José Novais Oliveira, o que talvez explique a naturalidade quase documental de sua atuação ao lado de Conceição, e a construção da narrativa contada por André mais uma vez baseada em suas memórias e vivências mineiras.


“Voltei à Minas para contar uma história de amor. Isso me sensibilizou muito. André leva para o filme uma escrevivência a partir de sua vivência, da vivência de seu pai, da memória intensa que tem da sua mãe”, acrescenta Conceição.


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A direção de elenco trabalhou, sobretudo, a química e dinâmica entre os atores, em uma relação que exprime beleza de forma leve e divertida. A equipe de figurino e ambientação, assim como a de objetos, construíram a partir da imagem uma potência para a personalidade e para cada momento de vida em que as personagens do filme se encontravam - desde o quebra cabeça de Gilberto ao figurino de Jacira, que da jovem com peças cheias de cor e silhuetas dos anos 70 se transformou na idosa teimosa cinquenta anos depois.


A câmera acompanha esse movimento, os enquadramentos com profundidade colocam Gilberto e Jacira sempre dentro de um espaço maior do que eles: um bairro, uma casa, uma rua inteira em frente ao cemitério. As cenas de caminhada de uma ponta a outra do quadro reforçam essa lógica: travessias que são, ao mesmo tempo, deslocamento físico e passagem de tempo. Um recurso simples, que o filme usa sem exagero, para lembrar que viver (e morrer) é, sobretudo, atravessar.


Universo Produções/Divulgação
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É essa mesma lógica que rege o romance entre os dois, construído sem atalhos, se inicia no conflito, na serenata nos anos 1970, e só depois ganha corpo na família e na rotina. Isso sustenta, tempos depois, a busca de Gilberto 


A velhice no filme aparece como o verdadeiro território desconhecido, mais até do que o fantástico que a narrativa evoca. Gilberto teme o que não compreende e o próprio fato de ter que atravessar uma fase da vida sem a companhia que a definiu por cinco décadas. Não à toa, na noite de abertura, essa relação entre gerações, entre quem viveu e quem segue vivendo, ecoou também para fora das telas na fala de Evaristo: “São vocês, com a força da juventude, que nos sustentam e nos orgulham. E que venham mais e mais filmes.”



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