Especial Halloween: Como definir Evil Dead?
Na noite do dia das bruxas, nada melhor do que olhar para essa icônica franquia de terror de quase meio século
Por João Pedro Ribeiro e Gabriel Monteiro
Última atualização: 31/10/2026

Franquias fazem muito sucesso no cinema, especialmente quando se fala do universo do terror e seus subgêneros. Muitas delas funcionam em contato com as outras e compartilhando diversos elementos que se retroalimentam, mas o que cria as legiões de fãs são as particularidades de cada uma: a metalinguagem dos filmes de Pânico, os efeitos técnicos e práticos de Sexta-Feira 13, a imersão de Jogos Mortais – e claro, seus consagrados vilões.
No entanto, quando tratamos da franquia Evil Dead, as coisas ficam um pouco mais complexas. Não há apenas a ausência de um vilão específico, como suas obras divergem muito entre si. Do terror corporal à comédia pastelão, do stop motion aos efeitos digitais, dos orçamentos irrelevantes aos milionários, à primeira vista fica complicado explicar o que exatamente uniu tanta gente em torno dessa saga.
Pensando nisso tudo, a matéria que a Curió traz neste Halloween se propõe a desbravar a seguinte pergunta: o que define a franquia Evil Dead?
Chegando na Cabana Abandonada – Começando do Começo
Desde o nascer da franquia, Evil Dead já foi traduzido oficialmente de duas formas diferentes no Brasil: A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante, que foram utilizados em diferentes contextos ao longo dos anos. Por si só, essa situação já serve como alerta sobre o caráter de mistureba da franquia – afinal, convenhamos, estes dois títulos definitivamente não transmitem a sensação de compartilharem as mesmas características.
Começando do começo, The Evil Dead (1981) é realmente um condensado das convenções do gênero slasher, que começava a se popularizar na época com filmes como O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Halloween (1978). Além do diretor Sam Raimi, seus amigos Robert Tapert (produtor) e Bruce Campbell (ator de Ash) queriam encontrar no cinema um sustento para suas vidas. Para tal, antes de colocar a mão na massa, eles analisaram o comportamento do público de terror de baixo orçamento para encontrar caminhos para sua própria obra.

Como Campbell descreveu, o segredo era adotar um ritmo rápido e intenso, além de nunca colocar o pé no freio quando o horror começasse. Juntando tudo isso e muita criatividade, para superar o orçamento de 90 mil dólares, o longa conduz um enredo simples: cinco amigos se reúnem numa cabana abandonada no meio da floresta até que todos começam a ser possuídos por forças demoníacas despertadas.
Sim, é basicamente isso, mas longe de ser apenas isso. O longa de estreia de Raimi mostrou algo que definiria o trabalho do cineasta pelo resto da sua carreira: um desejo extremamente honesto de recriar em cena tudo aquilo que passa em sua imaginação. A proposta descomplicada do filme é o que dá abertura para que Sam possa experimentar diferentes maneiras de organizar as informações e acontecimentos da trama.
Inclusive, a principal criação visual que o diretor traz em The Evil Dead veio justamente a se tornar um dos elementos mais associados a franquia – a figura de um mal silencioso e espiritual, que atravessa os cenários da floresta e da cabana em um ponto de vista em primeira pessoa, atormentando os personagens e destruindo tudo aquilo em seu caminho.
Os movimentos de câmera angustiantes, quase claustrofóbicos, mas também longos, diretos e brutais de The Evil Dead não só compõem o DNA de todo o resto da franquia. A visão de Raimi impactou a forma com que outros diretores de cinema passaram a enxergar as possibilidades de exploração e interação da câmera com sua cena, como já afirmaram autores como Guillermo Del Toro e Quentin Tarantino, fãs declarados do trabalho do diretor.
Abrindo o Livro dos Mortos – Desbravando a Mente Inquieta de Sam Raimi
As iterações seguintes da franquia Evil Dead são marcadas por uma complexa e caótica divisão de direitos autorais entre diferentes estúdios, o que afetou diretamente a continuidade, o roteiro e a identidade visual de suas sequências. A polêmica central gira em torno do fato de que cada um dos três primeiros filmes foi distribuído por uma empresa diferente, gerando disputas legais e barreiras criativas que forçaram o diretor Sam Raimi a fazer mudanças drásticas na saga. Talvez a mais marcante delas seria a que veio logo a seguir, com a entrada definitiva da franquia no reino da comédia.
Em 1987 chega aos cinemas Evil Dead 2, mais uma vez dirigido por Sam Raimi e estrelado por Bruce Campbell. Apesar do sucesso internacional de seu primeiro filme ter lhe dado oportunidades em Hollywood, após o fracasso de sua segunda produção, o longa Crimewave (1985), Sam decide voltar a sua franquia original em busca de uma impressão positiva da audiência. Esse movimento de retorno ao que é mais seguro pode muitas vezes atrasar o processo de evolução de um cineasta, mas nesse caso deu a Raimi a oportunidade de desenvolver ainda mais aquilo de único que construiu com o primeiro filme, assim como também deu espaço maior para as suas referências e sua paixão pela comédia.

Evil Dead 2 começa recontando brevemente o enredo do primeiro longa, alterando descaradamente detalhes que Raimi julgou serem necessários para sua proposta ainda mais surreal de sequência, que começa seu enredo inédito ao lado do protagonista Ash. Enquanto Evil Dead caracteriza o personagem de forma genérica entre seus personagens adolescentes, a continuação canoniza o personagem como um ícone heróico e sombrio, sobrevivente diante de todo o mal e desgraça, sempre portando sua motosserra.
É com Ash ao centro que Evil Dead 2 inicia uma dança entre o surreal e o inimaginável, que intensifica o uso dos efeitos práticos a todo momento, expandindo centenas de vezes as possibilidades criativas para retratar o universo de monstros e aberrações que já eram marca registrada do filme anterior.
Para além disso, o carisma e a entrega de Bruce Campbell crescem exponencialmente de um filme para o outro, e é através da interação enérgica e bem humorada dele com toda a insanidade ao seu redor que Sam Raimi pode brincar com tudo que põe em cena – que além das próteses e fórmulas de sangue artificial, contam com diversas animações em stop motion.
Cinco anos depois, Sam Raimi retorna a franquia Evil Dead seguindo o cliffhanger deixado por ele mesmo ao fim do longa anterior e trazendo ainda mais mudanças. Army of Darkness (1992) é mais um dos casos em que o caráter complexo da franquia se expressa através de seus títulos, onde dessa vez o nome Evil Dead é abandonado completamente, assim como grande número de elementos e características dos dois longas anteriores.

No terceiro filme da franquia, o diretor e roteirista quase abandona o gênero do terror, investindo ainda mais na comédia e na caricatura do personagem interpretado por Campbell. Retirado do cenário sombrio e claustrofóbico da floresta, Ash é jogado em um reino medieval típico de filmes de ação e aventura das décadas de 80 e 90 que está sendo atacado por monstros trazidos pelo Necronomicon (o famoso livro dos mortos), o que coloca o personagem como principal candidato para salvar o dia.
Acompanhado do protagonismo heróico herdado do filme anterior, Ash encarna uma espécie de ideal americano de masculinidade, que bebe de vários estereótipos e aponta algumas contradições. Arrogante e destemido, Ash menospreza a civilização do passado enquanto carrega em mãos uma escopeta e sua “tradicional” motosserra, antes de relutantemente se oferecer para salvar a vida de todos. Ao fim, ele conquista seu par romântico com suas frases de efeito típicas de galã de novela, antes de retornar aos dias atuais onde trabalha orgulhosamente como vendedor de eletrodomésticos em uma típica loja de departamento americana.
Apesar de recursos como a violência espalhafatosa e a atenção para o uso de efeitos práticos ainda estarem aqui, esses elementos perdem espaço diante do cenário e roteiro que priorizam a alegoria criada por Raimi. Após Army of Darkness, Evil Dead adormeceu, como os demônios do Necronomicon, pelos próximos 20 anos.
Os Mortos se levantam da Terra – O Retorno da Franquia
Para retornar das cinzas, a franquia adotou uma solução narrativa para facilitar a coesão entre as produções: o universo expandido estabeleceu que existem três livros Necronomicon diferentes espalhados pelo mundo (elemento esse que é o causador dos conflitos em todos os filmes). Dessa forma, cada estúdio ou diretor pode contar uma história inteiramente nova e brutal de possessão demoníaca sem esbarrar nas amarras legais e contratuais dos filmes anteriores.
Se afastando dos flertes com a comédia, os novos filmes buscaram adotar uma certa identidade diferente da que a “trilogia” de Raimi possuía. Sem a liderança autoral do cineasta, os novos filmes têm como força motora o body horror em diálogo com as dinâmicas familiares contemporâneas, tudo isso operando junto a maneirismos mais comuns aos filmes de terror contemporâneos e suas fórmulas mais populares.
Após a guerra contra demônios e as burocracias industriais engavetar a franquia por duas décadas, o novo longa Evil Dead foi lançado em 2013, com o uruguaio Fede Alvarez na direção. A obra fez jus a condição de remake, retomando a trama da cabana abandonada do original sob uma nova dinâmica entre as personagens. Além da notável modernização dos efeitos visuais, a diferença se encontra num diálogo maior com temáticas humanas, como dependência química e amor fraternal.

Quando não saber para onde ir, nada melhor que olhar para trás, né? Mas talvez Alvarez tenha olhado até demais ao propor praticamente a mesma sequência de eventos do original, limitando a sua criatividade – que se mostra muito presente no desfecho do filme, única parte em que algo mais autoral se apresenta.
O diretor acenou para a possibilidade de trazer uma sequência, mas com tais planos frustrados a franquia retornaria novamente apenas em 2023, com o lançamento de Evil Dead Rise. Com Lee Cronin na direção, a obra reúne a rede dispersa de conceitos da franquia dentro de uma pegada mais contemporânea, principalmente do terror psicológico.
Se em Evil Dead o horror corporal se manifesta através dos efeitos de substâncias químicas e a dependência causada por elas na figura da personagem Mia, em Evil Dead Rise ele se insere no medo das dinâmicas sociais opressivas que a gravidez traz para a vida de uma mulher – tanto físicas quanto psicológicas. No longa, a problemática Beth se vê obrigada a proteger seus três sobrinhos após sua irmã ser a primeira vítima do livro dos mortos, tudo isso enquanto lida sozinha com a descoberta de que será mãe pela primeira vez.

Ao escolher retratar seus personagens como uma família de caráter visivelmente “progressista”, o filme afasta seu elenco principal daquele tradicional elenco jovem americano dos primeiros filmes e busca entender onde se escondem os traumas e fragilidades dos núcleos familiares mais modernos.
Nessa jornada, que inaugura o cenário urbano na franquia, o prédio da família acompanha as mais criativas formas de tortura psicológica e metamorfoses corporais, uma das várias maneiras que encontra de homenagear seuss filmes mais antigos. Evil Dead Rise faz como outras franquias de terror nos últimos dez anos e dedica sua atual iteração a um exercício de reconhecer o que há de mais importante nos clássicos da franquia, os referenciando, reimaginando e construindo algo de novo e fresco em cima disso.
Se os laços familiares se mostram como a solução nessa obra, a sequência Evil Dead Burn (2026) vai pelo caminho oposto: sabe aquela família perfeitinha por fora mas que por dentro quase ninguém se suporta? Digamos que, com um pouco de perfurações, tiros e decapitações, muitas verdades podem vir à tona.

Sobretudo, o diretor Sébastien Vaniček traça um interessante paralelo entre as possessões e a violência de gênero nas relações familiares, especialmente aquelas posicionadas como a “família tradicional americana”. Apesar de não se restringir a isso e também tocar em pontos como performances sociais, o sexto filme insere uma percepção interessante sobre como o inferno se manifesta na vida de muitas pessoas mesmo antes do livro dos mortos aparecer em cena.
Se estes últimos lançamentos aparentavam consolidar uma nova identidade para a saga, mais alinhada ao terror contemporâneo e ao ambiente urbano, o anúncio de Evil Dead Wrath, marcado para 2028, instigou uma nova dúvida na comunidade de fãs ao se posicionar como uma sequela para o longa original. De uma forma ou de outra, resta esperar para descobrir quais ideias antigas retornarão e quais adições serão feitas.
Afinal, o que faz Evil Dead ser Evil Dead?
Naturalmente, o exercício exigido para responder perguntas como essa é buscar por encontrar o algo comum nas parcelas analisadas. E isso é até possível em Evil Dead: as entidades espirituais, a sensação de isolamento do resto do mundo, o livro dos mortos e os rios de sangue são alguns dos elementos presentes em todas as obras. No entanto, seria muito injusto afirmar que são essas as características que definem a franquia.
A trilogia original de Sam Raimi por si só já convivia com uma série de irregularidades, já que ao assistir seus três trabalhos em sequência fica claro a falta de esforço em ocultar suas diferenças. Mas justamente aquilo que trouxe tantos fãs à franquia é o que define essa sequência de filmes: a liderança e o olhar criativo de Sam Raimi, capaz de transmutar, cheio de convicção, sua própria criação como o monstro de frankenstein ou como as criaturas contorcidas e bizarras de suas próprias histórias.

Sem o comando de Raimi, Evil Dead poderia vir a cair em um perigoso limbo, onde o novo passa a ser criado apenas com base nos elementos mais comumente associados à franquia, como gore ou as possessões demoníacas. Na verdade, felizmente o que parece realmente encontrar espaço é justamente a capacidade de trabalhar diferentes temáticas, críticas e intenções por meio de conceitos e de uma linguagem estética similar.
É interessante que, intencionalmente ou não, a regra aparenta ser justamente a não rigidez das convenções – seja pela adaptação em volta da disputa de direitos, seja pela diversidade de visões criativas ou seja por qualquer outro fator. Atrizes e nomes são trocados, cada narrativa apresenta uma dinâmica própria de possessão e comportamento dos demônios e a intensidade do horror corporal tampouco segue um padrão.
Diante de tanta enrolação, aqui vai a resposta: o que caracteriza Evil Dead é sua capacidade de mostrar como elementos parecidos funcionam em diferentes contextos quando a criatividade não encontra barreiras. Certamente, cada um se encontra mais em algum filme da franquia e menos em outro, mas o verdadeiro legado de Sam Raimi se encontra na máxima da honestidade.
Ao criar a franquia, Sam queria apenas ter uma porta pela qual poderia expressar sua criatividade e visão como artista e assim, atribuiu ao DNA da mesma um jeito de camaleão. A nova leva de filmes não pode (e nem deveria) ser como seus antecessores, mas enquanto a linguagem de Raimi for de encontro com outros cineastas dispostos a contar suas próprias histórias, o presente e futuro de Evil Dead se manterão alinhados com o cerne de seu passado.



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