The Rocky Horror Picture Show lota Cine Humberto Mauro e estreia shadowcast em BH
O Coletivo Montarya transformou o Cine Humberto Mauro em palco com performances que ultrapassam os limites do cinema tradicional
Por Evelyn Costa
Última atualização: 22/10/2026
The Rocky Horror Picture Show (1975) foi ignorado logo quando estreou: o público não apareceu, a crítica torceu o nariz e o filme foi retirado dos cinemas tradicionais por baixa bilheteria. Mas no ano seguinte, o longa passou a ser exibido nas sessões da meia-noite em Nova York e teve uma virada de chave, com um público fiel que começou a voltar toda semana fantasiado, cantando e gritando respostas junto da tela, a sessão virou ritual.

E quem diria que 51 anos depois, Belo Horizonte receberia pela primeira vez o filme em formato de shadowcast, nos dias 9 e 16 de outubro, no Cine Humberto Mauro, e que seria preciso anunciar uma sessão extra, marcada para o dia 23, antes mesmo da exibição, porque quase 80 pessoas a mais esperavam por um lugar para aclamar a obra e os artistas que estavam ali para performá-la.
Quando o elenco sai da tela e entra em cena
O shadowcast é uma forma de apresentação performática em que atores e atrizes interpretam diante da tela, as cenas do filme em sincronia com a projeção, como uma “sombra” dos personagens. Na sessão de The Rocky Horror Picture Show em BH, o Coletivo Montarya levou ao palco do cinema momentos e performances icônicas da obra.
“O público não é simplesmente público no shadowcast, ele é parte do todo, e o nosso objetivo é que ele se sinta parte da agitação, da energia, da festa, da convenção, do ritual”, afirma Leonardo Heytor, assistente de direção. Segundo o coletivo, o filme sozinho já instiga a participação, por causa da força do fandom, e o shadowcast permite fazer o que muita gente quer na sessão: cantar em voz alta. “Esse filme é uma grande drag queen! A drag é liberdade, ela convida você à liberdade, ela fala assim: não sonha, faz”, completa Bella La Pierre, gerente do coletivo que também interpreta Frank N. Further na performance.

Para o programador e gerente do Cine Humberto Mauro, Vitor Miranda, o formato conversa com o que a sala se propõe a fazer. “Ver Rocky Horror no cinema já é uma coisa única, que você não consegue ter em casa. Com performances, é mais único ainda. A gente tenta sempre apostar em formatos de projeção, exibir filmes em película, fazer execuções ao vivo, com trilha ao vivo. São experiências que deixam o momento único”, explica.
Na visão de Vitor, essas experiências são também um caminho para o cinema de rua. Com o consumo audiovisual cada vez mais mediado por celular e por streaming, ele avalia que o papel das salas de rua é justamente pensar fora da caixinha.
Os desafios de transformar a sala em palco
Levar o shadowcast ao Humberto Mauro exigiu improviso, já que apesar de o Palácio das Artes abrigar teatro e outros espaços, a estrutura do cinema não foi pensada para esse tipo de experiência. Como havia trocas de roupa durante o filme, os figurinos precisaram ficar na bilheteria, já que na sala de cinema não há camarim. A saída de emergência, que dá no palco, foi adotada como uma das entradas para quem aparece durante a projeção.

A legenda também precisou ser retirada durante as performances, porque ficava coberta por quem estava em cena. E houve ainda cuidados técnicos, como com a tela sensível que não podia ser tocada, e adaptações feitas pela equipe de iluminação. “Tem esse desafio de como transformar essa sala de cinema também num palco de teatro”, afirma Vitor.
O Coletivo Montarya por trás da performance
Quem está à frente da performance tem uma história que passou por pausas. O Coletivo Montarya surgiu em 2016, reunindo figurinistas, peruqueiros, maquiadores e performers ligados à arte drag. O nome vem de “montar pessoas”, ou seja, refere-se ao ato de se produzir visualmente e de ajudar quem quiser se montar de drag, independentemente de gênero. Com o tempo, o grupo passou a dar oficinas e capacitações, a se apresentar em festivais e a participar de filmes.
O trabalho parou na pandemia e só foi retomado neste ano, depois da aprovação em um edital da Virada Cultural. O convite do Humberto Mauro veio em seguida. “A gente falou: por que não fazer essa retomada bonita? E foi só falar isso que as coisas começaram a acontecer”, conta Bella.

Para o coletivo, a retomada é só o início de uma tradição. Ainda sem planos definidos para essa volta, a ideia é realizar uma oficina de montação, carro-chefe do grupo, ainda este ano ou no começo do próximo. Quanto a outros filmes em shadowcast, o coletivo se anima com a possibilidade de criar um formato novo, talvez com o cinema brasileiro ou a novela, mas ainda não há nada planejado.
O cinema como espaço de liberdade
Vitor lembra que o Humberto Mauro é um espaço gratuito, com uma programação que foge da história do cinema convencional e que acolhe uma grande diversidade de pessoas, entre aposentados, estudantes e pessoas LGBTQIA +. Para ele, formatos de sessão que saem do convencional são especiais porque atraem um público em busca de uma experiência única. Assim, a Sessão da Meia-Noite exibe filmes que ficaram famosos justamente nesse horário, o que leva de forma natural ao cinema queer produzido ao longo da história.
A escolha de The Rocky Horror Picture Show ganha ainda mais sentido nesse cenário. O filme é uma releitura de Frankenstein, obra lida por muita gente como fantasia queer, e encontra forte ressonância, tendo se consolidado como um poderoso hino à liberdade de expressão, à quebra de padrões de gênero e à liberdade sexual. “Rocky Horror é sobre a universalidade de todo mundo, das pessoas que são excluídas de todo mundo, mas elas estão lá também”, finaliza Leonardo.

Para quem nunca viveu uma Sessão da Meia-Noite, Vitor deixa um conselho entre a brincadeira e o aviso: “chegue cedo”. Os ingressos do shadowcast foram retirados presencialmente, e as sessões lotaram a ponto de deixar gente de fora. Há ainda a vantagem de conhecer novas pessoas. “As pessoas passam a se conhecer, saem da sessão e começam a comentar o filme”, conta Vitor. Depois, o centro de Belo Horizonte se torna uma continuação da noite. “Você não precisa fazer só isso na sua sexta à noite, dá para ir ao filme e continuar”.



Comentários