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Sempre a única mulher por trás das câmeras

  • Foto do escritor: Revista Curió
    Revista Curió
  • 30 de abr.
  • 4 min de leitura

No audiovisual brasileiro, mulheres ainda sofrem com disparidade em cargos técnicos; a cineasta mineira Tânia Anaya fala sobre trajetória e o que ainda precisa mudar


Por Lara Gomes e Vitor Pepino

Última atualização: 30/04/2026


Variety/Reprodução
Variety/Reprodução

Se nas telas o protagonismo feminino tem ganhado espaço, nos bastidores do cinema o cenário ainda é outro. A presença de mulheres no mercado audiovisual cresce a cada dia mas ainda é atravessada por desigualdades, principalmente quando se trata de cargos técnicos e posições de decisão. Segundo a Ancine, 75% dos longas-metragens brasileiros foram dirigidos exclusivamente por homens em 2024, e apenas 17% exclusivamente por mulheres. Os números são ainda mais graves em funções técnicas específicas, a presença majoritária das mulheres ainda se associa apenas a atividades de organização e cuidado, como direção de arte e produção executiva. 


A história do cinema ajuda a entender esse descompasso. Durante décadas, o acesso aos meios de produção esteve restrito e, com ele, a possibilidade de assinar imagens, montar narrativas, operar máquinas. Hoje, mesmo com transformações no setor, certos cargos ainda carregam uma ideia de autoridade associada ao masculino. Em quase um século de Oscar, nenhuma mulher havia vencido a categoria de melhor fotografia — até março deste ano, quando Autumn Durald Arkapaw subiu ao palco pelo trabalho em Pecadores (2025). O momento foi histórico, mas demonstra o quanto um marco tardio pode dizer sobre o avanço e quanto sobre o quanto ainda falta percorrer quando se fala sobre a presença das mulheres no cinema.


A disparidade se revela no próprio funcionamento do mercado. A formação de equipes costuma acontecer a partir de redes já estabelecidas, o que dificulta a entrada de novos perfis e acaba reproduzindo um ambiente pouco diverso, portanto, na prática, mulheres seguem enfrentando resistência para ocupar funções técnicas. Esse cenário se complexifica quando atravessado por questões sociais e raciais, as barreiras se acumulam ainda mais, seja nas oportunidades de trabalho e capacitações, ou até mesmo no reconhecimento e remuneração.


Tânia Anaya e o encantamento pelo quadro a quadro


A Equipe Curió conversou com a diretora Tania Anaya, referência no cinema de animação e fundadora da produtora audiovisual mineira Anaya. Graduada e mestra pela UFMG no curso de Cinema de Animação e Artes Digitais (CAAD), Tania iniciou sua trajetória no mercado audiovisual na década de 1990 estreando na produção de diversos curta-metragens. A diretora relatou à equipe como inesperadamente se encantou com o mundo das animações, e desse encontro nasceu uma carreira de décadas.


A diferença geracional que ela representa é concreta. “Quando comecei, os filmes eram realizados em película, suporte muito mais caro e lento. A evolução tecnológica democratizou o acesso e acelerou os processos. Mas não há milagre, a produção na animação continua sendo bem trabalhosa”, afirma. Hoje, uma câmera de celular pode ser um ponto de partida. O que não mudou no mesmo ritmo é o ambiente ao redor, quem está nas mesas de decisão, quem assina os projetos de maior fôlego, quem é chamado para compor as equipes.


O mercado mineiro e as marcas de um setor em construção


Minas Gerais tem afirmado uma identidade audiovisual própria com produtoras, coletivos e festivais que movimentam o setor. A animação ocupa um lugar específico nesse ecossistema, um segmento que cresceu, mas que ainda enfrenta desafios estruturais ligados à instabilidade das políticas públicas. Anaya acompanhou esse processo de dentro: viu editais serem cortados, produções serem interrompidas por falta de verba, e também viu o setor se reorganizar quando as condições permitiram.


Foi justamente para ter autonomia nesse ambiente instável que, em 2002, ela fundou a Anaya Produções, que investe na criação de um polo de produção de animação para longas-metragens em Belo Horizonte. Antes disso, realizava seus projetos em parceria com produtoras de amigos. Sem uma estrutura própria, as possibilidades de continuar no mercado seriam muito mais estreitas.


Mostra Internacional de Cinema/Reprodução
Mostra Internacional de Cinema/Reprodução

Da produtora saíram alguns dos trabalhos mais significativos da carreira de Anaya: Castelos de Vento (1998), curta premiado com o Tatu de Ouro de melhor animação na Jornada de Cinema Íbero-Americano da Bahia; Ãgtux (2005), documentário experimental sobre a produção artística do povo Maxakali, premiado com Melhor Montagem no Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte; e Nimuendajú (2025), seu primeiro longa-metragem, que estreou no Festival de Annecy, o mais importante dedicado ao cinema de animação no mundo, e se tornou o primeiro longa mineiro de animação dirigido por uma mulher. 


"A baixa participação feminina em cargos-chave de projetos de maior fôlego, como longas-metragens e séries, desestimula a entrada de novas profissionais. Tenho participado de festivais com meu longa, Nimuendajú, e nesta categoria, sempre sou a única mulher", diz Tânia. Ser a única tem um peso simbólico: sinaliza, para quem está chegando no mercado, quais espaços parecem disponíveis para elas.


Variety/Reprodução
Variety/Reprodução

Coletivos, referências e a roda que precisa girar


Diante da lentidão das transformações institucionais, coletivos femininos de animação têm marcado presença, procurando dar visibilidade a uma situação desproporcional. Para Anaya, esses movimentos são parte de uma mudança que começa pela consciência. "Hoje em dia há uma conscientização maior a respeito desta questão, eu mesma tenho repensado muito, conversado e aprendido", reconhece.


Ela própria se inspira em nomes como Aída Queirós, Regina Pessoa, Marjane Satrapi e Rosana Urbes, diretoras que abriram caminhos no cinema, e entende que esse ciclo precisa continuar: “é importante fazer a roda girar e virar inspiração para outras que serão inspiração para outras e por aí vai”.


Mas para Anaya, a mudança real passa pela ocupação concreta de espaços de decisão. “É importante a ocupação feminina nos cargos de decisão, isso reflete diretamente no conteúdo das obras. Sempre procuro agregar aos meus projetos o maior número de mulheres em cargos como: diretora, produtora executiva, diretora de produção, roteirista, etc”, afirma. Quem decide o que filmar decide o que se vê, e essa escolha editorial tem consequências para o tipo de cinema que chega ao público.


Se depender de Tânia Anaya, o audiovisual do futuro terá estabilidade. A animação, por suas especificidades, exige continuidade que o atual modelo de editais não garante. É uma demanda técnica que se entrelaça com uma demanda política: para que mais mulheres permaneçam no setor, é preciso que o setor ofereça condições para isso. E como Tânia Anaya sabe bem, o trabalho de ocupar esse espaço ainda é, na maior parte das vezes, solitário.


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