Urias: A Voz Do (novo) Brasil
Em CARRANCA, imaginar outro Brasil também é um ato de resistência
Por: Lucca Bozzi e Vinícius Bozzi
Última atualização: 14/10/2026
Em CARRANCA, Urias olha para o passado para compreender as liberdades que alcança no presente e imaginar futuros que ainda parecem distantes. Entre a ancestralidade, a memória e os encontros entre diferentes gerações da música brasileira, o álbum transforma a travessia em possibilidade de reinvenção.
CARRANCA completou um ano na última semana, celebrado com um show político e representativo, no qual Urias se debruça sobre a liberdade do povo negro e festeja sua existência. Um ano depois, a obra ganha novos contornos, significados e sentidos diante do público e da conjuntura sociopolítica do país, além de ser indicado ao Grammy Latino de 2026.

Urias - Foto: Gabriel Renné
Para entender a narrativa do álbum, antes é necessário compreender o lugar que CARRANCA ocupa na trajetória de Urias. A artista, natural de Uberlândia (MG), tem sua carreira marcada por projetos políticos e experimentais, mas alcança novos mares com seu último trabalho.
Em seu terceiro álbum de estúdio, Urias abraça a MPB por meio de uma experimentação que rompe com a sonoridade trabalhada anteriormente, mais cosmopolita, artificial e eletrônica. Se os discos anteriores convidam os ouvintes a curtir os sons nas pistas, CARRANCA busca o autoconhecimento e a introspecção para compreender a realidade de um coletivo.
Há, contudo, uma relação entre os três álbuns que vai além das escolhas sonoras. Em sua tríade, Urias apresenta três elementos inerentes ao ser humano: corpo, mente e espírito. Em seu disco de estreia, FÚRIA (2022), utiliza a raiva como motor para a sobrevivência diante dos atravessamentos sociais impostos ao seu corpo.
O sucessor, HER MIND (2023), inspira-se em pesquisas neurológicas sobre a identidade de pessoas transexuais para refletir sobre a mente como um campo de autodescoberta, inteligência e amor-próprio.
Já CARRANCA (2025) apresenta os efeitos do tempo no amadurecimento de Urias. O título faz referência à figura de proteção espiritual difundida na cultura brasileira, historicamente associada à navegação e às tradições populares. O álbum também é fruto da imersão da artista no candomblé, que permeia, sobretudo, sua narrativa lírica e visual.
É a partir do mar que Urias constrói uma das principais imagens de CARRANCA. Historicamente associado tanto à promessa de liberdade quanto à violência da travessia forçada de milhões de africanos escravizados, o oceano guarda as marcas de uma história de deslocamento, ruptura e apagamento.
Porém, o mar ganha outras possibilidades na narrativa do álbum: torna-se caminho para reencontrar a ancestralidade, reconhecer a própria história e imaginar novas formas de existência para um povo.
Ao longo do disco, Urias olha para o passado em busca da história de seu povo para, no presente, compreender os espaços conquistados pela população negra e os efeitos persistentes da colonialidade. O futuro, por sua vez, aparece como uma possibilidade a ser construída a partir desse reencontro com as próprias origens.
Em quase uma dualidade, Urias se lançou como artista com o single “Diaba” (2019). Seis anos depois, ela apresentou o álbum CARRANCA com o lead-single “Deus” em parceria com o rapper Criolo. E, mesmo com o título divino, Urias mantém a fúria e a navalha debaixo da língua em uma denúncia ao apagamento religioso decorrente da colonização.

Urias - Foto: Mateus Aguiar
Essa narrativa é dividida em três blocos, demarcados por textos do historiador franco-etíope Guillaume Blanc-Marianne, interpretados pela artista Marcinha do Corintho. A participação de Marcinha é um dos pontos altos da construção lírica do álbum. Sua trajetória, atravessada pela resistência à ditadura militar e à censura, em um período no qual seu corpo era rejeitado e reprimido, estabelece uma relação entre diferentes tempos de violência e enfrentamento.
Os interlúdios ditam as temáticas que atravessam CARRANCA. Em “A Liberdade (Intro)”, a liberdade prometida ao povo negro é apresentada como uma utopia, que dá lugar ao desejo de reencontro com os ancestrais e de vingança, mesmo diante das possibilidades roubadas pela colonização.
A denúncia se estende a “Quando a Fonte Secar” e “Vênus Noir”, que abordam, respectivamente, o apagamento das raízes afro-latinas da cultura brasileira e a objetificação de corpos negros, tomando como referência a história de Saartjie Baartman. Em “Vontade de Voar”, a indignação diante dessas violências se transforma em impulso para conquistar os próprios sonhos.
Com “Oração (Interlúdio)”, o reencontro com a ancestralidade passa a representar também a possibilidade de paz, abrindo espaço para canções mais amorosas e esperançosas. Entre o retorno simbólico à Etiópia em “Etiópia”, a proteção e o amor afrocentrado presentes em “Navegar” e “Se Eu Fosse Você”, e a reflexão sobre os legados do povo negro em “Herança”, Urias constrói outras possibilidades de futuro.
Uma das marcas da atemporalidade de CARRANCA está em “Águas de um Mar Azul”, composta na década de 1970 por Hyldon e Fábio e até então inédita. Descoberta por Gorky, produtor do álbum, nos arquivos da Universal Music e parece ter encontrado, décadas depois, um novo lugar para existir.
Em entrevista exclusiva à Revista Curió, Hyldon comenta sua ligação com a figura da carranca, devido à sua origem nordestina, e a felicidade de ver sua composição integrar o trabalho de Urias. Mais do que inserir uma música antiga em um disco contemporâneo, a escolha evidencia como determinadas imagens, sonoridades e texturas permanecem capazes de produzir sentido em outros contextos.
Em CARRANCA, uma canção guardada por cerca de 50 anos passa a integrar uma obra dedicada justamente à busca por raízes, à reconstrução da memória e à possibilidade de imaginar futuros a partir do passado. A faixa também foi indicada ao Grammy Latino de 2026 na categoria de Melhor Canção em Língua Portuguesa, que reconhece o trabalho dos compositores.

Urias - Foto: Mateus Aguiar
Já em “Paciência”, com Don L, a oração se volta às violências sofridas por grupos minoritários, até que “Eterna (Outro)” encerra o percurso com uma liberdade que deixa de ser individual e passa a representar a possibilidade de transcendência e libertação coletiva.
Urias, porém, não encerra o álbum apenas na reconexão com o passado ou na esperança de um futuro possível. Em “Voz do Brasil”, carro-chefe do disco, ela confronta o imaginário nacional com as contradições do país real. A faixa faz uma crítica ao programa radiofônico governamental homônimo, cuja trajetória remonta ao Estado Novo e atravessa períodos autoritários da história brasileira.
Ao incorporar o sample de “O Guarani”, de Carlos Gomes, tema de abertura do programa, Urias se apropria de um símbolo da comunicação oficial para questionar a imagem de Brasil que se apresenta ao próprio país e ao exterior. Na composição, essa imagem aparece em tom convidativo, como se o país fosse um destino capaz de oferecer tudo aquilo que promete.
A participação de Major RD rompe com essa idealização ao introduzir um choque de realidade: o Brasil que se vende não corresponde necessariamente àquele encontrado por quem vive nele. A contradição ganha sua forma mais direta no encerramento da música, quando Urias canta que também quer ir para esse Brasil, mas não consegue encontrá-lo em seu cotidiano.
A contradição entre o Brazil com o Brasil é central para a narrativa do álbum. Depois de percorrer a história de um povo, reconhecer suas contribuições culturais, confrontar as violências sofridas e imaginar outras possibilidades de existência, Urias retorna ao Brasil do presente.

Urias - Foto: Gabriel Renné
O país que se apresenta como resultado de uma mistura de culturas e tradições ainda convive com as estruturas que apagam parte fundamental de sua própria formação. A liberdade buscada ao longo do disco permanece em disputa, e o futuro imaginado ainda não corresponde inteiramente à realidade vivida.
O desejo de pertencer ao país que se anuncia revela, assim, a distância entre a promessa de liberdade e as condições concretas de existência de parte de sua população. Não se trata simplesmente de rejeitar o Brasil, mas de reivindicar o direito de viver naquele que ele insiste em vender.
Desde o lançamento de CARRANCA, “Voz Do Brasil" ganhou novos espaços de circulação entre o público. Em 2026, a faixa passou a ser utilizada por fãs em diferentes contextos, do Carnaval à Copa do Mundo, chegando também às manifestações e às disputas políticas do período eleitoral.
Um ano depois, CARRANCA não se limita a revisitar o passado nem a projetar um futuro idealizado. O álbum aproxima essas temporalidades para mostrar como uma história continua operando no presente e como o reconhecimento das próprias origens pode abrir caminhos para a transformação. A ancestralidade não aparece como um lugar ao qual se retorna para permanecer, mas como uma possibilidade de compreender de onde viemos e imaginar para onde podemos ir.
É também por isso que o Brasil de “Voz do Brasil” não se resolve na imagem convidativa que a canção apresenta. Ele existe como promessa e contradição, como herança e disputa, como um país que se orgulha de sua diversidade enquanto insiste em negar a liberdade plena a uma parte de seu povo. A distância entre esses dois Brasis é justamente o que torna a pergunta de Urias tão urgente: como desejar pertencer a um lugar que ainda não permite que todos existam nele com a mesma liberdade?
Talvez seja essa a permanência mais inquietante de CARRANCA depois de um ano. O disco nos conduz de volta às origens não para sugerir que o passado possa ser recuperado em sua inteireza, mas para mostrar que nenhum futuro será verdadeiramente livre enquanto as marcas dessa história continuarem sendo ignoradas.
O reencontro com a ancestralidade, o amor, a proteção e a possibilidade de deixar novas heranças não apagam as violências anteriores. Eles apontam para a construção de um país que ainda precisa aprender a reconhecer aqueles que o construíram.
No fim, o Brasil que Urias deseja encontrar não é necessariamente aquele que se anuncia em suas representações oficiais, nas imagens exportadas ou nas promessas de liberdade que atravessam a história. É um Brasil que ainda precisa ser construído, e no qual o povo negro possa existir para além da resistência, sem precisar justificar sua presença, disputar sua humanidade ou pedir licença para sonhar.
Um ano depois, CARRANCA continua a nos lembrar que o futuro não nasce do esquecimento, mas daquilo que escolhemos fazer com a história que herdamos. E, diante desse país que ainda não conseguimos alcançar, resta compartilhar com Urias o desejo de encontrar um lugar em que a liberdade não seja apenas uma promessa.
Sim Urias, eu também quero ir para o Brasil.



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