29ª Mostra de Tiradentes abre o calendário de cinema nacional em 2026
- Revista Curió
- 22 de jan.
- 4 min de leitura
Com o tema “Soberania Imaginativa”, evento propõe debates sobre a capacidade de imaginar, criar e sustentar projetos nacionais no campo simbólico e cultural
Por: Ana Clara Moreira
Última atualização: 22/01/2026

Entre os dias 23 e 31 de janeiro, a cidade histórica de Tiradentes volta a se transformar em um dos principais pólos do audiovisual brasileiro com a realização da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Abrindo oficialmente o calendário do cinema nacional em 2026, o evento apresenta 137 filmes em pré-estreia, entre 43 longas-metragens e 93 curtas, distribuídos em 21 mostras e sessões especiais, além de debates, fóruns, encontros formativos e atividades de mercado – tudo com programação gratuita, em formato presencial e online.
Consolidada como uma das mais importantes plataformas de lançamento, reflexão e difusão do cinema brasileiro contemporâneo, a Mostra reafirma a vocação para a diversidade estética e regional. Os filmes selecionados vêm de 23 estados, com destaque para Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, além de produções do Nordeste, Norte e Centro-Oeste, evidenciando a vitalidade e a descentralização da produção audiovisual no país.
Júlio Bressane e a celebração da invenção
A sessão de abertura acontece na noite de 23 de janeiro, no Cine-Tenda, com a exibição inédita do curta-metragem O Fantasma da Ópera (2023), de Júlio Bressane e Rodrigo Lima. Construído a partir de imagens captadas durante as filmagens do longa ainda inédito Pitico, o filme propõe uma reflexão metalinguística sobre o próprio fazer cinematográfico. A escolha ganha peso simbólico ao coincidir com a celebração dos 80 anos de Bressane, um dos cineastas mais influentes do cinema brasileiro.

A curadoria da mostra é coordenada pelo crítico Francis Vogner dos Reis, ao lado de uma equipe formada por especialistas em longas e curtas-metragens, mantendo o compromisso histórico do evento com a renovação estética e o pensamento crítico.
Mostras competitivas, clássicos e novos olhares
Entre os destaques da programação, estão a Mostra Aurora, dedicada exclusivamente a primeiros longas-metragens, e a Mostra Olhos Livres, voltada a obras de forte risco estético e investigação formal. Por sua vez, a Mostra Autorias reúne cineastas de trajetória consolidada, enquanto a Mostra Invenção aposta em filmes que entendem o cinema como experiência coletiva e experimental.
A programação inclui ainda a Mostra Praça, com filmes de comunicação direta com o público; os Clássicos de Tiradentes, que revisitam obras fundamentais da virada estética dos anos 2000; além das mostras Vertentes, Panorama, Formação, Foco, Território Mineiro e sessões especiais.
“Soberania Imaginativa” como eixo curatorial
O tema que atravessa toda a programação da 29ª Mostra é “Soberania Imaginativa”, conceito que orienta filmes, debates e atividades formativas. Para Francis Vogner dos Reis, a proposta dialoga com o momento histórico do país. Ele afirma que “a soberania não diz respeito apenas à política ou à economia, mas também à capacidade de imaginar, criar e sustentar projetos próprios no campo simbólico e cultural”, afirma o curador.

A temática propõe uma leitura do cinema brasileiro das últimas duas décadas, destacando processos coletivos, redes de criação e dinâmicas que possibilitaram o surgimento de um cinema diverso, arriscado e inventivo, em constante reconfiguração.
Homenagem à Karine Teles
A homenagem desta edição é dedicada à atriz, roteirista e diretora Karine Teles, figura central do cinema brasileiro contemporâneo. Com uma carreira marcada pelo trânsito entre o cinema independente e produções de grande alcance, Karine construiu uma trajetória que articula invenção estética e diálogo com o público.
Aos 47 anos, ela soma trabalhos emblemáticos com a produtora mineira Filmes de Plástico, como No Coração do Mundo (2019), além de participações em filmes de repercussão internacional, como Que Horas Ela Volta? (2015) e Bacurau (2019). A relação dela com a mostra é antiga: Riscado (2010), filme que impulsionou sua carreira, foi exibido na edição de 2011 do festival.

Arte, infância e participação do público
A cidade de Tiradentes também será ocupada por exposições, performances, cortejos, lançamentos de livros e shows musicais, com apresentações de artistas como Luiza Lian, Nath Rodrigues e DJ Cabra Guaraná. A programação contempla ainda a Mostrinha, dedicada ao público infantil, e a mostra participativa #EuFaçoaMostra, com vídeos de um minuto produzidos pela comunidade.
Parte da programação estará disponível online, na plataforma oficial da Mostra e no Itaú Cultural Play, ampliando o acesso do público em todo o país.
Premiação e fortalecimento do cinema nacional
Em parceria com a Embratur, a Mostra inaugura dois novos prêmios de R$ 20 mil, destinados aos melhores longas das mostras competitivas Aurora e Olhos Livres, reforçando o incentivo à experimentação, à diversidade de linguagens e à renovação do audiovisual brasileiro.
Com quase três décadas de história, a Mostra de Cinema de Tiradentes mantém-se como um espaço central de formação, lançamento e debate do cinema nacional, reafirmando em 2026 seu compromisso com a invenção, a pluralidade e a soberania da imaginação brasileira.



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