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Quando o mundo desaba e é preciso recomeçar

  • Foto do escritor: Revista Curió
    Revista Curió
  • 30 de jan.
  • 4 min de leitura

Exibido em sessão ao ar livre na Mostra Praça, longa de Miguel Falabella e Hsu Chien utiliza de metáforas para refletir sobre afetos e novos começo


Por Lara Gomes e Laura Torres

Última atualização: 29/01/2026


Leo Lara/Universo Produção
Leo Lara/Universo Produção

Dirigido por Miguel Falabella em coautoria com Hsu Chien e com roteiro da peça teatral homônima assinada por Falabella e Maria Carmem Barbosa, Querido Mundo (2025) constrói sua narrativa ao redor de duas pessoas sem perspectivas. Elsa, interpretada por Malu Galli, é uma mulher frustrada por estar presa em um casamento abusivo, enquanto Oswaldo, vivido por Eduardo Moscovis, carrega o peso de uma existência que não corresponde às expectativas que um dia teve.


Por meio de uma narrativa que intercala momentos de tensão e de alívio cômico, o longa articula drama e comédia para transformar uma situação extrema em espaço de troca de vivências. Além da dupla central, o filme também conta com a presença de Marcello Novaes e Danielle Winits, que ajudam a dimensionar o contexto emocional de onde esses personagens partem.


Leo Lara/Universo Produção
Leo Lara/Universo Produção

Essa criação surge de encontros sucessivos: primeiro, no gesto de imaginar uma história no texto teatral; depois, na travessia para o cinema, quando esse imaginário se amplia e ganha novas camadas; e, por fim, na própria narrativa. Ao assumir a autoria como um território compartilhado, o filme se aproxima do debate proposto pela 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, com tema “Soberania Imaginativa”, ao afirmar a imaginação como prática coletiva, construída na troca. Não por acaso, a narrativa se organiza em torno do encontro entre Elsa e Oswaldo, sustentado pelo diálogo e pela escuta, fazendo da colaboração não apenas um método de produção, mas o eixo dramático que move o filme.


A escolha de abrir a Mostra Praça com o longa dialoga com a proposta da sessão: reunir obras de diferentes gêneros da ficção que convidam o público a viver o cinema como experiência coletiva, em espaço aberto, sem abrir mão das nuances e complexidades da linguagem cinematográfica. Como destacou Miguel durante o debate em Tiradentes, o longa é um filme “claustrofóbico”, passado, em sua maioria, dentro de um espaço fechado. Projetá-lo na praça da cidade, sob o céu estrelado, produz um simbolismo que o diretor exaltou como um gesto quase poético.


Leo Lara/Universo Produção
Leo Lara/Universo Produção

Presos entre concreto e muita poeira, os personagens são obrigados a encarar os escombros de suas vidas. O prédio abandonado, cenário de maior parte do enredo e fruto do desafio técnico da direção de arte de Tule Peake, ABC, funciona como uma analogia para projetos que não se concretizaram e relações que perderam a sustentação. Ao mesmo tempo, como sugere a metáfora da cama elástica referenciada na narrativa, é também desse fundo que pode vir o impulso para saltar de novo


A fim de simbolizar a tensão vivida pelas personagens do longa, são definidas escolhas estéticas que ampliam o sentido de urgência e confinamento que atravessa a trama. Os diretores assumem o risco à recepção do público ao produzir um filme em preto e branco, decisão que reforça o caráter claustrofóbico da história e dialoga diretamente com a origem teatral da obra. A fotografia, assinada por Gustavo Hadba, ABC, é um dos pilares dessa proposta e contribui decisivamente para a atmosfera da narrativa. Ao eliminar a cor, Hadba intensifica a sensação de confinamento e desgaste emocional, transformando luz e sombra em elementos dramáticos.


“Nunca foi possível enxergar cor nesse filme”, afirma Miguel Falabella, confirmando a percepção presente na encenação nos palcos, marcada por cenário de tons sóbrios. No cinema, essa opção ganha força ao limitar o espaço visual, fazendo com que o espectador compartilhe da sensação de aprisionamento vivida pelos protagonistas.


Miguel Falabella dirige cena com Eduardo Moscovis no set de "Querido mundo" — Mariana Vianna / Divulgação
Miguel Falabella dirige cena com Eduardo Moscovis no set de "Querido mundo" — Mariana Vianna / Divulgação

Com muitas referências, o filme, que em sua maior parte, apresenta-se em janela reduzida, amplia o enquadramento no momento em que as personagens se permitem atravessar seus próprios limites. A expansão da tela evoca, por exemplo, Mommy (2014), de Xavier Dolan, onde o formato opera como tradução de estados emocionais. A escolha evidencia o repertório cinéfilo dos diretores, que mesclam referências do cinema contemporâneo e clássico de forma orgânica, colocando a linguagem a serviço da experiência afetiva proposta pelo filme. 


Se a forma do filme se organiza a partir de variações de enquadramento e referências cinéfilas, é no interior dessa estrutura que se desenha uma narrativa ancorada no encontro. Elsa e Oswaldo vivem a noite de Ano Novo carregando histórias de frustração e vínculos marcados por relações opressivas, ambos imersos na sensação de que suas trajetórias se estreitaram até não haver mais saída possível. O confinamento no prédio em ruínas os obriga a dividir o mesmo espaço, o mesmo tempo e, pouco a pouco, a mesma escuta.


Mariana Vianna/Divulgação
Mariana Vianna/Divulgação

Sem transformar o acaso em resolução fácil, o filme constrói essa aproximação como consequência direta do problema. É da experiência comum do esgotamento físico, afetivo e simbólico, que nasce a possibilidade de conexão entre os dois. Essa relação surge como resultado do enfrentamento da crise: presos a uma situação aparentemente sem futuro, eles passam a reconhecer no outro um desfecho possível.


Com estreia prevista para o final deste semestre, a obra chega às salas de cinema brasileiras propondo uma história em que o colapso se torna uma condição para imaginar novos começos. Por fim, o que se projeta não é apenas a história de dois personagens, mas o convite a enxergar novas perspectivas para o nosso querido mundo.

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