Mostra Autorias: diferentes processos, diversas cabeças e distintos resultados
- Revista Curió
- 28 de jan.
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A equipe da Curió assistiu aos cinco longas que compõem uma das exibições temáticas da 29º Mostra de Cinema de Tiradentes
Por: Gabriel Monteiro
Última atualização: 28/01/2026

Ao desafiarmos o significado usualmente atribuído àquilo que é “autoral”, como podemos enxergar e interpretar essa característica ao falar do coletivo? Esse é o principal questionamento que norteia a primeira mostra a ter todos seus filmes exibidos de forma inédita na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o conjunto Autorias.
Durante a apresentação das ideias por trás dessa edição do festival na manhã do dia 24, os curadores Francis Vogner e Lorenna Rocha destacaram uma percepção fundamental, adquirida durante o processo de curadoria recente - a crescente homogeneização criativa e imaginativa dentre várias das produções de todo o país. Porém, independentemente dos motivos que levaram a isso, a missão de lutar por uma soberania imaginativa os levou a buscar novas peças visando a excelência não mais do que a dismorfia, como forma de questionar os limites da produção audiovisual brasileira.
Os cinco longa metragens exibidos entre os dias 24 e 25 de janeiro foram produzidos por equipes de diferentes lugares do Brasil, incluindo as regiões Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, além de parcerias inter-estaduais que englobam diferentes gêneros de produção, desde drama ficcional a documentário experimental. A equipe da Revista Curió assistiu em primeira mão à pré-estreia nacional de todos eles para trazermos aqui nossas primeiras impressões e interpretações de como se relacionam com a temática central da mostra.
“Atravessa Minha Carne”
O documentário Atravessa Minha Carne (2025) ocasionalmente experimental da diretora e ex-bailarina Marcela Borela traz um estudo árduo das diferentes possibilidades no universo da filmagem de dança no cinema. Associado a seu passado neste meio, a cineasta desbrava o universo expressivo da performance com qualidade técnica eletrizante e captura os corpos de todos aqueles envolvidos no processo de construção, até o nascimento de um espetáculo criado pela companhia goiana Quasar.
Apesar de se abster da produção como personagem visível, as emoções e desejos de Marcela podem ser sentidos por todo o longa e são notáveis em conversa com a cineasta acima de qualquer outra coisa. Justamente, o que pode melhor ser extraído do longa é essa constante troca entre o coletivo e o individual, pois é o impacto daquela produção de múltiplos artistas que gera tantos gatilhos individuais a diretora, que por sua vez utiliza de seu repertório pessoal para decidir como enquadrar o trabalho deste coletivo.
“Estopim”
Dirigido e produzido por uma equipe inteiramente paraibana, o longa Estopim (2026) tem a construção conjunta como sua base fundamental, já que nasce do encontro dos projetos Coletivo Atuador e Instituto Cinema no Meio do Mundo, que sonharam e estruturaram este projeto em equipe do início ao fim. A história do filme nos apresenta uma ficção dramática de universo familiar extremamente crua e tipicamente brasileira. Durante a apresentação e discussão do filme no festival, a equipe esteve sempre reunida para relatar diretamente como a união de todos foi necessária para atingir essa atmosfera em cada etapa do projeto.
Graças a interpretação de um elenco já acostumado a contracenar regularmente e unidos por encontros semanais na cidade de João Pessoa, a dinâmica do longa entrega um nível magnético de química e equilíbrio entre as personagens. Essa união louvável de aspecto teatral é a peça fundamental para amarrar todos os inúmeros exercícios que o diretor Tiago Neves se propõe a fazer, como a divisão da história em uma série de sete planos sequências capitulares, que fazem com que o público sinta que está sendo apresentado aos personagens em uma série de crônicas e podendo entre elas experimentar outros recursos sem perder o interesse do espectador, a coesão narrativa ou o poder de seus diálogos mais intensos.

“Uma Baleia pode ser Dilacerada como Uma Escola de Samba”
Apesar dos cinco filmes dessa mostra apresentarem diferentes níveis de experimentação, Uma Baleia Pode ser Dilacerada como Uma Escola de Samba (2025), filme de Marina Meliande e Felipe Bragança, se destaca ao mergulhar sem medo na magia do surrealismo. A rica cenografia construída juntamente de múltiplos artistas plásticos; o figurino e caracterização exuberantes de seus personagens e a sonorização impactante, acompanhada de uma extensa trilha sonora de samba enredo composta especialmente para o projeto, são alguns dos vários aspectos multidisciplinares que demonstram o nível de atenção coletiva dada a criação do universo desse filme.
A saga do jovem Arrábi, interpretado por Ítalo Martins, ao dar fim a escola de samba herdada de seu pai, não apenas dá vida ao imaginário místico carioca que une a arte à espiritualidade, mas também expande suas possibilidades para o plano da tragédia, reconhecendo o poder e alcance do Carnaval para além da folia.
“Aurora”
Ao apresentar o filme para o festival, o diretor e também protagonista de Aurora (2025), João Vieira Torres, questiona “por que temos tanto medo de fantasmas?”. A resposta é dada através da construção de seu filme: “porque quando eles aparecem para nós, geralmente estamos sozinhos”. A jornada documentada em Aurora começa com João, mas vai muito além disso, já que conforme investiga a história esquecida de sua família, ele se entende cada vez mais como apenas uma das peças em um grande quebra-cabeça de traumas geracionais.
Nesse documentário, o autor decide ir atrás de saber mais sobre as gerações anteriores de sua família após experiências espirituais que vivencia através de sonhos, sonhos com sua mãe, suas tias e com sua falecida avó, Aurora. Ao dramatizar e se abrir ao máximo para o processo de investigação realizado, o aspecto documental cresce e transforma aqueles entrevistados em ricos personagens de uma trama que necessita de suas próprias vidas para tomar forma e assim, toma lindamente.
“Antes do Nome”
Em uma atmosfera que já vem desde o título, o longa Antes do Nome (2026), de Luiz Pretti, olha para a origem do lugar onde estamos hoje e opta por fazer mais perguntas do que trazer respostas. A apresentação às vezes abstrata e constantemente experimental do longa é guiada por uma narração questionadora, que atravessa uma espécie raciocínio reflexivo, junto de imagens que primeiro estabelecem o labirinto urbano em que o cidadão médio brasileiro está inserido, para depois retroceder à natureza, onde um sentimento mais primal reside.
Com diferentes gestos, cenários, pequenas performances e silêncios, a mescla de montagens do filme apesar de imprevisível, segue um ritmo que mantém o público na conversa e jamais o aliena da figura central da narrativa, a humanidade. Mesmo quando parece se afastar de algo concreto em busca de ainda mais questionamentos, o autor faz questão de ouvir o outro, de inserir a voz e a imagem das pessoas para que essa jornada seja construída de forma coletiva.

Conclusão
No processo de pensar cinema, o mito da autoralidade como aspecto individual por parte do diretor acaba por ignorar uma imensidão de informações e aspectos essenciais para a existência de uma obra. A influência mútua entre diretor e quem ele observa; o sistema e realidade comum em que ele e toda sua equipe estão inseridos; as múltiplas vivências que formam um imaginário coletivo; o poder incontrolável da soma de individualidades e os questionamentos compartilhados sem resposta única ou clara, são alguns fatores demonstrados pelos filmes da Mostra Autorias que nos ajudam a entender algo simples: um filme não existe sozinho.
Alimentando o debate proposto durante a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, é importante destacar que vivemos em uma realidade de disputa pela soberania, seja ela econômica, política ou cultural e quando falamos da arte e do cinema, a soberania imaginativa. Para que o cinema brasileiro possa estabelecer o direito de existir sob suas próprias regras, é necessário enxergar o que vem da nossa arte como um produto nacional, coletivo e que nasce da capacidade de construir pluralmente e ao mesmo tempo nos enxergar como parte do mesmo imaginário único no mundo.



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