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80 anos de Beth Carvalho: como dimensionar o legado da madrinha do samba

  • Foto do escritor: Revista Curió
    Revista Curió
  • há 13 horas
  • 5 min de leitura

‘Enamorada do Samba’ contribuiu para revelar uma série de sambistas, mas quantos ajudam a manter sua história viva?


Por: Gustavo Monteiro

Última atualização: 05/05/2026


Foto: Lionel Flusin/Gamma-Rapho/Getty Images
Foto: Lionel Flusin/Gamma-Rapho/Getty Images

Nesta terça-feira (5) a madrinha do samba, Elisabeth Santos Leal de Carvalho (ou simplesmente Beth Carvalho, para seus amadrinhados) completaria 80 anos de voz imponente e cabelos ruivos volumosos que se tornaram marca registrada de uma das maiores artistas a pisar em solo brasileiro.


Seu canto icônico foi responsável por consagrar uma série de sambistas e embalar clássicos como Andança, Vou Festejar e Água de Chuva no Mar. O título de madrinha não é à toa: Beth sempre buscou homenagear e dar espaço a uma série de compositores, como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Jorge Aragão. 


Por volta de seus 18 anos, em 1964, a artista viu o pai, que tinha ideais fortemente ligados a movimentos de esquerda, ser preso no início da ditadura militar e não deixou a militância distante de seu samba marcado por ativismo.


A revolução proposta por Beth Carvalho está ancorada no subúrbio carioca e nos movimentados sambas do Cacique de Ramos, onde nasceu o Fundo de Quintal, maior grupo da história do gênero e responsável por trazer o banjo, com seu som metálico, e o tantã, fundamental para marcação do ritmo sem tirar o destaque de outras melodias como o cavaquinho e o violão.


Foto: Marcos Hermes/Divulgação
Foto: Marcos Hermes/Divulgação

Almir Guineto, Sombrinha, Sereno, Neoci, Jorge Aragão, Ubirany, Arlindo Cruz e diversos  outros artistas fizeram parte do grupo cujo nome virou expressão idiomática. Do fundo deste quintal vieram alguns dos maiores clássicos do samba como Nosso Grito, Amor dos Deuses e o hino O Show Tem que Continuar.


Além da importância para o samba de roda, a mangueirense também foi um ícone para sua escola, a Mangueira, que prestou múltiplas homenagens à madrinha durante sua vida, apesar dos constantes embates entre Beth e a cúpula da agremiação.


Em 2007, a artista foi expulsa do carro alegórico que carregava os baluartes da Estação Primeira e, aos prantos, deixou o sambódromo da Sapucaí. À época, o presidente da escola afirmou que só teria espaço para ela desfilar no chão, entretanto, segundo a cantora, ela só pediu para sair em um carro por conta de problemas na coluna. Em 2006, ela figurou na mesma alegoria desejada, com representantes históricos mangueirenses.


Beth foi responsável, ainda na adolescência, por compor sambas-enredo em uma época em que apenas homens o faziam, período em que conheceu e se aproximou de Cartola e Nelson Cavaquinho.


As homenagens prestadas pela sambista, todavia, nunca foram retribuídas pela Mangueira, que nunca a tornou tema de algum dos seus enredos, como fizeram na Unidos do Cabuçu, campeã do grupo de acesso em 1984 ao falar da “enamorada do samba”, outro dos títulos de Beth, e a Alegria da Zona Sul, em 2017.


Beth Carvalho e a maestria da arte


O breve resumo, que não concebe em 1% de sua carreira, serve para questionar: é possível dimensionar o tamanho do legado de Beth Carvalho para a música nacional?


Além de uma exímia cantora, Beth foi uma voz pulsante nos bastidores da música e contribuiu diretamente no surgimento de diversos artistas e movimentos não somente pelo Rio de Janeiro, mas por todo o país.


Foto: Washington Possato
Foto: Washington Possato

Em 1991, a madrinha esteve em solo paulistano para um show Sesc Pompéia, que logo seria transformado no álbum Beth Carvalho Canta o Samba de São Paulo, lançado em 1993 – o favorito de quem vos escreve, não nego –, no qual cantou sucessos locais com participações de artistas diversos como Osvaldinho da Cuíca e Eduardo Gudin. 


Em reportagem, a Folha de S. Paulo chamou o CD, que era vendido, em média, por seis mil cruzeiros, de um “troco em luva de pelica” em Vinicius de Moraes, que teria classificado a capital paulista como “túmulo do samba”. 


“Não acredito que ele tenha dito isso, mesmo porque é uma frase de mau gosto. São Paulo tem grandes sambistas e características próprias. É um samba mais urbano e disperso do que o do Rio. Os negros paulistanos de raiz trabalharam na roça e guardam características rurais”, disse Beth à Folha sobre a declaração. 


Sendo “irreverência” um substantivo feminino, ela é a Beth Carvalho em sua completude. Alguém que sempre se atreveu a ousar e é reverenciada em um ritmo majoritariamente masculino.


Apagamento histórico das mulheres no samba


Mesmo o samba tendo como sua matriarca e majestade a figura de Dona Ivone Lara, tivemos o embate na côrte entre contemporâneas que brilharam com Beth Carvalho: Clara Nunes e Alcione. A discussão não vale um parêntese para explicação, mas, apesar das trocas de farpas, a madrinha esteve presente na missa de despedida de Clara.


Após a partida das duas, o samba ficou cada vez mais carente de figuras femininas em destaque no cenário, ainda que seja este um ritmo mantido principalmente por mulheres negras, como foram a Tia Ciata, uma das possíveis fundadoras do ritmo, a  rainha Ivone e Clementina de Jesus. 


No período, ainda, não eram raros os sambas que retratavam agressões à mulheres, como de Zeca, amadrinhado, por Beth, que em Faixa Amarela disse que poderia “dar um castigo” em sua mulher, com uma “banda de frente; quebrar cinco dentes e quatro costelas” caso ela “vacilasse”. 


Foto: Dona Ivone Lara/Arquivo Pessoal
Foto: Dona Ivone Lara/Arquivo Pessoal

A presença de compositoras, por sua vez, trouxe clássicos como Zé do Caroço (1974), de Leci Brandão, ou a forma como a Agora Viu que me Perdeu e Chora, do Reinaldo, recebeu um “chora, vagabundo” como resposta para a letra que, inicialmente, buscava ressaltar o posicionamento do homem no fim de um relacionamento. 


Quando foi este o tema, inclusive, Beth disse “pode chorar, chora, não vou ligar. Chegou a hora, vais me pagar; vou festejar o teu sofrer, o teu penar”. A música, adotada também pela torcida atleticana em Minas Gerais, deixa claro o recado: “você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão”.


Qual o tamanho de Beth Carvalho para o samba?


Em retomada à pergunta inicial que moveu o desenvolvimento da presente prosa, em síntese, deve-se dizer que é impossível dimensionar o tamanho de Beth Carvalho para o samba, uma vez que é inestimável sua importância para a cultura do país como um todo. 


O erro da pergunta é conceitual e a possível resposta entra em raízes profundas do embate social no Brasil. A madrinha fez com que suas raízes chegassem de forma profunda no solo musical do país e gerou frutos que semearam fortemente na flora cultural.


O que deve se questionar, entretanto, é quanto desse legado é conservado no samba atual para auxiliar na manutenção da perpetuação de vozes femininas no gênero. Enquanto artistas como Beth Carvalho, Clara Nunes, Dona Yvonne Lara, entre outras tantas mencionadas, não tiverem o mesmo impacto midiático de artistas homens, não será possível aumentar a presença das mulheres na cena. É necessário pavimentar o caminho feito para facilitar a chegada de quem vem depois.


São 80 anos de Beth Carvalho e sete recém completados sem sua presença física, mas de um presente transcendental. Madrinha, por onde for, quero ser seu par.

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