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Bloco da AMANDONA! mostra que caminhoneira sofre na estrada, mas ama o que faz

  • Foto do escritor: Revista Curió
    Revista Curió
  • há 5 dias
  • 5 min de leitura

No domingo de Carnaval, cortejo trouxe a alegria sáfica para o meio da Avenida Brasil


Por: Ana Carolina Costa

Última Atualização: 03/03/2026


AMANDONA por @mariacheib
AMANDONA por @mariacheib

O Carnaval de Belo Horizonte é celebrado como um espaço de reinvenção coletiva e resistência. Numa cidade em que a festa é de rua, construída por trabalhadores, e por muito tempo negligenciada, há uma dificuldade enorme para colocar um bloco na rua. Foi com essa luta que, no início dos anos 2010, a folia em BH passou de festa para um meio de ocupação urbana. Em 2026, com 6,5 milhões de foliões e mais de 600 blocos, trios e cortejos, mais uma vez surgiu a oportunidade de colocar todo mundo na rua. 


Especialmente quando se trata de mulheres que amam mulheres, a presença na música popular e no mainstream brasileiro ainda tem muito apagamento e subtextos e é justamente nesse combate que se insere AMANDONA!, nome artístico de Amanda Diniz. Nascida em Governador Valadares e radicada na capital mineira desde os 18 anos, a cantora e compositora construiu sua trajetória em diálogo direto com os palcos independentes e o carnaval de rua belorizontino muito antes de lançar seus projetos autorais. Foram 15 anos de formação prática, entre bares, casas de show e festas populares. Amanda disse, em conversa com a Curió, que essa liberdade faz parte de sua essência, sem tirar nem pôr.  


Mulher lésbica e assumidamente “sapatão emocionada”, AMANDONA! faz da própria vivência matéria-prima para sua obra. “Minha escola é o boteco, eu toco um monte de coisa, tenho vários projetos, vontade de fazer acontecer e de levar o nome de BH e também o nome das mulheres que amam mulheres pelo mundo”, disse. “Minha carreira sempre foi pautada por uma boa entrega. Eu fazia um show, algumas pessoas se conectavam com aquilo e, a partir daí, novos convites surgiam. Durante muito tempo, a música ocupou um lugar de hobby, mas também de construção da minha autoestima enquanto mulher lésbica”.


Suas composições pautam amor, desejo, obsessão e relações entre mulheres. Além disso, a dimensão política nunca aparece dissociada das suas produções: AMANDONA! é direta, popular e bem-humorada, sem abrir mão da vulnerabilidade. Influenciada por artistas como Cássia Eller, Angela Ro Ro, Ana Carolina, Adriana Calcanhotto e Leci Brandão, a artista lançou, em 2025, seu primeiro álbum, Se Eu Pudesse Te Beijava Até a Voz, produzido por Luiza Brina e com participações de Letrux e Juliana Linhares. “Aqui em Belo Horizonte, lançar músicas autorais permite atingir novos públicos. A partir do momento em que você disponibiliza sua música nas plataformas, pessoas que nunca iriam ao seu show passam a te conhecer”, explicou.


No Carnaval, essa mesma força vem em escala urbana. Desde 2016, AMANDONA! integra como vocalista o bloco Abalô-Caxi, um dos maiores da cidade, que arrasta anualmente mais de 100 mil foliões. Em 2025, no entanto, a artista deu um passo decisivo ao colocar seu próprio projeto na rua: o Bloco da AMANDONA!, que estreou com o tema “Realeza Sáfica” e a premissa de subverter narrativas clássicas de feminilidade a partir do ponto de vista de mulheres lésbicas. Em seu primeiro desfile próprio, a artista encarnou a personagem Cindelésbica, ressignificando, com muito bom humor, as imagens tradicionalmente associadas ao universo das princesas: 


“O primeiro desfile do bloco nasceu da vontade de trazer um discurso mais disruptivo sobre o que a feminilidade pode representar dentro de um recorte LGBT+. A ideia era brincar com o universo das princesas e desconstruir esse imaginário”.


Agora, em 2026, o bloco retornou para sua segunda edição com o tema “Rainhas da Estrada”, conversando diretamente com as “sapatonas caminhoneiras”. AMANDONA! contou que a ideia para o tema veio de um projeto pessoal que ela apelidou de Frases de Caminhão. “Existe realmente uma estética muito específica para as coisas que são plotadas em caminhões, né? Umas frases de efeito… Eu já vi coisas apaixonadas, meio bregas, que eu acho que conversam com o Brasil e com esse conceito de sapatão caminhoneira. Pensei que seria legal para a gente pensar nisso e amarrar numa ideia”, explicou.  


“Eu quis brincar com esse conceito de sapatão sem fronteiras, essa coisa de quando a gente tá decidida. Nós, mulheres intensas e emocionadas, quando nos decidimos a respeito de uma coisa, não tem distância nem nada que separe. Não há limitação quando o assunto é amor. Então, eu pensei nesse lance de Rainhas da Estrada para falar sobre liberdade.”


O repertório do cortejo também acompanhou essa mudança, com referências da música de estrada, do brega e da MPB, além de releituras de nomes como Marina Lima e Preta Gil. O espaço construiu uma celebração e uma disputa simbólica. Em uma cidade cujo Carnaval cresce ano após ano, mas ainda oferece poucos espaços centrados em mulheres LBT+ — tanto como público quanto como trabalhadoras da cultura — o Bloco da AMANDONA! se sustenta simultaneamente como celebração e símbolo de resistência. 


Além do mais, o bloco ocupa a cidade com orgulho e o propósito de criar, acima de tudo, uma boa experiência. AMANDONA! falou que seu propósito desde o começo foi fazer com que as pessoas fizessem parte daquele momento:


“Para mim, o mais importante é a experiência. Quero que as pessoas saiam do bloco se sentindo seguras, confortáveis e conectadas com a mensagem que estamos construindo. Eu sinto que, de uma forma geral, o nosso carnaval é bem democrático. Se você quiser ir num bloco que não tem trio, tem como. Se você quiser ir num bloco enorme, e ainda encontrar um monte de gente, tem como… Você pode achar blocos LGBT+ friendly, blocos que o repertório vai desde o sertanejo até o pop, funk, e homenagens a artistas específicos”. 


Por muito tempo, ser mulher lésbica no Brasil exigiu silêncios e disfarces, mas o que AMANDONA! faz é o oposto: ela amplifica essas vozes. Ela se permite tocar no desejo, no exagero, no drama, e ri alto dos estereótipos sem muita frescura. No Carnaval, ainda mais, ela faz desse seu jeito de lutar pelo holofote uma vontade de todos nós. O que antes era um fim de tarde num karaokê do baixo centro vira um coro de centenas na Avenida Brasil, e o que nasce de uma vivência só dela acaba como um território nosso. 


Na conversa com a Curió, AMANDONA! contou que não nasceu em BH, mas que seu coração cresceu ainda mais quando se mudou para cá. No fim das contas, é isso que o Bloco da AMANDONA! propõe: uma mudança de eixo que faz crescer e se encontrar. O Carnaval de Belo Horizonte em 2026 deixou de ser só uma tradição festiva anual ao colocar o microfone na mão de quem está disposto a fazer acontecer. No momento em que essas vozes finalmente ocupam a avenida, não é só a festa que cresce, mas a gente também. É esse o crescimento que a cantora enxerga e almeja para seu futuro como artista independente e produtora cultural: 


“Quero que o Bloco da AMANDONA! se torne uma referência para a população LGBT+ em BH — não só musicalmente, mas também em termos de estrutura e vivência. Tenho cada vez mais uma noção de propósito em relação à minha carreira. Quando a arte encontra pessoas interessadas, existe um poder de cura nisso, e eu quero ser uma das pessoas que ajudam a promover essa conexão.”


No final, não é só sobre festa. É sobre se reconhecer e lembrar que ainda pode existir um jeito mais livre. No domingo de Carnaval, o Bloco da AMANDONA! fez isso: colocou o trio na rua e nós também.


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