O soul carioca no poder
- Revista Curió
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novos expoentes da black music dão novos contornos ao gênero
Por: Gabriel Vergueiro
Última Atualização: 27/03/2026

Em outubro de 1998, a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem de título “O soul brasileiro ainda respira”, que reuniu Cassiano, Cláudio Zoli, Hyldon e Sandra de Sá — nomes fundamentais para o soul e a black music no Brasil — para uma conversa sobre os rumos do gênero no cenário musical brasileiro. À época, falava-se do desgaste e ostracismo que o ritmo e os ídolos dele estavam enfrentando. Porém, o clima, embora revoltoso, não era de desesperança. Para o quarteto, a retomada da então diluída black music se daria de forma natural e coletiva, pois, segundo Zoli, “quando um vai, leva o outro”. Quase 30 anos depois, entre revivals e celebrações dessas grandes referências, o cenário da black music nacional se mostra prolífico com a presença de nomes que desenham novos contornos para o gênero, adicionando narrativas textuais, sonoras e estéticas com muito vigor e sensibilidade.
No Rio de Janeiro, alguns artistas destacam-se como expoentes de uma nova geração da soul music que concentra na cidade uma forte potência criativa. Em novembro do último ano, a cantora e compositora Ludom (antes Luciane Dom) apresentou seu segundo registro de estúdio, autointitulado, que combina o jazz, o hip-hop e a MPB em uma trama de vulnerabilidade e coragem. No disco, a artista usa de sua trajetória tanto no Brasil quanto no exterior como fio condutor para expor uma fragilidade de dentro para fora. Ludom fala de si e de suas aflições, mas as coloca muito conscientemente como parte de uma estrutura maior, trazendo a crítica social para o centro da obra.
O discurso dá o tom das vozes que compõem essa nova onda do soul carioca, com poesia afiada, que não se esquiva ao mesmo tempo em que consegue manter a leveza e o rebolado. É como se agora fosse cristalizado em palavras aquilo que as gerações anteriores expunham em prática. A black music é uma resistência em si e sua simples perpetuação já representava o discurso. Não que as letras envolvendo esses debates sejam algum tipo de novidade — muito pelo contrário. Contudo, os nomes surgentes da cena se mostram mais vocais e com certa urgência no que tange às críticas e comentários sociais, exercitando a expansão do gênero enquanto texto.
A sonoridade também não se atém à emulação de referências clássicas, propondo muito mais uma conversa com os elementos particulares e pertencentes ao contemporâneo. É interessante como Ludom entende o soul acima do ritmo, como um estilo, um movimento. Nesse sentido, une-se o pop, o R&B, as influências de funk, guitarras, groove, distorções eletrônicas… É um trabalho muito rico justamente por se permitir aprofundar além do que se conhece. É mostrar irreverência e identidade dentro de uma das músicas mais criativas e desabusadas do país; um álbum e uma artista que respiram a black music por dentro. E essa profusão de referências e ritmos em hora alguma faz do disco desconexo, muito pelo contrário. O som é deliciosamente amarrado pela produção coletiva assinada pela própria junto a Felipe Rodarte, Ilarindo, Rodrigo Ferrera e Theo Zagrae.
Essa coletividade casa muito bem com a música soul, já que, em seu cerne, é um gênero extremamente colaborativo. Os improvisos com os instrumentistas, as perguntas e respostas entre vocalista e coro… São muitas vozes envolvidas em uma única música. No disco, essa ideia aparece de uma outra maneira, com essa coletividade sendo apresentada na concepção e acabamento, além, claro, da colaboração com seus pares, como Bia Ferreira, Negralha — que aparecem no trabalho — e Soul de Brasileiro, trio da zona oeste do Rio que muito recentemente lançou música criada em songcamp que contou com a presença de Ludom — seguindo a toada do comentário de Claudio Zoli sobre um levar o outro.
Formado por Ge Vieira, José Junior e Negra Silva, o Soul de Brasileiro soma quase 10 anos de estrada, mas faz de seus últimos lançamentos um recomeço artístico. Minha Vibe nasceu a partir de um infeliz episódio de racismo sofrido pelo trio da Vila Kennedy. A chaga virou não apenas canção, mas obra audiovisual. Assinado pelo diretor PH Soares, o clipe propõe uma conexão estética e narrativa com o que foi apresentado no trabalho anterior, De Onde Eu Vim. No vídeo, os integrantes aparecem em meio à praia, revezando suas presenças com cenas do cotidiano. O contraste entre a suavidade do clipe, a força da canção e a revoltosa origem dialoga eficientemente com o discurso característico dessa geração da música soul carioca, em que a palavra se contunde em meio à leveza, mostrando a presença política que reside no swing.
Os nomes de Ludom e Soul de Brasileiro apontam o frescor do novo soul carioca alinhado a uma energia criativa que os colocam como alguns dos sons mais interessantes e fecundos sendo feitos na música contemporânea brasileira. Eles carregam uma ótima síntese do panorama da cena preta no Rio, no sentido de produtividade e vigor, e dão rostos aos movimentos de resistência da black music na cidade, como o histórico Baile Black Bom, nascido há 12 anos na Pedra do Sal como um símbolo de celebração e memória da cultura negra.
A exemplo do samba, os ritmos pretos periféricos no Brasil, de tempos em tempos, sofrem uma acusação de fim, antecedida por um forte enfraquecimento — premeditado ou não. O jornalista Nelson Motta publicou, ao final dos anos 2000, um texto chamado “O samba não morreu, ele está no poder”, contando da revitalização constante do gênero. O mesmo se aplica ao soul e à black music no Brasil. São ritmos eternos, imortais. E a comprovação está na onda de artistas que surgem e não param. O soul não morreu com Tim Maia — embora, na conversa mencionada no início do texto, Hyldon atribua a descontinuidade do movimento, de certa forma, ao Tim —, não parou no Cassiano, não tem seu último respiro na Farofa Carioca; ele segue em seus herdeiros, que criaram para a black music novos sons, narrativas e contextos. O soul no Rio segue na poesia groovada de Ludom, no frescor pop do Soul de Brasileiro ou na popularidade voraz d’Os Garotin. Ele segue, a todo vapor e no poder.



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