A utopia do funk
- Revista Curió
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Como a relação simbiótica entre o funk de Belo Horizonte e o funk do Espírito Santo propõe a descentralização do eixo Rio-São Paulo e cada vez mais remodela o funk brasileiro.
Por: Matheus José
Última Atualização: 11/02/2026

Água e óleo. É assim que o funk paulista e o funk carioca por muito tempo foram e continuam sendo vistos, como se entre eles existisse não apenas uma diferença estética, mas uma impossibilidade estrutural de diálogo. Apesar de não se misturarem, ou talvez justamente por isso, é evidente que o funk, independentemente de localidade ou característica (especialmente as mais novas), tem suas raízes fincadas no Rio de Janeiro. Foi ali que o gênero não apenas surgiu como estilo musical, mas se consolidou como expressão direta de inúmeras transformações sociais que atravessam o Brasil ao longo dos séculos: da urbanização desigual à reorganização violenta do espaço periférico.
E, não apenas por essa tensão histórica entre polos, mas sobretudo pelo alcance e pela força de difusão ao longo da década de 2000, o gênero permaneceu, por muito tempo, atrelado unicamente ao eixo RJ-SP. Contribuíram decisivamente para isso os compilados já icônicos da Furacão 2000 e de Daniel Haaksman, como Rio Baile Funk Favela Booty Beats (2004), que ajudaram a fixar essa geografia simbólica, como se sua existência sonora estivesse confinada a esse corredor.
Embora esse quadro viesse sendo lentamente deslocado desde a década de 2010, quando surgiram fenômenos como o Brega Funk, é bastante recente a expansão efetiva do estilo para todo o território brasileiro e, posteriormente, para o mundo. Por isso que o gênero vem, através deste processo, rompendo fronteiras, inclusive mercadológicas, que antes pareciam intransponíveis.
A popularização de softwares de produção como Ableton e FL Studio, aliada à cultura DIY que dominou o mundo durante a pandemia de COVID-19, operou como um verdadeiro curto-circuito nesse sistema. O funk passou a ser criado e recriado nos quatro cantos do Brasil, fora dos grandes estúdios, longe dos eixos tradicionais de legitimação, em quartos improvisados, computadores domésticos e equipamentos de som precários. A partir daí, diversas vertentes começaram a surgir, não como ramificações de um tronco central, mas como mundos e espaços próprios, com lógicas internas, esquemas específicos e estruturas estéticas singulares.
É nesse cenário que se insere uma das vertentes mais instigantes desse processo: o funk de BH. Enquanto estilo, ele não surge como uma invenção recente, já que seus traços ecoam pelas periferias de Minas Gerais há muitos anos. De certa forma, esse funk assumiu (em tom de novidade) as características que tem hoje através de uma transformação lenta e contínua, que expande suas marcas essencialmente a partir das novas dinâmicas de produção e circulação intensificadas desde meados da segunda metade da década de 2010.
O sucesso comercial, em escala nacional, de faixas como “Viciei Nessa Garota”, de MC Dennin, e “Parado no Bailão”, de MC L da Vinte e MC Gury, não apenas projetou artistas e o funk de BH, mas chamou a atenção do Brasil para um novo espécime de funk: mais lento, mais grave e, sobretudo, mais intenso. Seus beats parecem se arrastar junto às acapellas dos MCs, instaurando uma atmosfera rarefeita, quase claustrofóbica, marcada por um minimalismo que dispensa tanto os tambores acelerados do Rio de Janeiro quanto o tuim agudo e insistente de São Paulo. Esse deslocamento rítmico e sensorial, considerando que o funk de BH “bate” de forma diferente dos outros funks, foi o começo de um processo que viria se aprofundar ao longo da década de 2020.
A partir daí, o funk de BH passou a estreitar ainda mais seus laços estéticos com o minimalismo, termo que, em um primeiro momento, servia quase como acusação, uma forma de apontar aquilo que faltava ao estilo em relação ao funk produzido em outras regiões do Brasil. Com o tempo, no entanto, essa ausência – a recusa a um ritmo mais rápido e barulhento – foi convertida em linguagem, estética.
O estilo passou a avançar em torno dessas lacunas, como se quanto mais simples, mais despido e mais distante dos outros se tornasse, mais potente e singular ele fosse. A ausência deixa de ser uma limitação e se torna força estética. E, enquanto o “bruxaria” surgia em São Paulo, incrementando elementos de horror como a risada do palhaço e referências da cultura popular, o minimalismo de BH começou a se refugiar em sua própria busca por esses elementos.
Sob a lente de produtores como DJ Anderson do Paraíso e DJ Ws da Igrejinha, interessados em expandir os limites do funk sem perder o apelo popular, o gênero passa a assumir contornos góticos, não no sentido estético clássico, mas como atmosfera. Uivos de lobos, sinos de igrejas, gritos, acapellas quase sussurradas compõe um imaginário sonoro que parecia, até então, distante da sua base criativa. A principal característica estava, enfim, definida.
Se o funk de BH encontrou no minimalismo e no gótico uma forma de radicalizar a ausência e produzir algo genuinamente próprio, o funk do Espírito Santo percorreu um caminho análogo, embora partindo de outro território simbólico e social. Nas cidades litorâneas, o ócio e a curtição operam como forças estruturantes da experiência cotidiana, atravessando também a forma como o funk é produzido e percebido pelas pessoas que vivem ali, seu meio demográfico. Não por acaso, o estilo de vida exposto nessas músicas constrói uma atmosfera distinta daquela que se observa nas grandes cidades, deslocando imaginários, relações e modos de escuta.
Em Vila Velha, município da Região Metropolitana da Grande Vitória, esse território se manifesta de forma quase literal no Convento da Penha, construção histórica erguida no alto de um penhasco de 154 metros de altura. É desse imaginário, suspenso entre o sagrado, o isolamento, o litoral e a contemplação, que emerge o principal nome do funk capixaba: DJ KN DE VILA VELHA. É ele quem popularizou o chamado beat fino, um estilo de beat que se conecta diretamente ao funk de BH por partir do minimalismo, ao mesmo tempo em que incorpora fórmulas contemporâneas do funk carioca, resultando numa redução ainda mais aguda e repetitiva do beat “serie gold”.
Essa síntese alcança sua forma mais acabada em Terra do Kn, Vol. 2, lançado no ano passado pela TDK Rec e tratado aqui como o magnum opus (obra-prima, em latim) de DJ KN. No disco, KN explora o beat fino enquanto constrói uma relação simbiótica com o funk de BH, como se existisse, entre os dois estados e os dois estilos – ambos afastados do eixo RJ-SP tanto em termos estéticos quanto temáticos – uma proximidade quase intergeracional, que os empurra, mutuamente, para fora desse centro demarcado no Sudeste.
Composto por 15 músicas, todas adornadas por convidados que dão robustez às ideias de KN, Terra do Kn, Vol. 2, como o próprio nome sugere, funciona como uma continuação direta do disco anterior do DJ, disponível no SoundCloud. Aqui, ele expande tudo aquilo que havia testado inicialmente, e o faz com a disposição de quem busca se estabelecer de uma vez por todas. Por isso, é preciso dizer que o álbum funciona sobretudo como um disco-manifesto do beat fino e do funk capixaba: uma obra sobre a sua terra. As faixas contam com MCs de diferentes regiões, que cantam em ritmos e flows característicos de suas localidades. É o caso de MC PR, mc do Rio de Janeiro, que parece desafiar as próprias raízes em “Cavalona”, faixa que surge com violinos e um clima ameno e espantoso, aludindo aos funks de BH, ainda que atravessado pelo beat fino, e parecendo comportar sinais de BH, ES e o RJ (afinal é impossível fugir dele) em seus pouco mais de dois minutos de duração. Essa fusão é bastante característica do trabalho de KN, que respeita o funk, compreende a sua história e a partir disso constrói algo próprio. Trata-se de um trabalho de relações, que considera a atuação da TDK Records, produtora que está ao lado de diferentes artistas do funk do Espírito Santo e que também marca presença em Belo Horizonte. Ou seja, há aqui uma união de forças que passa, substancialmente, pelo crivo da formalidade.
E essa relação é tão bem costurada, que faixas como “Essa Daqui Ninguém Lançou” e “Motelzinho 2” parecem suspensas em um éter próprio de funk de BH e, ao mesmo tempo, funk do ES, composto por beats sombrios, batidas limpas e, ao mesmo tempo, agressivas e repetitivas, sustentadas por timbres eletrônicos que, paradoxalmente, soam universais dentro do próprio universo do funk. E, ainda que essa troca gere, quase por osmose, sons que ultrapassam fronteiras interestaduais e suprarregionais, DJ KN DE VILA VELHA insiste em afirmar características locais do seu funk. É justamente aí que o beat fino opera como uma espécie de âncora simbólica entre dois mundos: Minas Gerais e Espírito Santo.
Não por acaso, o principal colaborador de KN é DJ Ws da Igrejinha. É como se os nomes centrais dessas duas cenas, em seus respectivos estados, se encontrassem reiteradamente para consolidar essa aliança cultural e estética. Em “Vem no Vapo Vapo”, por exemplo, temos uma faixa quase arquetípica do funk de BH, com uivos de lobisomem e uma clave dura, minimalista, mas atrelada à pura produção capixaba, rápida, com beat marcado e fino.
Participações como a de MC Pedrin do Engenha, MC que constantemente trabalha com DJs de BH (Os Gêmeos da Putaria e GORDÃO DO PC, entre outros) e do ES, em faixas como “Deixa Rolar” e “Vai Rolar o Baile no Morro”, explicitam ainda mais essa fusão entre BH e ES, como se não fosse possível rastrear a origem da música e de sua estrutura. A fluidez e a organicidade com que esses elementos se misturam chegam a soar improváveis. É difícil imaginar que algo semelhante pudesse ocorrer entre os funks de SP e RJ, ou, talvez, entre quaisquer outros no Brasil.
Um dos momentos mais emblemáticos dessa relação, revelando a existência de uma cena alternativa formada pela união desses dois funks, é a faixa “Mtg Toma Na Pussy”, que ainda reúne MC Gw, MC Marlon PH, MC Magrinho e MC Bob Anne. Trata-se de um MTG típico do percurso que Ws vem desenvolvendo desde Caça Fantasma, Vol. 1 (2023), um dos marcos recentes do funk de BH, mas atravessado pela assinatura inconfundível de KN, numa estrutura que flerta com a interpolação de “Low”, de Flo Rida com T-Pain. O resultado é paradoxal nesses dois espaços: extremamente pop, mas saturado de um hedonismo que só o funk comporta, filtrado pela produção de KN e pelos elementos sombrios do funk de BH.
É a utopia do funk.