A imaginação como território político
- Revista Curió
- 25 de jan.
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A 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes propõe a Soberania Imaginativa como fio condutor do debate sobre o cinema brasileiro
Por: João Henrique Nascimento, Lara Gomes e Laura Torres
Última atualização: 25/01/2026

A 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que começou na última sexta-feira (23), e segue até 31 de janeiro, reafirma sua vocação como espaço de reflexão crítica sobre o cinema brasileiro e as formas hegemônicas de produção audiovisual. Com o intuito de construir um debate que relaciona e elabora perspectivas a partir do tempo histórico contemporâneo, o tema geral da seleção de filmes neste ano é inspirado no conceito de “Soberania Imaginativa”.
Presente nos textos de divulgação como um chamado à retomada da imaginação como território político, estético e sensível, o termo assume a defesa da autonomia do gesto criativo, assim como a possibilidade de novos modos do fazer audiovisual que apostam em práticas coletivas e espaços de troca, propondo outras formas de produção de sentido.
Francis Vogner dos Reis, coordenador curatorial da Mostra, ressalta que “há vários cinemas dentro do Brasil”, tendo em vista que o país é formado por um conjunto de territórios homogêneos, e, ao mesmo tempo, diversos e fragmentados.
Neste sábado (24), durante a abertura dos fóruns de debate que integram a programação do evento, Francis estabeleceu um paralelo entre a escolha dos títulos a serem exibidos com o “pensamento arquipélago” – conceito cunhado por Édouard Glissant sobre a forma de entender o mundo como um conjunto diverso e relacional. Além disso, o curador defendeu que pensar uma soberania imaginativa é um exercício incerto e subjetivo, ainda que as práticas, como filmes e símbolos, sejam concretos.

Apesar da fragmentação cultural citada no debate, foram encontradas semelhanças de conteúdo e de forma em obras de diferentes regiões do Brasil após a análise dos mais de 1400 filmes inscritos regularmente. Assim, entende-se o modo como essas produções contribuíram para o processo de desenvolvimento do que seria a temática geral e o fio conceitual da edição.
A partir dessa perspectiva curatorial, para Vogner, as imagens são figuras fundamentais nessa disputa ideológica e, por conta da internet, o acesso não é mais uma questão - mas a visibilidade fornecida a elas é. E é pensando na imagem como elemento central da disputa de ideias que a Mostra organiza um recorte sobre soberania imaginativa.
Metalinguagem do fazer cinematográfico
Para dar início à programação e ilustrar o pensamento proposto pelos curadores, o curta-metragem O Fantasma da Ópera (2026) foi o escolhido para a sessão de abertura da Mostra. O documentário experimental dirigido por Júlio Bressane destaca a metalinguagem cinematográfica a partir da visão em terceira pessoa do próprio diretor, que ora se veste de fantasma, ora incorpora o protagonista do longa inédito estrelado por Paulo Betti e dirigido também por Bressane, Pitico (1970), ainda em atividade.

Filmada em preto e branco, a produção trata do fazer cinema a partir do mesmo modus operandi da obra original de Leroux do início do século XX, em que o fantasma Erik habitava os vãos e corredores ocultos da Ópera de Paris, influenciando o espetáculo sem ser plenamente visto. Em paralelo, Bressane revisita esse conceito por meio da representação da técnica, do erro, da montagem e das etapas de fazer uma produção cinematográfica. Aqui, o cinema fica escondido para o espectador comum, mas influencia na sustentação do produto final.
Por meio de cenas do making of, a narrativa propõe uma reflexão sobre o fato de que o imaginar não pertence exclusivamente ao diretor, e, portanto, embora seja soberano, é também um processo que envolve diversos agentes. A escolha deste título para a abertura direciona os debates que virão ao longo dos dias da Mostra, amplamente pautados no paradoxo deste imaginário que é tanto individual quanto coletivo.
O percurso de Karine Teles
A mesma noção de soberania atravessa, de outra maneira, as falas de Karine Teles, homenageada desta edição. A atriz, roteirista e diretora falou sobre as próprias experiências e a noção de autoria e trabalho coletivo. Ao refletir sobre o trabalho do ator, Karine desloca a ideia de controle absoluto para um campo de abertura e risco. Para ela, “a disponibilidade de se colocar vulnerável, que eu acho que é o trabalho do ator, de se colocar à disposição, a favor de uma conversa e uma interação, é o principal”.

A fala ecoa o espírito da Mostra ao sugerir que a criação nasce menos da imposição de uma vontade individual e mais da escuta, da troca e da entrega ao encontro. Em outro momento, a atriz aprofundou a reflexão sobre essa ética relacional, ao falar sobre confiança no audiovisual: “quando você está sendo filmado e fotografado, você se torna objeto com certa autoria porque é o seu corpo, então o que você faz e fala, a sua energia, está contribuindo com o que está sendo dito”, avaliou.
Para Karine, cada obra é fruto de uma rede de confiança em que a imaginação se comporta como ferramenta. Assim como no cinema de Bressane, o sentido de autoria não é fixo. “Posso fazer a mesma coisa na cena, mas, se cinco pessoas diferentes filmarem, podem surgir coisas distintas. Eu sinto que sou um ingrediente em um caldeirão, que uma hora vai ser a pimenta, outra hora o frango… como um elemento na confusão. No audiovisual, tem que ter essa confiança em quem está te filmando, fotografando ou contracenando com você”, completa a homenageada.
Entre a metalinguagem de Júlio Bressane e a ética da escuta defendida por Karine Teles, a 29ª Mostra de Tiradentes constrói um campo de disputa atravessado por encontros de múltiplas vozes. Ao colocar o próprio fazer cinematográfico em evidência, a Mostra reafirma o cinema como prática coletiva, política e sensível.



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