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Entre o acesso e a repetição: os desafios enfrentados pela Campanha de Popularização

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    Revista Curió
  • há 4 dias
  • 6 min de leitura

Baratear ingressos ampliou o público, mas a permanência dos mesmos formatos levanta dúvidas sobre renovação e diversidade nos palcos.


Por: Felipe Tristão

Última atualização: 02/02/2026



“Alfredo virou a mão” é um dos espetáculos em cartaz da 51ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança – Divulgação
“Alfredo virou a mão” é um dos espetáculos em cartaz da 51ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança – Divulgação

Até o dia 8 de fevereiro, Belo Horizonte recebe a 51ª Campanha de Popularização Teatro & Dança, um dos eventos culturais mais longevos e relevantes do Brasil. O movimento cultural, que surgiu em 1975, começou com ingressos sendo vendidos dentro de uma Kombi e com poucos espetáculos em cartaz, hoje consegue movimentar mais de 220 espetáculos entre a capital mineira e Betim.


Com o intuito de promover, ampliar e aumentar o acesso do público nas salas dos pequenos e grandes teatros a campanha ultrapassa meia década de existência, e a pergunta que fica é: será que esta iniciativa realmente continua sendo um espaço democrático e mais amplo a cada ano?


Entre a ambiguidade do acesso e a permanência


A noção de acesso – pilar fundamental da campanha durante toda sua existência – historicamente se sustenta na redução do preço dos ingressos. Sem dúvida, essa estratégia ampliou o alcance do teatro e da dança ao longo das décadas. No entanto, para quem observa a campanha há um tempo, surge o questionamento: até que ponto o acesso econômico, isoladamente, dá conta das múltiplas barreiras que afastam parte significativa da população dos espaços culturais? De que maneira o modelo atual do evento se moderniza em relação aos acontecimentos e demandas da cidade/população? Como se atualizar e equilibrar a curadoria de maneira a manter o compromisso com a pluralidade nas estéticas e grupos participantes?


Um dos principais desafios enfrentados pela Campanha de Popularização é o de criar vínculos mais duradouros e fortalecidos entre o público, artistas e espaços culturais. Cassio Pinheiro, presidente em exercício do Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais (Sinparc-MG) falou sobre o compromisso de pluralidade nas estéticas e grupos que participam da campanha ao longo dos anos.


Para ele, “A Campanha não opera a partir de um modelo tradicional de curadoria. O Sinparc atua como articulador e incentivador da participação dos produtores e grupos, o que resulta, naturalmente, em uma programação diversa. Essa ausência de curadoria fechada é justamente o que garante a pluralidade de estéticas, linguagens, formatos e temas. Ao final, quem faz a escolha é o público, que constrói sua própria trajetória dentro da Campanha, reafirmando o caráter democrático e aberto do evento”.


“Meu tio é tia” é um dos espetáculos em cartaz da 51ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança – Divulgação
“Meu tio é tia” é um dos espetáculos em cartaz da 51ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança – Divulgação

Ao assumir a ausência de uma curadoria fechada, a campanha acaba caindo em um catálogo quase sempre igual de espetáculos – ponto frágil, perceptível e passível de discussão – afinal, sob uma ótica de pluralidade, inovação de estéticas e formatos, o que se vê é um mecanismo que pouco estimula, verdadeiramente, uma renovação estética e a diversidade de grupos.


A ideia de uma abertura e de um agente articulador/incentivador, quando não acompanhada de pelo menos uma mediação crítica, não garante diversidade – ao contrário, talvez fortaleça alguns privilégios já consolidados. Nessa linha de raciocínio, grupos que ou detém um catálogo maior ou dominam a lógica de divulgação e venda se perpetuam, enquanto propostas mais experimentais, coletivos emergentes ou artistas recém inseridos no mercado profissional seguem disputando espaço em condições desiguais. Assim, o que deveria ser um espaço de diferentes linguagens e públicos transforma-se em um circuito previsível, confortável e pouco provocador.


Para além disso, enquanto consequência, esse movimento acaba cristalizando também os hábitos de consumo do público – principalmente daqueles que não frequentam teatro ao longo do ano. O público já acostumado a reconhecer os títulos, os formatos semelhantes e nomes recorrentes, é levado a escolher o que já conhece, reforçando um ciclo e transformando a novidade em exceção.


Sem qualquer tipo de critério na pluralidade, a campanha acaba repetindo a mesma fórmula: mesmos espetáculos, mesmos grupos e mesmos produtores ocupando os teatros ao longo dos meses de janeiro e fevereiro. Nesse processo, deixa-se de lado a oportunidade valiosa de fazer desse grande, importante e longevo evento cultural um verdadeiro motor de renovação e democratização das artes em Belo Horizonte, tanto para quem assiste quanto para os artistas que se movimentam o ano todo por um momento de visibilidade.


Comunicação com a cidade e com os artistas


Não se faz teatro sozinho! E é justamente por esse motivo que diálogos mais amplos – tanto com a classe artística quanto com a população – acerca das múltiplas barreiras que afastam a população dos espaços culturais precisam ser constantemente revisitados.



“Guaraparir ” é um dos espetáculos em cartaz da 51ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança – Divulgação
“Guaraparir ” é um dos espetáculos em cartaz da 51ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança – Divulgação

Pensar em um evento cultural que se propõe a ter uma mobilização popular e a efetivação desse encontro artista/público também é repensar anualmente nas contradições estruturais que tensionam esse princípio. O aumento significativo das passagens dos transportes públicos, a ausência de políticas robustas de acessibilidade, uma menor procura, principalmente, da população mais jovem nas salas de teatro, entendimento do público majoritário e frequentador dos espetáculos são alguns dos pontos a serem enfrentados.


“É preciso acabar com essa história de achar que a cultura é uma coisa extraordinária. Cultura é ordinária!” - Gilberto Gil, ainda enquanto Ministro da Cultura, em uma entrevista de 2003


Cultura é como alimento, precisa estar no cotidiano do brasileiro. A proposta e o ideal de acesso e da popularização, quando dissociada das condições materiais que possibilitam esse encontro, fazem com que o discurso fique apenas no campo das ideias. Popularizar não pode significar apenas baratear ingressos (que por ora, não estão tão baratos assim) quando o custo do deslocamento continua afastando uma parte da população. Popularizar, nesse sentido, é também não se limitar somente à porta de entrada das salas mas também, como chegar até elas.


“Além do valor acessível dos ingressos, a Campanha investe em estratégias que ampliam o acesso e qualificam a experiência do público. Em 2026, houve um investimento de mais de R$ 70 mil na modernização do site e da plataforma de vendas, tornando o processo mais ágil e intuitivo. Soma-se a isso um atendimento humanizado, com suporte telefônico, presencial e digital, pensado para orientar o público em todas as etapas. A descentralização da programação, com espetáculos em Belo Horizonte e Betim, também é uma estratégia fundamental para ampliar o alcance territorial e social da Campanha”, afirma Cássio Pinheiro.


Certamente, trazer o catálogo da campanha para a Região Metropolitana de Belo Horizonte é uma das soluções práticas para a democratização do acesso à campanha , o que, ainda,  facilita  o ingresso de artistas emergentes dessas regiões às possibilidades de se apresentarem com custos menores. No entanto, para que a expansão se efetive como experiência cultural, ela precisa vir acompanhada de políticas de integração e formação de público, e, sobretudo, uma escuta ativa das populações que seguem fora desse circuito artístico.


“Acredite, um espírito baixou em mim” é um dos espetáculos em cartaz da 51ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança – Divulgação
“Acredite, um espírito baixou em mim” é um dos espetáculos em cartaz da 51ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança – Divulgação

Outro problema enfrentado em todo o Brasil quando se fala de teatro é a ausência do público mais jovem. Com tantos estímulos e outras maneiras de se consumir cultura, ir ao teatro se torna, ano após ano, um exercício cada vez menos praticado. O teatro ainda não encontrou uma forma de diálogo com o jovem – e vice-versa.


Esse afastamento não ocorre de forma isolada e nem pode ser compreendido apenas como uma questão geracional. Pesquisas realizadas pelo grupo JLeiva Cultura & Esporte mapearam o consumo de cultura por 14 capitais diferentes em 2025 e, através dela, foi possível concluir que houve uma queda significativa no consumo das artes presenciais. O que nos induz a pensar que, se o público geral já ocupa menos os espaços culturais, é inevitável que esse impacto seja ainda mais significativo entre os jovens. 


O presidente do Sinparc-MG avalia que “o principal desafio é dialogar com um público cada vez mais impactado pela lógica do consumo digital imediato e pela oferta excessiva de conteúdos online. A Campanha propõe uma experiência que a vida acontece ao vivo. Por isso, o trabalho da gestão tem sido o de reforçar a importância do encontro presencial, da vivência coletiva e da experiência única que o teatro e a dança proporcionam”.

 

Pode-se dizer que as limitações do contato desse público com os espetáculos se dá na verdade pela não atualização deste cenário cultural, que está em constante transformação. Se reinventar enquanto modo de diálogo, aproximação e performances, é um caminho prático que permite que a juventude – e não só aquela que compõe a cena atual – reconheça no teatro um lugar possível de pertencimento, debate, encontro e possibilidades. Dessa maneira ampliando e renovando cada vez mais o público da campanha.


Campanha: um organismo vivo!


Não é à toa que em cinco décadas de existência, a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança, hoje, é considerada um dos eventos mais importantes no cenário cultural no Brasil. Sua permanência ao longo desses anos atravessou diversas mudanças políticas, econômicas e sociais, ampliando o acesso tanto para artistas e uma parcela da população que não teria nenhum acesso. Reconhecer suas fragilidades não diminui sua relevância, apenas reafirma sua centralidade enquanto um espaço de debate, espaço público e principalmente, político cultural.


Um evento de tamanha duração carrega junto o risco de acomodação. As dinâmicas que sustentaram a Campanha por anos hoje coexistem com novos modos, com outras exigências de corpos, pautas, comunicação e linguagem. Por fim, compreende-se que realizar e ocupar este evento, não é apenas estar dentro dos teatros, mas também, habitar um modelo que se propõe popular e que, dessa forma, precisa ser constantemente revisitado.



 
 
 

1 comentário


Fábio César Ferreira Ferreira
Fábio César Ferreira Ferreira
há 3 dias

Parabéns pelo excelente artigo é necessária reflexão. Abordagem madura e consciente sobre importante evento da cultura mineira e nacional.

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