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A montagem do inconsciente: cinema e psicanálise no Humberto Mauro

Foto do escritor: Revista Curió
Revista Curió
há 15 horas
5 min de leitura

Mostra realizada no Cine Humberto Mauro em parceria com a Escola Brasileira de Psicanálise aposta na capacidade do cinema promover uma experiência coletiva de escutar


Por Lara Gomes

Última atualização: 07/10/2026


Foto: Divulgação/Malu (2024)
Foto: Divulgação/Malu (2024)

Você já parou pra pensar no ritual que existe na experiência de assistir a um filme na penumbra de uma sala de cinema? Walter Benjamin já havia notado, décadas atrás, que a linguagem cinematográfica ampliou nossa capacidade de observação de um jeito que se aproxima, e muito, do olhar treinado da psicanálise. Se a psicanálise de Freud ensinou a enxergar sentido onde antes só havia deslize ou lapso, o cinema fez algo parecido através de seus próprios recursos. Cinema e psicanálise, nesse sentido, são dois métodos que se entredizem, e é justamente dessa confluência que nasce a possibilidade de ler um filme com olhar clínico, e uma sessão de análise com olhar de montagem.


É esse encontro que estrutura a Mostra de Cinema e Psicanálise, realizada pela Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais (EBP-MG) em parceria com o Cine Humberto Mauro, no Palácio das Artes. O projeto, que já tcve dezenas de exibições, parte de uma aposta simples de enunciar: a de que filme e sessão analítica praticam, cada um a seu modo, uma escuta do que insiste em não ser dito diretamente.


Por que essa conversa importa para quem frequenta o cinema de rua


Para o público que ocupa as poltronas do Cine Humberto Mauro, formado por quem vai ao cinema pela experiência coletiva do filme comentado, seja estudantes universitários, pesquisadores da área da psicologia ou até mesmo entusiastas do projeto, a mostra oferece algo que falta em boa parte da cobertura de cinema hoje: espaço para que o desconforto de uma imagem não seja resolvido rápido demais. Cada exibição é seguida de debate, geralmente mediado por um psicanalista da EBP-MG, o que transforma a sessão em algo maior que uma exibição: um dispositivo de conversa pública sobre aquilo que os filmes tocam e que a plateia, individualmente, talvez não soubesse nomear.


Boa parte do público que lota as sessões da mostra é formada por estudantes, seja de psicanálise, mas também de cinema, artes e humanidades em geral, que encontram no Humberto Mauro a possibilidade de pensar teoria em tempo real, na frente da tela e ao lado de outras pessoas. Para esse público, a mostra funciona como uma extensão informal da formação acadêmica, um espaço onde os conceitos passam a ser discutidos a partir de uma experiência compartilhada. Não é raro ver esses estudantes chegarem cedo para garantir lugar, e permanecerem depois do debate, em conversas paralelas que continuam do lado de fora do cinema, prova de que a escuta que a mostra propõe não se encerra com o fim da sessão.


A curadoria e o que ela já colocou em tela


A curadoria da mostra é assinada por Antônio Teixeira, psiquiatra psicanalista membro da EBP-AMP, professor do departamento de psicologia da UFMG e coordenador do projeto, em parceria com a equipe do Cine Humberto Mauro, uma escolha de filmes que busca colocar em cena os impasses do desejo, da memória e do vínculo. Passaram recentemente pela mostra títulos como Rashomon (1950), de Akira Kurosawa, clássico sobre a impossibilidade de uma verdade única sobre um mesmo evento; Bem me Quer, Mal me Quer (2002); Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011); A Mulher do Lado (1981); e O Segredo de Brokeback Mountain (2005) — um conjunto que atravessa décadas e gêneros, mas que juntos possibilitam o debate de o que fazer com o relato que contamos sobre nós mesmos no audiovisual.


Foto: Reprodução/Rashomon (1950)
Foto: Reprodução/Rashomon (1950)

Essa é também a aposta teórica que sustenta a Coleção Cinema e Psicanálise, organizada por Christian Ingo Lenz Dunker e Ana Lucilla Rodrigues, coletânea de livros que, para quem se interessa pelo assunto (e por essa Mostra), pode ser de bom uso. No terceiro volume, Filmes que Curam, os autores propõem pensar o cinema como um campo próprio de produção de problemas formais sobre a subjetividade, e trabalha a ideia de que a ficção cria bordas para estruturar o real em seus pontos mais radicais.


"É significativo observar como Belo Horizonte, por meio de seu cenário cultural e das pessoas que se dedicam a essa empreitada, tem construído e sustentado espaços de encontro, criação e transformação. Assim como o cinema, a psicanálise pode funcionar como uma janela, um enquadre que mantém aberta a possibilidade de experienciar e criar a partir daquilo que nos atravessa", comenta Beatriz Gomes, psicóloga e psicanalista pela UFMG, em conversa com a Revista Curió.


Montagem poética: energia e sentido


A montagem cinematográfica é por si só um fazer, organizar, articular, construir, e criar os elementos do filme, exibindo imagens visuais e sonoras em movimento. E cada filme dialoga com a história do cinema, tratando de inventar novas formas de filmar e adicionar aspectos artísticos às novas tecnologia – o que, em paralelo, se relaciona com a proposta de “elaborar” trazida pela psicanálise. Assim, o cinema é um questionamento a quem assiste, e este questionamento vem do olhar do espectador à história posta em filme.


No terceiro volume da coleção de livros citada, Filmes que Curam, os autores explicam a lógica por trás dessa aposta: "Nossa abordagem entende o cinema como campo de criação de problemas formais sobre a subjetividade e como linguagem, narrativa e discurso sobre suas modalidades de sofrimento. E trata a psicanálise não só como teoria do funcionamento psíquico, mas como método clínico de tratamento e experiência ética de transformação". É essa dupla chave, o cinema como linguagem do sofrimento, a psicanálise como método de escuta, que também organiza a curadoria da mostra no Humberto Mauro: cada filme escolhido coloca em cena um problema que a plateia é convidada a pensar junto.


Quando o filme termina


Se há algo de positivo nesse tipo de espaço, é justamente a recusa de uma resposta pronta. A sessão comentada reabre o sentido do filme, em comentários de especialistas e debates coletivos. É um exercício raro numa cidade onde a experiência de ver cinema costuma terminar no momento em que os créditos sobem: aqui, o filme continua sendo trabalhado coletivamente, como uma associação livre que a plateia inteira faz junto.


No dia 7 de agosto, foi a vez de Malu (2024), com a presença do diretor Pedro Freire e mediação de Antônio Teixeira. O filme acompanha uma atriz desempregada de 50 anos que vive das lembranças de um passado de glória, dividindo casa com a mãe conservadora enquanto tenta reconstruir a relação com a própria filha, material de sobra para a conversa sobre memória, desejo e o que se transmite (ou não) entre gerações. Quem reservou lugar no Cine Humberto Mauro saiu de lá com muito o que pensar.


Foto: Divulgação/Fundação Clóvis Salgado
Foto: Divulgação/Fundação Clóvis Salgado

Já em setembro, o projeto levou a debate o documentário O Homem Urso (2005), exibido dentro da mostra Monstros da Modernidade, que investigou o que a figura do "monstro" pode revelar sobre o mundo e sobre a própria ideia de humanidade.


O documentário, que acompanha a trajetória de Timothy Treadwell e sua convivência com os ursos do Alasca, reforçou a marca do projeto realizado em parceria com a Escola Brasileira de Psicanálise: mostrar como o debate psicanalítico pode se encontrar com outras programações do cinema e deixar o filme mais aberto a leituras, as sessões acontecem geralmente uma vez por mês, sempre às sextas-feiras, às 19h, e a exibição é seguida de conversa com profissionais da psicologia e com a equipe do filme ou curadores. Esse encontro entre quem pensa a psique e quem faz o cinema é o que gera diálogo, já que o filme deixa de ser apenas assistido e passa a ser escutado, discutido e, de certa forma, reinventado coletivamente.

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