Transformações na América Latina pautam a 20ª CineBH
Programação propõe debates sobre alterações de governo, fragilidade das políticas culturais e disputas em torno da regulação do audiovisual
Por: Ana Clara Moreira
Última atualização: 21/09/2026

A Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte (CineBH) celebra 20 edições em 2026, com uma vasta programação inteiramente gratuita, disponível entre os dias 22 e 27 de setembro. São duas décadas de atividades dedicadas a pensar o cinema brasileiro nas suas relações com o mercado, a coprodução e as parcerias internacionais.
O evento reúne filmes brasileiros e estrangeiros, com foco no cinema latino-americano, em pré-estreias, sessões comentadas, debates, atividades formativas e ações de mercado em diferentes espaços da capital mineira.
Em 2026, serão exibidos 102 filmes, sendo 49 longas e 53 curtas-metragens, distribuídos em 69 sessões. A seleção reúne produções brasileiras de 18 estados, além de filmes e coproduções de oito países. O início oficial das atividades será nesta terça-feira, 22 de setembro, às 20h, no Grande Teatro do Cine Theatro Brasil, com a pré-estreia nacional de Se Eu Fosse Vivo... Vivia (2026), novo longa-metragem do cineasta mineiro André Novais Oliveira, produzido pela Filmes de Plástico.
Integrado à programação da CineBH, acontece o 17º Brasil CineMundi – Encontro Internacional de Coprodução, o evento de mercado do cinema brasileiro, que amplia a conexão entre a produção brasileira e profissionais e instituições da indústria audiovisual internacional.
A programação também se estende ao ambiente online, ampliando o acesso do público às atividades e aos conteúdos da mostra. Em parceria com o Itaú Cultural, a plataforma IC Play recebe uma seleção especial da programação, enquanto o site oficial da 20ª CineBH disponibiliza um recorte da Mostra Retrospectiva 20 anos, reunindo títulos que celebram a trajetória do festival e revisitam momentos marcantes de sua história.
A iniciativa reforça o compromisso da CineBH com a democratização do acesso ao cinema brasileiro e com a formação de novos públicos, levando parte de sua programação para além das salas de exibição e alcançando espectadores de diferentes regiões do país.
Cinema Latino-Americano: o que será?
Com o tema “Cinema Latino-Americano: o que será?”, a 20ª CineBH é um chamado às transformações experimentadas pelo cinema produzido no continente. Alterações de governo, redução de investimentos públicos, fragilidade das políticas culturais e disputas em torno da regulação do audiovisual interferem diretamente na sustentação das cinematografias nacionais.

A pergunta que dá nome à temática recupera a canção O que será?, de Chico Buarque, faixa que completa 50 anos desde o lançamento. O paralelo de datas permite colocar em perspectiva dois momentos de incerteza no continente. Em 1976, boa parte da América Latina vivia sob ditaduras militares, e a ideia de um Nuevo Cine Latino-Americano ainda alimentava uma compreensão mais unitária, ainda que idealizada, do cinema da região vinculando-a à denúncia política, à ideia de resistência e a um projeto de integração continental.
Homenagens
As homenagens da 20ª CineBH celebram duas trajetórias artísticas fundamentais para a cultura latino-americana contemporânea: a escritora brasileira Conceição Evaristo e a cineasta paraguaia Paz Encina. Em campos distintos, ambas construíram obras marcadas pela relação entre memória, território, linguagem e permanência, transformando experiências individuais e coletivas em criação estética e gesto político.
Ao reunir essas duas homenageadas, a CineBH reconhece artistas que ampliam os modos de narrar e de imaginar a América Latina. Seja pela força da palavra e da “escrevivência” de Conceição Evaristo, seja pela elaboração do tempo, da escuta e das memórias no cinema de Paz Encina, suas obras reafirmam a potência da arte como espaço de preservação, invenção e reflexão sobre o presente.

Em Se Eu Fosse Vivo… Vivia (2026), a escritora Conceição Evaristo estreia como atriz de cinema ao interpretar Jacira, mulher que compartilhou a vida inteira com Gilberto, vivido por Norberto Novais Oliveira. A presença da mineira diante da câmera amplia os sentidos do filme: Evaristo, aos 79 anos, é uma referência cultural incontornável no Brasil e os temas da passagem do tempo e da permanência dos vínculos presentes no trabalho de André Novais se interligam à própria obra literária da autora.
Ela não faz uma participação especial: Conceição Evaristo é a essência, o ponto nevrálgico, a grande presença no filme e no universo afetivo construído por André em vários outros trabalhos. Assim como nas letras da autora, a ficção do cineasta nasce do encontro entre experiências vividas, memórias familiares e a fabulação possível do confronto entre esses processos.

Nascida em Assunção, em 1971, Paz Encina construiu uma trajetória em paralelo à reemergência internacional do cinema paraguaio nas primeiras décadas do século XXI. Ou, mais precisamente, ela foi agente direta desse fenômeno. Formada em Cinematografia pela Universidad del Cine, em Buenos Aires, começou a realizar curtas-metragens ainda nos anos 1990 e trabalhou também com vídeo, instalações e diferentes suportes cinematográficos.
Ela fazia audiovisual num país de produção historicamente descontínua, marcado por isolamento geográfico, sucessivos períodos autoritários e pela ditadura de Alfredo Stroessner, que permaneceu no poder entre 1954 e 1989. Nesse contexto, Encina teve a façanha de uma circulação internacional inédita a uma realizadora paraguaia de sua geração e ainda se tornou figura essencial em questões de como a memória de seu país virou matéria central de seu cinema.



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