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Revisitando o Cinema Brasileiro na CineBH

Foto do escritor: Revista Curió
Revista Curió
há 1 dia
4 min de leitura

Como parte das comemorações de 20 anos do projeto, Festival celebra a diversidade do cinema nacional


Por: Laura Torres e Pedro Naves

Última atualização: 29/09/2026


Divulgação/CineBH
Divulgação/CineBH

“Oscilações no áudio e na imagem fazem parte da experiência”. Com esse alerta começou a última sessão da Mostra Retrospectiva 20 anos na CineBH no último domingo (27). Enquanto uma nova leva de cinema latino-americano é premiada nas mostras competitivas, a CineBH faz questão de lembrar a história do cinema brasileiro em outras sessões.


Um olhar sem grande saudosismo, diga-se de passagem. A exibição de Santiago (2007), filme de João Moreira Salles, mostra que a história pode estar muito errada. Em uma filmografia marcada por registros históricos e figuras marcantes, como o presidente Lula, João faz um exercício novo até então: filmar um personagem íntimo. 


Santiago Badariotti Merlo, o ex-mordomo da mansão da família Moreira Salles, é uma figura fascinante por si só, um homem de presença singular. Capaz de falar vários idiomas, ele funciona quase como uma enciclopédia humana. No entanto, ao tentar moldar o retrato do entrevistado (cortando sua fala repetidamente), o diretor parece mais focado em controlar a narrativa do que em realmente escutar o outro. A sensação que fica é a de que João não queria conhecer Santiago, mas apenas resgatar as histórias do mordomo dos burgueses cariocas.


Um fato curioso é que João tem completa noção que direcionou o enquadramento de Santiago. O longa, gravado originalmente em 1992, havia sido descartado pelo diretor por diversos problemas na montagem. Depois do falecimento de Badariotti em 1994 e o retorno de João a casa em que cresceu, ele decidiu que o material merecia outra chance. Mesmo com uma tentativa de fazê-lo mais respeitoso, colocando cenas dos bastidores onde ele mostrava suas incoerências dirigindo, o documentário, em sua maioria, agride Santiago. 


Os poucos momentos de glória em que o ex-mordomo dança com as mãos e conta sobre suas histórias se perdem no protagonismo do Moreira Salles que, quase no final do filme, ressalta: “Esta é uma obra para meus pais, para os meus irmãos (Walter, Fernando e Pedro) e para as memórias de Santiago”. 


Dessa maneira, o cineasta acaba, involuntariamente, voltando a câmera para si mesmo. O resultado é incômodo: o garoto rico e saudosista usa Santiago como um espelho para projetar suas próprias questões pessoais. Finalizar o filme alguns anos após a morte de Santiago nos faz questionar sobre a ética em torno do ato de documentar, já que nem em vida o personagem pôde se definir corretamente. 


Feridas abertas


Já o filme Bicho de Sete Cabeças (2001), de Laís Bodanzky, exibido na quarta-feira (23), resgata a história de Neto, interpretado de forma intensa pelo ator Rodrigo Santoro, um jovem de classe média internado em um hospital psiquiátrico pelo próprio pai após conflitos familiares. Sem romantizar o sofrimento e se apresentando como uma obra de muita dor e revolta, a câmera do filme sufoca o espectador e mostra para todos como é o pesadelo de viver de forma desumanizada dentro desse tipo de instituição. 



Divulgação/CineBH
Divulgação/CineBH

A angústia que transborda no filme carrega um peso real: a trajetória do personagem Neto foi inspirada na vida de Austregésilo Carrano Bueno, relatada no livro autobiográfico Canto dos Malditos (1990). Na década de 1970, aos 17 anos, Bueno foi internado compulsoriamente pela própria família após ter um cigarro de maconha encontrado no bolso de sua jaqueta. 


Ao longo de três anos, ele foi transferido para diferentes hospitais psiquiátricos, submetido a superdosagem de remédios e a mais de 20 sessões de eletrochoque, sem qualquer diagnóstico ou fim terapêutico. A dor vivida por ele, que mais tarde se tornaria um dos grandes nomes da Luta Antimanicomial no Brasil, se tornou o testemunho de uma tragédia que o país por muito tempo tentou ignorar. 


Bicho de Sete Cabeças revela como o Estado brasileiro utilizou essas instituições como depósitos de indivíduos considerados invisíveis, uma realidade que dialoga com o “Holocausto Brasileiro”, termo utilizado para definir as atrocidades que aconteceram no Hospital Colônia, em Barbacena, que resultou na morte de mais de 60 mil pessoas. Assim, o cinema é utilizado como ferramenta de denúncia contra o preconceito e a violência.


Um clássico é atemporal 


A seleção de ambos os filmes nos mostra que a história de um cinema também é construída de altos e baixos e não basta apenas rememorar os clássicos, já que esse é um movimento de olhar para o passado e pensar o futuro com um cinema diferente. Apesar disso, aqueles títulos que marcam às vezes tem que voltar, como é o caso de Central do Brasil (1998), exibido na forma de cine-concerto na “Mostra Clássicos”, que também homenageia a história do país na CineBH.


Leo Lara/Universo Produção
Leo Lara/Universo Produção

O longa-metragem de Walter Salles foi exibido na noite de quarta-feira (23) e levou diversas pessoas a encherem o Grande Teatro do Cine Theatro Brasil. Com encerramento cheio de palmas e choro, os músicos comandados pelo idealizador Anselmo Mancini deram mais vida ao projeto.


O saudosismo que falta em Santiago (2007) aparece na discussão do filme indicado ao Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro” em 1999. Com atuação histórica de Fernanda Montenegro, a história que acompanha sua personagem Dora, ao lado do menino Josué (interpretado por Vinícius de Oliveira), continua tendo assuntos muito atuais. Discutindo um Brasil marcado por suas desigualdades, o filme acompanha uma produção forjada no amor.


A “escrevedora” de cartas, como diz Josué, acompanha o jovem na busca por seu pai – condição comum entre os brasileiros – e quer responder a grande pergunta: será que ele vai voltar? Essa é uma resposta que o filme não dá e a sociedade atual ainda não sabe responder. Depois de quase 30 anos, a Central do Brasil ainda carrega as controvérsias do nosso território e relembrar isso através da arte é perceber que a luta está longe de acabar. 


Não é coincidência que os próximos filmes alçados a grande premiação também discutem mazelas do Brasil. A última edição da CineBH, que coincidentemente foi aberta com o último representante do país no Oscar, O Agente Secreto (2025), filme marcado pela perseguição da ditadura brasileira. 


É importante valorizar essa visibilidade, mas também é preciso ver que tudo começa aqui: nos festivais do nosso país, que estão preservando esta memória e mostrando para os consumidores a importância de lembrar. 


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