Literatura e sociedade
- Revista Curió
- 3 de fev.
- 6 min de leitura
Hilda Furacão (1991) como leitura das contradições belorizontinas ontem e hoje
Por: Sofia Laura
Última atualização: 03/02/2026

A literatura costuma ser associada ao lazer, ao descanso, à fuga da realidade. Mas há também quem a veja — e este texto parte dessa premissa — como uma maneira de descobri-la ou entendê-la. Livros têm a capacidade de abrir os olhos do leitor para o mundo de maneira inédita, permitindo que ele calce sapatos que não são os seus e percorra caminhos que dificilmente trilharia sozinho. Sendo assim, a literatura não explica a política, a economia ou a sociedade nos termos das ciências sociais, mas expõe suas dinâmicas e mecanismos, aqueles que geralmente operam em silêncio.
É nesta seara que Hilda Furacão (1991), de Roberto Drummond, insere-se como um espelho de Belo Horizonte – ainda que deformador, afinal traduz em linguagem literária a vivência factual. E essa permanência não se dá apenas no assunto do romance, mas também nas imagens que continuam circulando, veja bem: um livro escrito nos anos 1990, ambientado nas décadas de 1950 e 1960, que teve uma adaptação televisiva em 98, ainda escancara dinâmicas que persistem até hoje.
Quem navega pela internet com certeza chegou a ver um vídeo de pessoas reunidas no coreto da Praça da Liberdade de Belo Horizonte, com o Edifício Niemeyer no fundo gritando “Queima, queima, queima” enquanto uma chama toma a bandeira dos Estados Unidos. Essa cena é da série televisiva baseada no romance de Drummond, feita poucos anos depois da publicação do livro. Essa imagem sintetiza visualmente aquilo que o romance já anunciava: a capital mineira como palco recorrente de disputas morais, políticas e simbólicas que atravessam décadas.)
Ao eleger Belo Horizonte como arena, Drummond transforma a cidade em síntese de tensões nacionais. Entre ficção e realidade, o romance opera como um trabalho de memória viva do país erguido em contradições e mudanças, e essa memória é literariamente metonimizada na capital mineira não à toa: a cidade nova e provinciana sempre foi cercada por suas contradições à moda mineirinha, por isso, tornou-se palco de debates decisivos no período pré e pós-golpe militar.
Nos anos 1950, havia uma expectativa difusa de modernização: desenvolvimento econômico, circulação entre classes, efervescência cultural. Mas aqui, as maquetes modernistas de JK esbarravam nos palacetes das antigas e tradicionais famílias mineiras que se horrorizavam com as ideias jovens.
A promessa da modernidade benfeitora, como se sabe, foi interrompida à força por meio de censura e repressão que começaria a se consolidar assim que as primeiras tropas marcharam rumo ao Rio de Janeiro para depor o então presidente João Goulart. De onde partiram essas tropas? Minas Gerais.
Ao transformar em literatura aquilo que a cidade preferia tratar como desvio da moralidade – uma prostituta filantropa –, Roberto Drummond revela uma dinâmica persistente: Belo Horizonte gosta de se pensar moderna, mas reage com desconforto sempre que essa modernidade ameaça seus códigos morais mais profundos. É a cidade dos botecos (que fecham à meia-noite); das obras de Niemeyer (cercadas por casarões neoclássicos); do carnaval que cresce a cada ano (mas cujos limites, não raro, vêm em forma de spray de pimenta na Afonso Pena e cacetetes que definitivamente não são os de plástico vendidos na 1001 festas).
No livro e nas ruas
Hilda — no livro, Hilda Gualtieri Von Echveger; na série, Hilda Gualtieri Müller; e, na realidade, Hilda Maia Valentim — existiu de fato. Foi uma figura emblemática da cidade por abandonar uma vida burguesa para se prostituir. Pouco se sabe sobre a Hilda “real”: tudo indica que tenha sido mais inspiração do que o “mito sexual” amplificado pela narrativa. Não há registros de sua história nos jornais, nem perseguições da Igreja, tampouco um romance com um santo, como ocorre no livro e na adaptação televisiva. O escândalo, tal como Drummond o constrói, é literário, e, justamente por isso, político.
Ao usar a história dessa jovem de bairro nobre que foge para os prostíbulos como eixo narrativo, Roberto Drummond dispõe uma leitura social da Belo Horizonte dos anos 1950. Nesse contexto, Hilda pode ser entendida como símbolo de uma articulação mais ampla no tecido social brasileiro: jovens burgueses que rompem com seus destinos esperados e flertam com experiências radicais – talvez a guerrilha ou os jeans rasgados. Mas reduzi-la a isso seria empobrecer o romance, que articula um caleidoscópio de eventos, disputas e personagens capazes de iluminar o clima político-cultural da cidade.
Drummond escreve sobre o passado, mas fala diretamente ao seu presente e, por persistência, ao nosso. Ao transformar em romance aquilo que a cidade preferia manter no campo do não dito, ele expõe uma estrutura recorrente: a modernização como projeto estético e discursivo convive, sem grandes conflitos e até em harmonia, com práticas profundamente conservadoras. O romance sugere que essa convivência entre avanço estético e atraso social não é acidental. Para haver “modernização”, a exclusão, desigualdade e apagamento de pautas sociais são quase imperativos.
A trajetória de Hilda escancara um pacto ainda reconhecível de que certos comportamentos são tolerados desde que permaneçam invisíveis, confinados a zonas específicas, sem reivindicar legitimidade ou voz pública.
No livro, Roberto recorda os anos finais da década de 1950 em Belo Horizonte como um período de intensa agitação: revolução sexual, reestruturação da Igreja, adensamento das ideias de esquerda, mas com grande reação organizada contra essas transformações. Em Hilda Furacão, a cidade é menos cenário do que personagem. Ela observa, comenta, julga. E assim, o estopim do romance é o projeto da Cidade das Camélias, que pretendia deslocar a zona boêmia para fora do centro da capital. Liderado por Loló Ventura, dirigente da Liga de Defesa da Moral e dos Bons Costumes, o movimento combatia o amor livre, a boemia, o comunismo e qualquer sinal de reestruturação social, tendo como lema a frase: “Deixe nossos maridos em paz, Hilda Furacão”. Fora das páginas e mais de 70 anos depois, Loló Ventura seria uma das comemorar o Dia Municipal da Felicidade Conjugal e do Casamento Monogâmico Cristão implementado pelo prefeito em outubro de 2025.
A contradição, seja na literatura ou na vida real se repete em diferentes escalas: no romance, a recusa à figura de Adão nu em um painel religioso na fictícia cidade Santana dos Ferros revela o limite da tolerância moral: se nem a nudez bíblica era aceitável, o que seria? Na vida real, a Igreja São Francisco de Assis, com painéis de Portinari, permaneceu quase quinze anos sem missas, interditada simbolicamente pelo conservadorismo.
Essa lógica, que Drummond expõe com ironia e precisão, não desapareceu, apenas mudou de forma, e o romance virou menos um retrato de época e mais uma anamnese da cidade. A Belo Horizonte de hoje continua negociando seus limites entre abertura cultural e vigilância moral. A cidade celebra festivais, ocupa praças, exalta a diversidade, mas reage com estranhamento quando o corpo, o desejo ou a dissidência escapam dos espaços considerados “adequados”.
Hilda Furacão é a personagem que atravessa todas essas tensões. No célebre episódio do exorcismo, ao confrontar o santo, ela denuncia sua ignorância sobre o país em que vive. O gesto é simbólico: expõe a distância entre a moral abstrata e a realidade, entre o discurso e a vida vivida.
“Responda, Frei Malthus: alguma vez, você que é Santo, soube como vive um operário brasileiro? Pois eu, que você diz que sou o demônio, sei como vive o operário brasileiro. Sei da fome do povo brasileiro, a fome dos operários, dos favelados, dos subempregados, dos desempregados, e dos que nada têm e que sentem uma fome muito além do pão nosso de cada dia, Frei Malthus. Sentem uma fome de carinho, fome de esperança, meu querido Frei Malthus.” (p. 60, 1991)
Como nada na literatura é por acaso, Hilda deixa a zona boêmia em 1º de março de 1964 enquanto caminha pelas ruas do centro em meio a tanques de guerra e botinas lustradas.

Em 2025 vi a ópera de Tim Rescala baseada no livro e pude constatar: Hilda Furacão ainda escandaliza. Não porque fale de prostituição e não apenas porque faz um retrato do cenário pré-golpe no país; mas porque expõe uma dinâmica sociopolítica insistente que só aceita a diferença enquanto ela não exige espaço, voz ou permanência. Ler Roberto Drummond hoje é constatar que, em Belo Horizonte, a modernidade continua sendo um projeto e a liberdade, uma catira.



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