Cinema artificial: os debates no entorno da IA na sétima arte
- Revista Curió
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Enquanto festivais de filmes feitos por inteligência artificial apostam na redução de custos com a tecnologia, o cinema tradicional reage à perfeição digital e discute os seus limites éticos e artísticos
Por João Henrique Nascimento
Última atualização: 27/05/2026

Entre os dias 21 e 22 de abril de 2026, aconteceu a segunda edição do World AI Film Festival (WAIFF) no Palais des Festivals, em Cannes. O evento contou com uma seleta quantidade de filmes gerados por inteligências artificiais ganhadores das etapas anteriores do festival para disputar o prêmio máximo na cidade francesa. As produções concorreram em várias categorias, como animação, ação, prêmio CapCut, entre outras. O drama Costa Verde (2025) – que simula acontecimentos fantasiosos durante uma estadia de verão de um menino na casa dos avós –, de Léo Cannone, por exemplo, foi considerado o melhor filme da edição WAIFF 2026.
Ao passo que a cidade no sul da França é o palco também do famoso Festival de Cannes, que acontece tradicionalmente em maio, a organização do festival proibiu expressamente o uso de inteligências artificiais generativas nos filmes inscritos, apontando que “a IA imita muito bem, mas nunca sentirá emoções profundas”, de acordo com o The Guardian.
Por um lado, as imagens sintéticas oferecem uma economia de produção cinematográfica nunca antes vista. Joanna Popper, que estava entre os jurados do WAIFF Cannes 2026, apontou a tendência hollywoodiana de usar a tecnologia de IA para ter “mais lances do gol” ao produzir vários filmes híbridos ou gerados por IA com um orçamento de US$ 50 milhões (£ 37 milhões) do que apenas um filme convencional por US$ 200 milhões. Por outro, não é recente que as imagens sintéticas dividem opiniões na questão de qualidade, por exemplo espectadores que consideram os personagens artificiais “sem alma”.
Além disso, os filmes gerados artificialmente trazem à tona dilemas éticos. Em destaque, a questão da autoria entre diretores que usam a inteligência artificial nas produções ainda é uma terra de ninguém. Da mesma forma que a IA pode alterar o papel do escritor, relegando-o à elaboração da ideia inicial e à revisão final do texto feito artificialmente, quem seria o diretor na sétima arte sintética? Podemos considerar que existe um processo criativo nas produções geradas pela máquina?
História das IAs generativas
Olhar pelo retrovisor a trajetória das imagens artificiais é importante para compreender caminhos futuros da tecnologia. As Redes Adversariais Generativas (GANs), elaboradas em 2014 por Ian Goodfellow, surgiram como a resposta para um problema dos cientistas computacionais na época: como fazer um computador gerar “fotografias” originais e realistas a partir de uma grande base de dados preexistente? Dessa forma, Goodfellow propôs a criação de um sistema dicotômico, em que a IA seria dividida em uma parte para a geração das imagens, e a outra para discriminar o resultado, ou seja, detectar falhas na própria imagem gerada. Essa estrutura inovou os métodos de modelos generativos e algoritmos, que passaram a criar dados cada vez mais verossimilhantes e de alta qualidade.

Um ano depois, Alexander Mordvintsev desenvolve o Google Deep Dream, programa generativo que se destacou na reinterpretação de imagens preexistentes, levando-as do patamar do real a um mundo psicodélico e surrealista. Assim, as falhas do software operam como texturas artísticas involuntárias. O Deep Dream gerava imagens repletas de distorções anatômicas, cenários fluidos e rostos que se contorcem na tela. Paradoxalmente, essa imperfeição técnica dotava essas “artes” de uma assinatura própria.

A partir de 2020, houve uma ascensão dos modelos de difusão, como o MidJourney e o DALL-E, resultando em um crescimento exponencial das ferramentas de vídeo hiper-realistas. Nesse sentido, o objetivo dos programas se tornou alinhar o potencial da matemática visual para gerar imagens cada vez mais detalhadas. Contudo, ao seguir o caminho da economia financeira e do fluxo acelerado de produção no cinema, a tecnologia reduz o risco do real na sétima arte. Ao deixar de lado o imprevisto das gravações nos sets de filmagem, há chance das próximas gerações de curtas, médias e longas metragens serem inseridas numa lógica de linha de montagem.

Subjetividade entre o real e a IA
A cronologia da IA na produção de imagens sintéticas muda a perspectiva tradicional do público sobre o cinema. Nesse sentido, as imagens sintéticas teriam relação direta com a estética da simulação, enquanto as filmagens tradicionais estariam ligadas a certa ontologia da imagem, ou seja, um estudo da existência daquilo que se passa na tela, como aponta em entrevista à Revista Curió, Adriano Medeiros, cineasta e professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Aqui, retorna a questão da capacidade de interferência do real nas gravações, já que nos estúdios “há dependência de fatores materiais imprevistos, enquanto, no segundo, há um grande controle que permite maleabilidade para alterar iluminação, gravidade, posicionamento de câmera e fisionomia de atores, entre muitos outros fatores na pós-produção”, segundo Adriano.
Nessa ótica, a IA generativa calcula probabilidades matemáticas baseada em um grande banco de dados. Isso anula rastros do mundo real. Além disso, movimentos computadorizados e peles de textura “plástica” são exemplos dessa falta de atrito com a realidade das imagens sintéticas, o que introduz o cinema em uma lógica de hiper-realismo.
“Nessa trajetória de declínio dos momentos capturados, encontramos também a perda da indexicalidade, a plastificação do olhar e um hiper-realismo sem alma. Esses elementos juntos podem levar ao excesso de perfeição digital e remover a textura e o peso físico dos objetos, resultando em um espetáculo visual que satura os olhos, mas anestesia à emoção.”, destaca o professor.
Para o Globo, o especialista em IA e ética Pablo Menegol indica benefícios econômicos e uma otimização de tempo inevitável com essas novas tecnologias no cinema. Entretanto, o cenário que pode parecer otimista socialmente carrega algo latente. No âmbito institucional, a emergência de produções criadas de maneira muito acelerada trouxe à tona outras questões na decisão de premiações. “Academias e sindicatos debatem ativamente a regulamentação do uso de imagem, proteção aos postos de trabalho e se projetos construídos sobre matrizes de dados sintéticos devem competir nas categorias tradicionais.”, aponta Adriano.
Ter essa contextualização do crescente protagonismo da inteligência artificial na sétima arte permite pensar em possibilidades futuras desse embalo. Nesse sentido, um leque de opções conhecidas, e outras ainda ocultas, se abre. A IA pode resumir processos repetitivos e desgastantes, e até auxiliar o profissional a sair facilmente de bloqueios criativos, haja vista que não há limite de respostas mesmo que por trás elas sejam calculadas. “Neste ponto, não se trata de fazer para o profissional, mas auxiliá-lo em momentos que o mesmo encontre qualquer dificuldade ou obstáculo”, complementa o cineasta. Há ainda a opção de customizar características e até mesmo a história ao favor dos diretores. Sob essa ótica, Adriano ainda afirma que “a IA revolucionará a distribuição ao traduzir vozes não apenas clonando o timbre do ator original, mas transferindo a sua intenção dramática e o sotaque para qualquer idioma”.
Contudo, ainda que a inteligência artificial ofereça um grande horizonte de desdobramentos para as produções, como deixar de lado as técnicas de CGI para dar vida aos animais fantásticos, esse é um campo ainda inicial na sétima arte. Ao mesmo passo, esse mesmo horizonte pode apresentar uma fina linha cinzenta de obstáculos e desafios nunca antes vistos.



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