Um país que resiste nas imagens que preserva
- Revista Curió
- há 2 dias
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Com foco nas discussões sobre preservação e sobre o protagonismo das mulheres no audiovisual, 21ª CineOP faz apelo por prioridades institucionais e políticas públicas
Por: Ana Clara Moreira, Pedro Naves e Vitor Pepino
Última atualização: 01/07/2026

Quando as telas se apagam e as estruturas começam a ser desmontadas, o que resta de uma mostra de cinema? Na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, nossa querida CineOP, a resposta não está apenas nos números ou na extensão da programação, mas em desdobramentos que escapam ao registro imediato, e passam necessariamente pelas formas de olhar, que se transformam ao longo do encontro.
Durante seis dias repletos de atrações, Ouro Preto voltou a se organizar em torno das imagens. Não como pano de fundo, mas como território ativo, onde o cinema circula entre praças, museus, salas e espaços de formação. Ao reunir filmes de diferentes tempos, a mostra construiu uma espécie de travessia, em que passado e presente não se opõem, mas se reconfiguram mutuamente.
Há, nesse movimento, uma ideia que atravessa toda a CineOP: a de que o cinema não se esgota na exibição. Ele depende daquilo que o sustenta, desde a preservação, que garante sua permanência; passando pela educação, que possibilita sua leitura; e a circulação, que o reescreve continuamente no mundo. Mais do que eixos curatoriais, esses princípios funcionam como modos de pensar o audiovisual para além da tela.
Um país existe nas imagens que preserva
Ao adotar o tema “Um país existe nas imagens que preserva”, a 21ª CineOP desloca o debate sobre o cinema para um campo mais amplo, onde memória e identidade se entrelaçam. Preservar, nesse contexto, não é apenas garantir a sobrevivência física das obras, mas reconhecer nas imagens um território simbólico em disputa, abrangendo tudo aquilo que um país escolhe lembrar, esquecer ou revisitar.
Ao reunir filmes de diferentes épocas e estados de conservação, a mostra evidencia que o audiovisual não é um registro neutro do passado, mas uma construção contínua, capaz de revelar tanto as permanências quanto as ausências que moldam uma história coletiva.

O tempo, infelizmente, desgasta e destrói os filmes que não tiveram o privilégio do digital e é em locais como a CineOP que surge um momento de renascimento dessas imagens. Em um ano onde a principal homenageada é uma das maiores diretoras do país, a mostra também decide exibir O Ébrio (1946), longa dirigido por Gilda Abreu.
O filme, restaurado pela Cinédia, é uma das maiores bilheterias da história do cinema brasileiro, mas mesmo assim é muito esquecido por não ter cópias em circulação. O longa conta uma história de ascensão social, ao mesmo tempo que mostra que o dinheiro não é a saída. Um conto que pode não ter muitas camadas aparentes mas é um marco para a história.
Para os que dizem que o cinema brasileiro é sempre o mesmo, O Ébrio (1946) também é um pouco musical. As canções surgem nos momentos de incerteza na vida de Gilberto Silva, o protagonista. É por meio delas que ele consegue expressar seus sentimentos. O longa brilha em diversas nuances, arriscadas para 1946, mas a principal delas é que, com certeza, é culpa da direção, é o uso excelente das personagens femininas.
Mesmo em uma história sobre traição e o fundo do poço de um protagonista masculino, a diretora não cai nos arquétipos utilizados sobre mulheres traidoras, principalmente na época. É nesse momento que você entende a necessidade da preservação. Se um filme de 80 anos atrás pode tratar personagens femininas com o devido respeito, porque o cinema atual poderia não fazer? É impossível buscar evolução em uma área que não se conhece. Como um cinema vai dar passos em direção ao futuro sem entender seu passado?
E a curadoria da CineOP entende isso muito bem ao selecionar o documentário Chico Rei Entre Nós (2020). Dirigido por Joyce Prado, que infelizmente veio a falecer em 2025, o filme retrata a história do rei congolês que foi escravizado em Ouro Preto e conseguiu comprar sua liberdade e de outras pessoas negras escravizadas.
A história de Chico Rei se entrelaça com a de Ouro Preto e o documentário deixa isso bem claro. A partir de depoimentos do povo e na voz dos historiadores que trabalham como guias, o congolês se mantém vivo por meio da oralidade, já que registros históricos desse tipo de personagem dificilmente são encontrados. O filme demonstra que, mesmo com todas essas tentativas de apagamento que o povo negro sofre, basta existir pessoas dispostas a entender e preservar o passado para que uma história jamais morra.
A importância e representatividade do congolês reflete ainda hoje. A ocupação Chico Rei, em Ouro Preto, leva esse nome não à toa, mas porque esse nome representa a força da união que a população tem para construir suas casas em um local seguro e sem risco de desabamento. O documentário traz de forma sensível o quanto entender o passado ressignifica o futuro e dá força para continuar a lutar com os desafios diários.
Homenagem
A presença de Helena Solberg como homenageada desta edição tensiona ainda mais essa relação com o tempo. Sua obra, revisitada ao longo da programação, não surge como um arquivo distante, mas como algo que insiste em dialogar com o presente. Ao colocá-la em circulação, a mostra reafirma que preservar também é atualizar fazer com que imagens do passado continuem produzindo perguntas no agora.
Nesse contexto, a exibição de Carmen Miranda: Bananas Is My Business (1995), filme dirigido pela homenageada, se apresenta como completamente atual. No longa, são discutidos temas como a mercantilização do Brasil pro exterior, assim como o auge e a queda de uma figura tão marcante como Carmen e sua trágica morte.

Facilmente, uma biografia que poderia ter sido feita em 2025. Mesma forma e construção, só 30 anos antes. Helena, sabendo seu lugar, articula muito bem a glamourização da vida de Carmen sem sugar o seu legado. Os depoimentos de familiares e amigos que conviveram com a estrela em diferentes momentos respeitam a artista em sua morte.
Isso tudo ao mesmo tempo que se constroi a figura de um mito. E tudo isso de uma maneira humanizada, sem esquecer quem é Carmen e de onde ela veio. O momento em que ela volta para o Brasil e é rejeitada pelos locais, mostra como a atriz se vendeu, mas também como ela não é apenas um produto.
Mudar faz parte da sobrevivência ao mercado capitalista ao qual os artistas são colocados e Helena Solberg explicitava que isso não tirava a dignidade da atriz. Quarenta anos depois ela respeitou o legado deixado por ela, e 71 depois essa obra faz jus ao legado da diretora de cinema. A preservação de registros como esse não diz respeito apenas ao cinema, mas também à cultura brasileira em geral.
A sessão ganhou grande destaque na programação mas talvez um dos gestos mais significativos da 21ª CineOP tenha acontecido longe dos momentos de maior visibilidade. Nas sessões voltadas a estudantes, nos encontros formativos e nos primeiros contatos com o cinema, delineia-se um futuro possível para aquilo que se vê. Porque, se o cinema depende da memória para existir, ele depende igualmente de quem aprende a olhar.
O que permanece, portanto, não é apenas a lembrança dos filmes exibidos, mas a consciência de que cada imagem carrega uma história – e que essa história só continua quando encontra novos olhares. Em Ouro Preto, o cinema não termina com o fim da sessão. Ele segue, disperso, nas leituras que se prolongam, nas perguntas que ficam e naquilo que, visto uma vez, já não pode ser esquecido.
Cartas de Ouro Preto 2026
Se a CineOP propõe o cinema como prática de memória, as Cartas de Ouro Preto tornam evidente que essa prática está longe de ser neutra. Elaboradas às vésperas de um processo eleitoral capaz de redefinir prioridades institucionais e políticas públicas, elas situam a preservação audiovisual em um campo de disputa direta, onde decisões de governo podem significar tanto a continuidade quanto a interrupção de projetos estruturantes para o setor.
Esse enquadramento não aparece como pano de fundo, mas como condição central do debate. Em um histórico marcado por instabilidade, descontinuidade administrativa e fragilidade institucional, a preservação das imagens no Brasil se revela profundamente dependente de agendas políticas. A cada ciclo eleitoral, reconfiguram-se não apenas orçamentos, mas diretrizes, modelos de gestão e compromissos com a memória. O que está em jogo, portanto, não é apenas a manutenção de acervos, mas a própria possibilidade de existência de políticas contínuas para o audiovisual.
É nesse contexto que o diagnóstico apresentado pelas cartas ganha peso: nunca se produziu tanto, e ainda assim a permanência dessas imagens segue ameaçada. A ausência de estruturas sólidas – que vão desde a formação profissional à regulamentação do setor, do depósito legal à estabilidade das instituições públicas – revela um campo que avança, mas sob constante risco de retrocesso. A dependência de modelos precários de gestão e a insuficiência de concursos públicos, por exemplo, apontam para uma fragilidade que não se resolve sem decisão política clara.

A tensão se intensifica quando atravessada pela dimensão tecnológica. A crescente centralidade de infraestruturas digitais estrangeiras e o avanço de sistemas baseados em inteligência artificial colocam a preservação em uma zona ainda mais sensível, em que soberania de dados, controle de acervos e integridade das imagens passam a depender de escolhas que extrapolam o campo cultural. Preservar, nesse cenário, implica também disputar autonomia.
Ao mesmo tempo, as cartas evidenciam que essa disputa não se limita aos arquivos. Ela se estende à formação de público e à educação, ao apontar a ausência do cinema como linguagem estruturante nos currículos escolares. Sem políticas que garantam o aprendizado do olhar, a preservação se esvazia, pois imagens guardadas, mas não compreendidas, permanecem inacessíveis em outro nível.
Assim, preservar deixa de ser um gesto técnico e se afirma como ato político em sentido amplo. Decidir o que permanece, como permanece e para quem permanece é, inevitavelmente, tomar posição sobre o passado e o futuro de um país. Ao colocar essas questões em circulação, as Cartas de Ouro Preto não apenas registram demandas do setor, mas expõem a dimensão estratégica da memória audiovisual em um momento em que escolhas políticas podem redefinir suas condições de existência.



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