top of page

Cumulonimbus: a energia de resgatar e mudar

Foto do escritor: Revista Curió
Revista Curió
há 10 minutos
5 min de leitura

Novo álbum de MC Rashid retoma sonoridade e temáticas do início da carreira, cobertas por uma camada mais madura, mas igualmente impactante


Por Ana Clara Moreira

Colaboração de Gabriela Resende e Vinícius Bozzi

Última atualização: 21/10/2026


Foto: Renato Nascimento
Foto: Renato Nascimento

Fiquei um tempão pensando em como construir esse texto. Sentei pra começar, mas parecia que tinha alguma coisa me bloqueando. Aí parei, deitei na minha cama e dei play no álbum que me fez sair de Belo Horizonte e ir pra São Paulo ver o show do Rashid, um dos artistas que eu mais ouço e admiro desde, sei lá… 2011?


Ouvir Cumulonimbus depois do show do dia 17 foi ainda mais especial e me fez sentir um monte de coisas. Ouvir de novo as faixas que escutei ao vivo uns dias atrás me fez entender que não cabia um texto jornalístico quadradão que nem eu me acostumei nos últimos anos. Talvez aí esteja o maior triunfo desse álbum: voltar – e nos levar juntos de volta – pra um lugar que é, ao mesmo tempo, confortável e incômodo, reflexivo e convidativo.


E foi justamente por aí que começou a entrevista exclusiva concedida pelo Rashid à Revista Curió: depois de um período passeando por outros lugares, em Cumulonimbus o rapper volta às raízes, como uma forma de saciar o que ele mesmo classifica como uma “fome de rima” e uma realização pessoal.


“Acho que primeiro tem a coisa da realização pessoal. A gente fez tanta coisa, andou por tantos lugares, tive a oportunidade de fazer música com tanta gente. No meu disco anterior tem uma música com o Péricles… Sabe aquela coisa de ‘se eu parasse, já tava tudo certo’? Mas tem uma fome, tenho muitas coisas pra falar, tenho muito o que provar, nem que seja para mim mesmo. Então essa coisa, essa fome da rima, ela continua mexendo comigo. Tem uma paixão, ao mesmo tempo que tem uma urgência, uma necessidade de falar de determinadas coisas. Essa paixão pela rima nunca foi embora. Sempre fui um rimador. Mas é isso. A gente estava passeando por outros lugares, experimentando, fazendo parcerias. E aí agora foi meio que a hora de voltar para casa e botar a casa em ordem”, afirma o artista.


Reencontros


Tanto no álbum quanto no show, Rashid reencontra a intensidade das rimas e a urgência de falar sobre questões que atravessam a sociedade. O resultado é um trabalho que combina reflexão, crítica social e o reencontro com uma sonoridade que sempre acompanhou a história dele.


“Cumulonimbus vem depois de um disco em que eu retrato muito um momento diferente da vida, a paternidade, uma outra coisa, olhando para um outro lugar do mundo. E aí eu acho que, naturalmente, essa lacuna começa a ficar mais evidente. Então, eu acho que Cumulonimbus vai com todo esse peso, vai nessa direção de preencher esse lugar, essa necessidade de falar determinadas coisas que eu fui sentindo também nos últimos tempos”, destaca Rashid.


Com ingressos esgotados, a apresentação de Cumulonimbus na Casa Natura Musical fez jus ao título do álbum: uma reunião de pessoas com energia suficiente para causar uma tempestade. No palco, Rashid comandou a noite ao lado de dois DJs e da voz marcante de Aya, além das participações de Kamau e Projota, e da cenografia marcante com a presença de um Chevette – carro que faz parte da identidade visual do álbum.


Foto: Renato Nascimento
Foto: Renato Nascimento

Na faixa Ouro, Mirra e Incenso (uma das mais emocionantes do álbum e do show, na minha opinião), gravada junto de Emicida e Projota, Rashid reedita a reunião dos “três temores” com a mesma vivacidade e intensidade de Nova Ordem (2011), acrescida de uma camada de maturidade – pessoal e artística – naturalmente adquirida pelos artistas ao longo dos anos.


Saindo da caixinha de jornalista e entrando um pouco mais na de fã, perguntei sobre os encontros dos três, mencionando que eles tem poucas músicas gravadas juntos. “A gente tem pouca música junto porque a gente não tem vergonha na cara, né? A gente se encontra para fazer churrasco, para ver televisão, para ver filme, para ver jogo. E eu também acho que a gente tem pouca música. Eu sei que não foi uma reclamação, mas da minha parte é uma reclamação”, brinca Rashid.


Ainda sobre a parceria entre Michel, Leandro e Tiago, o rapper afirma que “as nossas visões, elas realmente se completam. Por isso que é tão legal quando a gente se encontra. E eu espero que a gente possa se encontrar cada vez mais. Fazer mais coisas juntos e participar um da coisa do outro, dar pitaco. Porque também tem isso, né? Não necessariamente todas as participações são evidentes. Às vezes a gente só fala uma coisa e tal, tá nos bastidores, tá dando uma força também, que é muito importante sempre”.


O rap nunca se acovardou


Em meio a uma acirrada disputa de eleições presidenciais no Brasil, o segundo show da turnê Cumulonimbus foi também uma declaração firme de que o rap não se cala, especialmente em momentos em que os nossos precisam ser vistos e ouvidos. Com afirmações incisivas e acaloradas durante o show em São Paulo, Rashid reforçou o papel da cultura hip-hop na defesa da democracia, da soberania nacional, e, sobretudo, das periferias.


Durante a entrevista concedida à Curió, ele destacou que “as pessoas se confundem de acharem que o rap ser anti-sistema significa que o rap é isento. O rap nunca se acovardou, nunca houve nada do tipo ‘silêncio agora, rapaziada, vamos deixar tudo acontecer, daqui a pouco nós volta’. Muito pelo contrário. Sempre foi uma postura de muito ataque. A gente tem histórico, inclusive, de artistas serem presos por suas opiniões, que inclusive não são crimes como gente que comete racismo o tempo inteiro na internet e na rua, e não paga por isso. Esse é o lugar, esse é o nível de enfrentamento da cultura que a gente vive. Então não confunda ser anti-sistema com ser isento. E o momento, agora, exige sabedoria, estratégia. Porque o que está do outro lado representa uma ameaça muito grande para o nosso país, pra tudo aquilo que a gente avançou enquanto sociedade”.


Foto: Renato Nascimento
Foto: Renato Nascimento

Para Rashid, o rap continua sendo um espaço de enfrentamento, mas também de transformação. Ao falar sobre racismo, desigualdade e os caminhos da sociedade, o artista reafirma que a música não precisa oferecer respostas definitivas para provocar mudanças.


“A posição do artista é sempre muito doida, porque você tira uma foto, né? Você tira uma foto e espera que ela mude o cenário. É meio que uma coisa assim que a gente faz. Então você reporta algo, você coloca ali a sua emoção. Não necessariamente sempre a sua opinião está lá. Muitas vezes você só pinta o cenário e deixa que as pessoas tirem suas próprias conclusões. No momento em que a pessoa para, que ela tira essa uma hora para escutar o disco, isso vai provocando determinadas emoções e reflexões. E eu acredito piamente que assim a gente vai conseguir mudar alguma coisinha. Porque foi assim que a minha vida mudou. A vida dos meus irmãos, dessas pessoas todas que estão no meu álbum, dessas pessoas que vem aqui hoje me assistir”, destaca o rapper.


É nessa possibilidade de mobilizar ideias, despertar incômodos e aproximar pessoas que Cumulonimbus encontra sua força: ao olhar para as raízes sem necessariamente se prender ao passado, transformando a experiência acumulada ao longo dos anos em novas formas de dizer, questionar e resistir.


Ao sair da Casa Natura Musical no último sábado, tive a sensação de que a tempestade anunciada pelo título não se limita ao peso das batidas ou à intensidade das rimas. Ela está também na energia compartilhada entre palco e plateia, na memória afetiva de quem acompanha essa trajetória e na urgência de continuar falando quando o silêncio parece mais conveniente.

Comentários


bottom of page