Entre a arte e a métrica: o dilema da busca pelo sentido da música na era digital
Entre a expressão cultural e a busca por engajamento nas redes, o artista Kaike e produtores Thiago e Henrique discutem sobre como a indústria da música equilibra arte, algoritmos e lucratividade.
Por Pedro Almeida
Última atualização: 28/10/2026

Da esquerda para a direita: registro da faixa “Ain’t In LA”, da cantora Adéla, na plataforma Spotify; sala principal do estúdio de gravação Frango no Bafo, em Belo Horizonte; e apresentação da banda Lagum em Lagoa Santa (MG) - foto: Pedro Almeida.
Há muito tempo vem sendo discutido o conceito de musicalidade e autenticidade no mercado composto pelas gravadoras e empresas de entretenimento. Os fãs e críticos sempre fazem uma avaliação do que é posto à venda no streaming das plataformas de música e podcast.
Uma grande discussão entre os fãs de música nas mídias sociais questiona: quando um artista produz uma música com algum significado ou sentimento? E quando isso é feito com um fim comercial, a música ainda é capaz de trazer algo verdadeiramente significativo?
É compreensivo buscarmos significado e nos apegarmos a estilos e artistas diferentes. Músicos têm se destacado com uma sonoridade e estética próprias, muitos deles se reinventando a cada lançamento.
Para entender como essa busca por fórmulas e tecnologias afeta quem está nos palcos, o cantor Kaike relata as suas vivências no cenário atual.

Artista KAIKE no palco - foto:Flávio Charchar
“Acreditamos que antes de tudo o mais importante seria entender o impacto que o uso das IAs e demais tecnologias têm sobre o trabalho e veracidade de um músico. O uso das ferramentas de tecnologia artificial representa uma ameaça extrema à maneira como um artista consegue se expressar”, afirma. Para Kaike, não existe um meio-termo para isso, a composição de uma música significa muito mais que juntar palavras que rimam em uma frase. Faz parte de uma fórmula primordial pelo qual um músico expressa seus verdadeiros sentimentos, não por palavras comuns, mas por uma linguagem única que exige autenticidade para ser considerada arte.
E essa é uma preocupação sentida por todas as áreas, causando um medo que é verídico para os músicos, sobre isso KAIKE relata o seguinte.
“Me preocupa também o impacto que isso causa na nossa criatividade, mas não quero me estender muito nisso. No fim, IA não tem sentimentos. Ela nunca vai entender a sensação de ouvir uma música à noite e chorar no banho Como a gente pode confiar nisso?.”
Mas sabemos que um artista não constrói sua história inteira sozinho, para o seu sucesso e prestígio acontecer é necessário um trabalho e investimento de várias pessoas juntas, e nisso entram os estúdios de gravação e produtores musicais.
Sediado em Belo Horizonte e com mais de duas décadas de trajetória, o estúdio Frango no Bafo é referência na produção da música independente, acumulando trabalhos com nomes de peso que vão do rock à MPB.
Por abrigar tanta riqueza e histórias, o lugar se transformou em um ponto central entre a tradição do Clube da Esquina e a agitada cena cultural de BH.
Nos bastidores atuam aqueles que de fato fazem a música acontecer, que constroem seus arranjos e transformam em arte aquilo que foi construído com palavras, o produtor do estúdio de gravação Frango no bafo, Thiago Corrêa e Henrique Matheus nos relatam o seguinte.

Thiago Corrêa e Henrique Matheus, produtores musicais do Estúdio Frango no Bafo - foto: Pedro Almeida
Segundo eles um dos maiores desafios encontrados na produção de uma música, é desvendar o que o artista está querendo criar naquele momento, “toda pessoa já vem com uma certa bagagem e experiência pessoal, que são características ligadas a que tipo de melodia que vai ser criada”
Para eles, existe uma facilidade maior em se trabalhar com artistas mais experientes, pelo fato de terem uma certa noção sobre termos técnicos, referências e sonoridade. Já para aquelas pessoas que estão começando a trilhar o seu caminho musical, o percurso é um pouco mais longo, porque é nesse ponto exato que o trabalho de um produtor musical se torna extremamente fundamental, já que ele irá guiar todo o processo criativo para que assim nasça uma única canção, entender o que o outro quer e trazer essa essência para fora, foi como Thiago definiu.
Toda música produzida conta como uma experiência a mais de sonorização e acervo pessoal para as mentes desses produtores, sobre isso eles nos contaram o seguinte,
“ É um estilo, um nicho diferente do que a gente está acostumado a lidar, porque não tem jeito de uma pessoa abarcar tudo. Mas o produtor musical, principalmente o nosso perfil, a gente é procurado pra fazer vários tipos de propostas.”
As novas gerações estão se movimentando e trazendo algo de novo para a música, isso se torna uma característica positiva, segundo nossos produtores, o aprendizado que chega auxilia a renovar seus repertórios enquanto músicos.
A experimentação de novos ritmos e estilos traz algo interessante. Segundo eles existe uma repetição de padrões: muito do que se é criado e desenvolvido pode remeter a algo já consolidado, como Lady Gaga, Madonna, etc. Para eles, por mais que aquilo seja uma coisa totalmente nova, existe uma ligação daquilo que o artista pretende fazer, com aquele som tão único criado por cada cantor de sucesso.
Sobre o impacto da IA em seu trabalho, Thiago e Henrique nos trouxeram a seguinte questão: se considerarmos as métricas, do algoritmo e redes como Instagram e Tiktok, bem como o nível de atenção dos ouvintes que constantemente buscam por conteúdos mais rápidos e compactos, isso se reflete diretamente na música e no trabalho dos artistas e produtores.
“Ela tem que ser curta, repetitiva. Os padrões de produção também mudaram.”
“Era uma música construída ali por um autor,na voz, violão ou piano,que fosse o instrumento dele,ele ia construindo, fazia ali uma canção, a coisa que ia levando ele dá inspiração, e ele chegava naquilo,mostrava essa canção, essa canção ia ser depois produzida.”
“As canções foram ficando mais repetitivas com o passar do tempo, elas não contam mais uma história”, segundo Thiago, o Hook se tornou aquilo que é mais valorizado e reproduzido atualmente.
(O Hook se trata de um trecho curto, cativante e repetitivo projetado para prender a atenção do ouvinte e fazer a música ficar gravada na mente.)
Por isso as produções passaram a ficar mais idênticas, neutras, sem uma identidade forte. Nesse sentido muito profundo, as mídias sociais desempenharam um papel fundamental: a lógica algorítmica fez com que a música deixasse de ser algo para ser apreciado. Segundo eles, a música se tornou um pano de fundo para uma realidade que vive apenas das aparências.


Espaços onde ocorrem as gravações e produções no estúdio - foto: Pedro Almeida



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