(CRÍTICA) Kokuho: o preço da perfeição
- Revista Curió
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Ambientado no tradicional teatro japonês, longa explora os sacrifícios e consequências exigidos para se encaixar em uma estrutura implacável
Por: Ana Clara Moreira e João Pedro Ribeiro
Última atualização: 05/03/2026

A trajetória para se tornar uma lenda é o fio que conduz Kokuho: o preço da perfeição (2025). Indicado ao Oscar na categoria de Melhor Maquiagem e Penteado, o longa japonês conta a história de Kikuo, jovem que testemunha o assassinato do pai pela yakuza, e, para fugir do passado violento, é acolhido pelo lendário ator de kabuki Hanai Hanjiro II. Rebatizado como Toichiro, ele passa a treinar ao lado de Shunsuke, herdeiro natural da tradicional casa Tanba-ya, em uma relação marcada por afeto, rivalidade e rigor absoluto na busca pela perfeição artística.
Dirigido por Lee Sang-il e baseado no romance de Shuichi Yoshida, o drama de época mergulha nos bastidores do teatro tradicional japonês para explorar temas como herança, identidade, pertencimento e ambição, fortemente presentes na busca pela excelência artística.
Desde os primeiros minutos, Kokuho estabelece um tom contemplativo. A direção privilegia enquadramentos elegantes e uma fotografia que contrasta a opulência dos figurinos com a solidão silenciosa dos camarins. O palco é mostrado como espaço de transcendência; os bastidores, como território de rivalidade e fragilidade emocional. Essa dualidade sustenta o conflito central da trama: a tensão entre talento inato e linhagem, tema especialmente potente dentro de uma arte historicamente transmitida por dinastias.

Balanceando estes elementos de maneira delicada, mas convincente, o filme evita classificar os personagens como heróis ou vilões, mas opta por retratá-los como produtos de uma estrutura rígida, quase implacável. Há uma crítica sutil ao elitismo artístico, mas também um respeito evidente pela tradição. Kokuho não pretende, portanto, desmontar o sistema, mas questionar o custo humano de mantê-lo.
É principalmente neste aspecto que Kokuho promove um mergulho em uma parte importante da cultura japonesa. As performances em tela são contidas e precisas, refletindo a disciplina própria do teatro kabuki. Nos momentos em que a narrativa desacelera, o espectador é convidado a observar gestos mínimos, silêncios prolongados e olhares que dizem mais que diálogos. Para alguns, o ritmo pode soar excessivamente lento; para outros, é justamente essa cadência que permite absorver o peso emocional da história.
Como característico de histórias envolvendo artistas, um tópico central são os paralelos entre a vida profissional e pessoal dos personagens. Kikuo potencializa um dilema vivido por aqueles que não tem lugar garantido por laços sanguíneos – o de colocar o sucesso de sua carreira acima de qualquer outra coisa. Esse caminho destrutivo (com ele mesmo e todos aqueles que o cercam) contrasta com a trajetória do herdeiro Shunsuke, que mesmo negando e fugindo constantemente do que lhe foi designado, ainda tem um espaço reservado para quando for de seu interesse.

No entanto, uma temática que aparenta passar despercebida pelo filme – mas que reflete diretamente como a própria sociedade japonesa lida com a questão – refere-se à conexão dos atores kabuki com os personagens por eles interpretados. Tanto mestres quanto aprendizes são onnagatas, termo designado para os intérpretes de papéis femininos, já que as mulheres eram proibidas de participar da prática artística para evitar “subversões”.
Todo o treinamento e dedicação dos atores se volta para como retratar adequadamente as figuras femininas representadas nas histórias, que transitam desde deusas até as conhecidas gueixas japonesas. Entretanto, é notável como as próprias mulheres inseridas na trama são sempre utilizadas como “trampolins” para os objetivos dos homens.
O longa-metragem também atua como uma interessante exposição sobre as diferenças de expectativas e performances de gênero entre ocidente e oriente. Longe de propor um absoluto moral, cabe apenas ressaltar que essas dinâmicas de exclusão feminina da arte e da naturalidade com que os próprios homens podem assumir esses papeis na sociedade escancara a complexidade inerente a essas discussões – seja pelo que é parecido, seja pelo que é diferente.
No desenrolar da história, o peso simbólico do título ganha destaque – em tradução, Kokuho significa algo como “tesouro nacional”. No Japão, a expressão costuma designar artistas que atingem um grau tão elevado de excelência que passam a ser vistos como patrimônio cultural vivo, guardiões de uma tradição que ultrapassa o indivíduo.

Para Kikuo, tornar-se esse “tesouro” significa muito mais do que reconhecimento público: é a validação definitiva da própria existência em um sistema que, desde o início, o colocou como intruso. Sem o amparo da linhagem, a trajetória dele é construída exclusivamente sobre disciplina, sacrifício e uma devoção quase absoluta ao palco. O que começa como a fuga de um passado violento transforma-se, pouco a pouco, em uma busca obstinada por pertencimento, enquanto a consagração artística surge como a única forma possível de legitimar a presença dentro daquela tradição.
O roteiro parece, portanto, recompensar justamente a abdicação pessoal que define o protagonista. Ao longo da narrativa, Kikuo abre mão de relações afetivas, estabilidade emocional e até de uma identidade fora do teatro, moldando toda a vida em função da perfeição artística. A consagração final não surge como um triunfo simples, mas como o resultado inevitável de uma trajetória marcada por perdas silenciosas.
Ao mesmo tempo em que o filme reconhece o custo humano desta dedicação extrema, ele também sugere que apenas por meio desse sacrifício total é possível alcançar o status de “tesouro nacional”. Assim, Kokuho encerra sua história reforçando a ideia de que, dentro daquele universo rígido e hierárquico, a grandeza artística nasce justamente da disposição de desaparecer enquanto indivíduo para sobreviver como tradição – reflexo direto das consequências positivas e negativas de uma sociedade que prioriza o coletivo acima de tudo.
Nota: 3,5/5



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