CRÍTICA: Marty Supreme (2025)
- Revista Curió
- 15 de jan.
- 4 min de leitura
Atualizado: 16 de jan.
O novo projeto do astro Thimothée Chalamet nos joga dentro do universo caótico do cineasta Josh Safdie
Por: Gabriel Monteiro e Vitor Pepino

Após uma icônica parceria na direção que resultou na criação de uma linguagem própria e em múltiplos clássicos modernos do cinema norte-americano, vide Bom Comportamento (2017) e Joias Brutas (2019), no início de 2024 os irmãos Josh e Benny Safdie anunciaram que iriam, pela primeira vez, trabalhar em projetos separadamente. Esse processo, descrito por eles como “natural” e “amigável”, dá vida a dois novos longas emblemáticos.
Da parte de Benny, nasceu Coração de Lutador: The Smashing Machine (2025), que levou o ator e ex-lutador Dwayne “The Rock” Johnson a ser indicado ao Globo de Ouro em seu primeiro papel verdadeiramente dramático na carreira. Já do lado de Josh, surge um fenômeno cultural encabeçado pelo ator que é considerado por muitos como o principal nome da atual geração de Hollywood, Timothée Chalamet, ao personificar seu desejo de solidificar seu legado ao incorporal o obstinado atleta Marty Mauser, inspirado no norte-americano pentacampeão Marty Reisman.

Vendedor hábil em uma loja de sapatos na Nova York dos anos 50, Marty Mauser tinha tudo para ser apenas mais um jovem de origem simples com um sonho inalcançável, mas carregando sua enorme paixão e implacável habilidade no tênis de mesa – somado a um caráter de imprevisibilidade e zero sensatez –, o protagonista do longa vive apenas em função de conquistar o mundo através do esporte. O teimoso nova-iorquino com descendência judia é capaz de tudo para provar aquilo que já é certo em seu coração – mesmo que para isso tenha que mentir, roubar, driblar, fugir, brigar, chantagear e até mesmo humilhar aos outros e a si mesmo.
Em Marty Supreme, Josh Safdie representa a sua paixão pelo frenesi, inquietação, caos e imprevisibilidade, marcas registradas de seus longas já citados que foram produzidos junto de seu irmão. A progressão da jornada de Marty se desdobra em ritmo incansável, conforme obstáculos são vencidos na mesma constância (se não ainda maior) em que novos problemas ainda maiores e mais complexos surgem, graças às atitudes falhas e impulsivas dos personagens.
Diferentemente do que pode-se esperar, o longa não busca se encaixar nos padrões de uma história voltada para o esporte, apesar das intensas sequências de tênis de mesa serem essenciais para alimentar nossa crença na paixão que domina o protagonista. Na verdade, o filme pode ser melhor definido como uma grande crônica de desventuras e reviravoltas – um estudo de personagem cujo principal objetivo é apresentar à sua audiência, gradativamente, mas sem floreios, tudo aquilo que define e justifica a figura de Marty Mauser.
Do início ao fim, Marty Supreme explora justamente a benção e a condenação que é ser carregado por um sonho. Não há orgulho ou decepção suficientes que façam Mauser pensar minimamente em desistir de sua busca e o questionamento de até quando vale a pena perseguir esse desejo é esticado ao máximo no decorrer da história, sem jamais perder o senso de urgência ou o interesse do público. Uma junção de idealista e oportunista, o caótico mesatenista tira proveito de tudo que é mais próximo a ele e, como um furacão, deixa rastros da sua desordem por onde passa.

Para trazer toda essa ambientação de tirar o fôlego, a obra conta com o diretor de fotografia Darius Khondji (Se7en – Os Sete Crimes Capitais), o diretor de arte Jack Fisk (Sangue Negro), a figurinista Miyako Bellizzi e o compositor Daniel “Oneohtrix Point Never” Lopatin. Com uma trilha sonora impecável, a escolha das músicas da época no estilo new wave dos anos 80 e pós punk, trazem junto consigo as composições, um fluxo acelerado e a sensação de ansiedade com a sucessão dos eventos.
Ao lado de Chalamet, o resto do elenco cumpre papel essencial ao servirem como um espelho para as principais características de Marty e também para transmitir, por meio de diferentes frentes, a instabilidade que conduz todo o universo do filme. Os principais destaques vão para a dupla de personagens impecavelmente interpretadas pelas atrizes Gwyneth Paltrow e Odessa A’Zion que, mesmo estando em situações e momentos muito diferentes na vida, apresentam um certo grau de “normalidade” ou “estabilidade” quando comparadas a Mauser. Contudo, é no desenrolar de suas relações com o protagonista que elas nos revelam suas crises pessoais e ambições adormecidas, afastando as atitudes e a figura de Marty de serem lidas como algo incompreensível diante de toda intensidade ao seu redor.
Vale também uma menção à atuação de Tyler Okonma, popularmente conhecido como o músico “Tyler, The Creator”, que aqui entrega de forma crível e carismática sua primeira participação em um longa-metragem. Ainda, Kevin O’Leary, integrante do famoso do Shark Tank dos Estados Unidos, também se destaca ao interpretar um magnata sádico no tom perfeito para a trama, que se aproveita de Marty ao ver que o jovem faria qualquer coisa por seu sonho.

Mas é evidente que o brilho da obra recai na atuação de Timothée – inegavelmente, uma das mais sólidas de sua carreira. O papel cai como uma luva não apenas pelo talento e dedicação, mas também - traçando um paralelo com seu personagem - pela busca incansável que o ator tem em cumprir sua realização pessoal: vencer um Oscar. Assim como em Um Completo Desconhecido (2024), Chalamet aciona a autoconfiança, flerta constantemente com a arrogância e, na necessidade de provar o seu valor, acaba humanizando um de seus personagens mais possivelmente detestáveis e faz com que o espectador torça para ele a todo momento, uma busca pelo alívio do caos através da vitória do protagonista.
No fim das contas, Josh Safdie, assim como é comum em suas histórias, não vai suprir expectativas convencionais e colocar Marty no topo da forma que ele inicialmente planejava. Após toda a sua jornada, o que ele ganha não são glórias, dinheiro ou uma posição de respeito, mas sim aquilo que se mostra ser mais importante para a personagem e para que nós, como espectadores, possamos entender sua verdade: o auto-reconhecimento. Afinal, o jovem finalmente prova que ele é um campeão a quem ele mais respeita – ele mesmo. Passado esse conflito, Marty encerra o longa podendo olhar para as outras áreas de sua vida com novos olhos, representando o início de um novo ciclo.
Nota: 4,5/5



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