CRÍTICA: O Último Episódio
- Revista Curió
- 8 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Novo longa da Filmes de Plástico transforma lembranças de um bairro de Contagem em manifesto sobre o tempo, o afeto e o apagamento da periferia
Por Lara Gomes e Pedro Fraga
Última atualização: 08/10/2025

A produtora mineira Filmes de Plástico se tornou símbolo de um novo cinema brasileiro: afetivo, político e profundamente enraizado na vida cotidiana. Nascida em Contagem, ela ganhou projeção internacional com Marte Um (2022), escolhido para representar o Brasil no Oscar 2023. Mesmo com André Novais como um nome consagrado dentro do cinema nacional, o cinema mineiro transformava o cotidiano da periferia em narrativa universal, criando um novo imaginário local através do cinema.
Quando a infância mineira vira cinema
Depois de André Novais e Gabriel Martins, chegou a vez de Maurílio Martins assumir o protagonismo, agora em seu primeiro longa solo, O Último Episódio (2025). O trabalho do diretor reafirma a potência da produtora e amplia o alcance do cinema produzido em Contagem com uma história sobre amizade, nostalgia e relação com o território.

O Último Episódio se ambienta na Contagem de 1991, no bairro Jardim Laguna. Entre referências a R.E.M. e Xuxa, a trama segue a história de Erik (Matheus Sampaio), um garoto de 13 anos que, pela primeira vez apaixonado, mente para uma garota no colégio ao dizer que possuía a fita cassete do último episódio da série animada Caverna do Dragão (1983-1985). A partir do mistério de um episódio que sequer existiu, Maurílio Martins encontra caminho para um discurso nostálgico sobre o lugar que cresceu enquanto aborda vivências e transformações da sociedade perante uma realidade capitalista.
Por meio da vivência da própria juventude contagense, o diretor constrói ar lúdico e nostálgico dos anos 90 com apoio da minuciosa direção de arte comandada por Mariana Souto. Em coletiva de imprensa que a Curió participou, Maurílio fala como mesmo que a história de Erik não seja a sua, os traços biográficos acompanham o filme, seja no protagonista ou até mesmo em seus amigos presentes na narrativa. Aqui, a tela de cinema se torna um tempo compartilhável, onde o espectador é atravessado por cada elemento visual que diz de um tempo e de uma experiência coletiva.
Todo elemento da direção de arte se torna combustível para exaltar a cultura e os grandes hits da época, combustível esse que se une às experiências cotidianas para construir significados e representar uma vivência comumente brasileira. Seja através da trilha sonora, assinada por John Ulhoa e Richard Neves, com participação de Fernanda Takai, ou dos aparelhos tecnológicos da época (que em alguns casos saíram do arquivo do próprio diretor), todo elemento visual opera ali para a construção de narrativa.

Na obra, Erik vive ao lado de sua mãe Milene (Camila Morena) em uma casa simples no Jardim Laguna, onde convive com seus dois melhores amigos: Cristiane (Tatiane Costa), apelidada de Cristão, e Cassinho (Daniel Victor). O drama ganha profundidade diante da figura do pai de Erik, Vilmar (Daniel Jaber), que mesmo tendo falecido anos antes, continua sendo, ao mesmo tempo, uma referência e um enigma para o garoto. Ao mesmo tempo, sua ausência pesa no cotidiano da mãe, que, sobrecarregada por longas jornadas de trabalho, tenta sustentar a casa sozinha, enquanto o garoto encontra em suas amizades o amparo que falta dentro de casa.
Com proposta lúdica em sua premissa, mesclada com choques de traumas de laços familiares complexos, O Último Episódio se mostra um conto de fadas da vida real, o coming-of-age da realidade de um país e de uma juventude renegada em sua totalidade. O ar lúdico sempre traz ares mais leves para a trama, mas isso não leva a obra a subestimar o espectador.
Entre lembranças, histórias e afetos
Por mais que seja ambientado nos anos 90, a obra fala muito sobre o espaço e tempo em que o filme foi feito. O filme é, sobretudo, sobre os laços que estão em constante resistência perante à um sistema que se fortalece sem se preocupar em como as pessoas serão afetadas por ele.

A lenda sobre o suposto episódio final de Caverna do Dragão serve como ponto de partida para o filme e revela muito sobre a imaginação coletiva de uma geração. Nos anos 1990, em meio à escassez de informações e à magia das videolocadoras, o fim nunca exibido da série animada alimentou teorias, boatos e invenções. Em O Último Episódio, Maurílio Martins transforma essa ausência em motor narrativo: é a partir da mentira de Erik, e da necessidade de materializar o que não existe, que o filme encontra sua força simbólica. O que poderia ser apenas uma aventura infantil torna-se uma reflexão sobre o poder da memória, sobre como inventamos histórias para preencher as lacunas do que nos falta, sejam episódios perdidos, sejam pedaços da infância.
Essa invenção do passado atravessa o filme e se confunde com o próprio gesto de Maurílio ao revisitar o bairro Laguna, em Contagem. O diretor transforma seu território em arquivo, reconstruindo visualmente uma geografia que já não existe da mesma forma. Entre as ruas que fazem parte da sua vida cotidiana, Maurílio cria um cinema que resiste ao apagamento da periferia, um espaço onde o progresso, muitas vezes, se mede pela substituição do antigo pelo novo. “O filme é um manifesto sobre memória periférica, só que costurado por um cinema universal, por isso minha memória percorre o filme, e ele se torna quase um filme etnográfico”, diz Maurílio, e é verdade: O Último Episódio carrega o gesto etnográfico de quem filma para preservar e transforma a experiência cotidiana em mito. É um filme sobre permanecer nas lembranças, nos afetos e nas histórias que insistem em ser contadas.
Vá ao cinema!
O filme de Maurílio Martins conta com distribuição da Embaúba Filmes e da Malute Filmes, nova distribuidora fundada pela Filmes de Plástico. O Último Episódio chega aos cinemas no dia 09 de outubro para encantar quem se identifica e quem quer conhecer esse universo mineiro.



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