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Diretora de 'Party Girl' relembra os 30 anos do clássico cult que abriu caminho para a era digital do cinema

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    Revista Curió
  • 3 de jun. de 2025
  • 9 min de leitura

Em conversa com a Curió, Daisy Von Scherler Mayer falou sobre o processo de concepção do filme e deu dicas para novos cineastas


Por: Carlos Eduardo Ortega

Última atualização: 03/06


Fonte: MUBI/Reprodução
Fonte: MUBI/Reprodução

Em 3 de junho de 1995, cerca de seis meses após sua exibição no Festival de Sundance (EUA), uma pequena produção independente entrou para a história ao se tornar o primeiro filme a estrear integralmente na internet. Escrito e dirigido por Daisy Von Scherler Mayer e estrelado por Parker Posey, então com 26 anos e ainda longe do reconhecimento que viria a ter em grandes produções, Party Girl (traduzido para Baladas em NY aqui no Brasil) não foi um sucesso imediato, mas recentemente conquistou seu espaço no panteão de clássicos cult dos anos 1990.


O filme acompanha Mary, uma jovem nova-iorquina, obcecada por festas e moda, que se vê obrigada a trabalhar como bibliotecária após ser presa organizando uma rave clandestina e ter a fiança paga por sua tia. Nas palavras de Von Scherler Mayer, "um dos nossos objetivos era fazer um filme em que o arco completo da personagem fosse tentar conseguir um emprego, em vez de tentar conquistar um homem". 


Ao longo da história, Mary se relaciona com personagens que raramente ocupam o centro das narrativas no cinema comercial  — DJs da noite, imigrantes vendedores de faláfel, drag queens e, sobretudo, bibliotecários. A premissa, aparentemente simples, encontrou seu público e entrou para o vocabulário dos amantes de cinema não apenas pela trilha sonora contagiante, figurinos icônicos e diálogos memoráveis, mas principalmente por capturar com autenticidade a cena queer underground de uma Nova Iorque que já não existe mais – desde a explosão da cultura clubber, à moda alternativa e a liberdade sexual que definiram uma geração.


Fonte: The Frida Cinema/Reprodução
Fonte: The Frida Cinema/Reprodução

Após anos fora de circulação — com apenas algumas cópias de má qualidade ainda disponíveis —, o filme foi restaurado em 2022 e, logo em seguida, ganhou nova visibilidade ao entrar para o catálogo da Criterion, empresa estadunidense especializada no licenciamento, restauração e distribuição de filmes clássicos. O interesse pelo longa também aumentou com a participação aclamada de Parker Posey na terceira temporada da série The White Lotus, lançada em 2025. 


Aproveitando esse novo momento de atenção e o aniversário de três décadas de Party Girl, a Curió conversou com a diretora Daisy Von Scherler Mayer para revisitar a produção do filme – desde sua concepção, passando por seu lançamento no Festival de Sundance, sua estreia pioneira na internet e até o legado duradouro que continua inspirando cineastas 30 anos depois.


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CURIÓ: Como surgiu a ideia de lançar o filme na internet? Vocês já tinham esse interesse desde o início da produção?


MAYER: Então, a gente fez o filme com muito pouco dinheiro, que levantamos por conta própria. Com isso, conseguimos filmar o longa, mas não tínhamos como finalizá-lo. Mostramos o filme em sessões privadas para várias distribuidoras, na esperança de que alguma topasse bancar a finalização. Já tínhamos gasto uns 150 mil dólares, mas precisávamos de mais 350 mil para terminar tudo: som, edição, correção de cor e outras etapas. Todas disseram não. A Miramax disse não, a Fox disse não. Ninguém quis, exceto uma pequena empresa australiana chamada First Look Pictures, que já havia distribuído alguns filmes do John Sayles, um cineasta independente maravilhoso. Foi então que entrou em cena um cara chamado Ray Price, que era incrível. A ideia de apostar na internet foi dele. Ele já conhecia esse universo, era mais velho que a gente, e disse que aquilo seria uma jogada legal. A gente nem entendia o que era a internet, mas ele cuidou de tudo.


O mais curioso é que havia um outro filme, que estava para ser lançado na mesma época, totalmente focado nesse mundo dos computadores. O plano de lançamento deles era ser o primeiro a estrear na internet. E aí veio esse nosso filminho indie, sobre uma garota baladeira, e passou na frente… Mais tarde, fiquei sabendo que eles ficaram muito irritados.


CURIÓ: E como funcionou essa estreia? Imagino que a internet da época não era muito capacitada para esse tipo de transmissão em vídeo.


MAYER: Sinceramente, eu nem consegui acompanhar direito. A Parker e o Harry [Birkmayer] foram para Seattle participar do evento de lançamento. Ela estava lá, presencialmente, com o pessoal da empresa que colocaria o filme na internet. Eu fiquei em Nova York e tentei assistir à estreia online, mas travava o tempo todo e acabei desistindo.


Eu nem entendia muito bem o que estava acontecendo. Achava que computador era coisa de nerd. E acho que eles nem nos pagaram por nada. No geral, a gente recebeu pouquíssimo dinheiro por esse filme. E não digo isso com amargura. Estou muito feliz com tudo, mas quando você faz algo pequeno, sem apoio de uma produtora, você simplesmente vende, sabe?


CURIÓ: Você mencionou o Harry. Ele foi quem escreveu o filme com você. Como surgiu essa ideia? Vocês já se conheciam?


MAYER: Sim, nós éramos melhores amigos desde a faculdade. O Harry é gay e eu sou hétero, mas sinto que boa parte da longevidade do filme se deve à sua conexão com a cultura queer. E muito disso eu atribuo ao universo do Harry e ao do Bill Coleman, que supervisionou a trilha sonora. Na faculdade, eu fiz teatro. O Harry estudou cinema e disse que a gente deveria fazer um filme depois que nos formássemos. Eu respondi: “Mas eu não sei fazer filme, só sei fazer peças.” Só que as peças que eu montava eram enormes. Eu já estava acostumada com produções de grande escala, com muitos elementos, muita música, dança… Então escrevemos o filme juntos, como um projeto nosso, e criamos o papel da bibliotecária, a tia da Mary, inspirada na minha mãe. Acabamos passando muito tempo escrevendo o roteiro. Fazíamos leituras com amigos, reescrevíamos, começávamos de novo, e assim foi indo. Foi um trabalho duro.


CURIÓ: Como vocês encontraram a Parker [Posey]? Ela sempre foi a escolha óbvia para o papel?


MAYER: Eu soube desde o primeiro momento. Nossa diretora de elenco, Laura Rosenthal, foi fundamental. Ela já conhecia a Parker e disse para a gente: “Tem uma garota muito interessante que vive aparecendo nos testes. Eu sempre quero escalá-la, mas ela é interessante demais para os diretores com quem trabalho.” Quando falei com a Parker por telefone, ela disse: “Tenho 80 pares de sapatos. Eu tenho que fazer esse papel.” E eu pensei: “Nossa, eu quero que você faça esse papel. Você tem 80 pares de sapatos!”. Eu me encantei por ela.


Fonte: The Frida Cinema/Reprodução
Fonte: The Frida Cinema/Reprodução

CURIÓ: Há uma cena específica do filme em que Mary tenta cozinhar algo, mas acaba queimando a comida. Ela se joga no sofá, frustrada, e diz: “Eu vou fazer 24 anos e não conquistei nada na vida”. Era algo que você também sentia nessa idade? Você diria que colocou um pouco de si em Mary?


MAYER: Com certeza. Essa citação é muito importante para mim porque foi “roubada” de uma das minhas peças favoritas: As Três Irmãs, de Anton Tchekhov. Tem uma cena em que Irina se joga no sofá e diz: “Tenho 23 anos e não conquistei nada nesta vida.” O Tchekhov tem esse jeito genial de ser trágico e cômico ao mesmo tempo. E eu pensei: “Vou roubar essa frase.” Eu amo o quanto ela se leva a sério na própria tristeza, e isso é algo muito comum na juventude.


CURIÓ: E por que tornar Mary uma bibliotecária? Você já tinha um interesse prévio na profissão?


MAYER: Talvez. A gente estava, na real, tentando fazer um comentário sobre estereótipos femininos. Por exemplo, em A Felicidade Não Se Compra (1946), há uma cena em que o protagonista vê como a vida das pessoas ao seu redor teria sido caso ele nunca tivesse existido. Ele pergunta: “Onde está minha esposa?”, e respondem: “Ela está na biblioteca.” Como se o pior destino possível para uma mulher fosse ser solteira e bibliotecária. Por isso, um dos nossos objetivos era fazer um filme em que o arco completo da personagem fosse tentar conseguir um emprego, em vez de tentar conquistar um homem. Quer dizer, ela até consegue o cara, mas ele acaba sendo meio secundário quando comparado à descoberta da paixão dela. Também queríamos situá-la dentro de uma profissão feminina. Então pesquisamos, entrevistamos pessoas... Foi divertido.

CURIÓ: Falando em sapatos: a moda é uma presença muito importante no filme, principalmente por conta de Mary. Desde o começo, vocês sabiam que o mundo fashion teria um papel tão central?


MAYER: Eu diria que sim, principalmente por causa do universo das boates, Nova Iorque, a moda de rua... tudo isso era muito presente. Fomos atrás, de forma bem intencional, dos designers de O Banquete de Casamento (1993), do Ang Lee. Procuramos diretamente a designer de produção e o figurinista daquele filme, e insistimos. Mandamos o roteiro e seguimos atrás com determinação. Aliás, esse é um conselho que sempre dou a jovens cineastas: mire alto! Sempre! Na época, a gente lia entrevistas com outros diretores independentes, e era sempre algo como “meu amigo fez a câmera, minha mãe cozinhou, a gente fez tudo junto”. E eu pensava: por quê? Dá para fazer melhor, dá para ir além.


Michael Clancy, que acabou fazendo o figurino, não era apenas o figurinista de O Banquete de Casamento. Ele também já tinha trabalhado como porteiro em uma das maiores boates de Nova Iorque. Nosso objetivo era que o visual do filme remetesse às comédias malucas dos anos 1930, como as de Carole Lombard ou Barbara Stanwyck. Por isso, ele criou penteados no estilo dos anos 30 e montou alguns looks inspirados nessa época. Acredito que o motivo pelo qual os figurinos continuam tão atemporais seja justamente esse: nada do que ela veste estava na moda nos anos 1990. A gente não se guiou por tendências. E, sinceramente, acho seguir moda uma coisa meio chata e sem graça.


Fonte: The Frida Cinema/Reprodução
Fonte: The Frida Cinema/Reprodução

CURIÓ: É impossível falar de Party Girl sem falar de música. O filme está muito inserido nesse universo, e inclusive tem um personagem que atua como DJ. Bill [Coleman] foi responsável por toda a trilha sonora?


MAYER: Sim, inclusive diria que ele foi um dos pilares criativos do filme. Ele é DJ, jornalista, escrevia para a Billboard na época e foi quem criou a primeira parada Top 10 de músicas de pista da revista. Acho que fomos os primeiros a chamá-lo para ser supervisor musical de um filme. A gente tinha lido os textos dele e, mais uma vez, fomos atrás de alguém que admirávamos. Como Bill ainda estava entrando nesse mundo, ele recorreu aos amigos e conseguiu acordos incríveis. E ter toda essa trilha garantida antes mesmo de vender o filme fez toda a diferença. Quando fomos apresentar o projeto às distribuidoras, dissemos: “Olha, a gente já fez o trabalho por vocês. Não precisam correr atrás de música, já está tudo liberado, e é o melhor do melhor.”


CURIÓ: Aqui estamos nós, 30 anos depois… E continuamos falando sobre Party Girl. Quando fez o filme, você imaginou que ele teria essa longevidade toda?


MAYER: Sinceramente, nunca imaginei. Nem um pouco. E o lançamento do filme, na época, nem foi grande. A gente sequer ganhou prêmio no Sundance. Eu estou tão surpresa quanto qualquer um. Aliás, preciso dar o crédito à Fun City Editions, que decidiu recuperar o negativo original e fazer uma restauração em 4K. Muita gente acha que esse renascimento do filme se deve a The White Lotus [com Parker Posey] e, claro, isso ajudou. Mas a restauração teve ainda mais impacto, porque agora existe uma cópia de qualidade, que realmente pode ser assistida. A distribuidora australiana que lançou o filme, First Look, faliu. Depois disso, os direitos passaram de empresa em empresa, e eu não tinha controle algum. Nem sequer sou dona do filme. Simplesmente não dava para assisti-lo. Quem via, recorria a fita pirata ou a cópias ruins no YouTube. Agora o filme voltou a circular e conquistou um novo público.


Acho que isso também revela muito sobre como o cinema atual anda chato. A indústria passou anos produzindo filmes entediantes sobre pessoas brancas, americanas, na faixa dos trinta anos. Já vimos essa história incontáveis vezes. Se queremos ver filmes mais interessantes, também precisamos buscar os antigos que eram inovadores. Muitos deles foram feitos por mulheres ou por pessoas fora do circuito tradicional. Precisamos encontrar esses filmes, restaurá-los, divulgá-los e incentivar o uso de mídia física. Inclusive, acho que a nova geração deveria voltar a ter DVD players, assim como voltou a usar toca-discos de vinil. Só assim teremos acesso a filmes sobre pessoas realmente interessantes. No mercado de hoje, simplesmente não fazem mais esse tipo de obra.

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No Brasil, Party Girl não está disponível em plataformas de streaming. Desde seu lançamento, Daisy Von Scherler Mayer seguiu carreira como diretora de cinema e televisão. Seus trabalhos incluem os filmes Woo (1998), Madeline (1998) e episódios das séries Mad Men, The Walking Dead, Orange is the New Black e Inventing Anna.

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