Em Homem com H, Ney Matogrosso ganha cinebiografia à altura da sua genialidade
- Revista Curió
- 15 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
Na pele de Ney, Jesuíta Barbosa entrega uma das melhores atuações de sua carreira e derruba a fronteira entre ator e personagem
Por: Carlos Eduardo Ortega
Última atualização: 15/05

Produzir a cinebiografia de um artista ainda vivo traz consigo seus próprios desafios. É necessário lidar com a presença simbólica (e, por vezes, direta) do homenageado, ao mesmo tempo em que se encontra um equilíbrio delicado: respeitar a trajetória desse artista sem reduzi-lo a uma memória distante.
Diante da recepção morna de lançamentos recentes no gênero biográfico nacional — Meu Nome é Gal e Mamonas Assassinas, lançados em 2023, ambos tiveram reações mistas de crítica e público — pode-se dizer que Homem com H, filme que retrata a trajetória do cantor Ney Matogrosso, fez sua estreia nos cinemas cercado por uma mistura de curiosidade e apreensão. Felizmente, o resultado final acerta o ponto. Esmir Filho, que assina a direção e o roteiro, entrega uma obra ousada, sensível e fiel ao espírito transgressor de Ney, encabeçada por uma atuação hipnótica de Jesuíta Barbosa, que compreende o cantor não como uma caricatura a ser imitada, mas uma presença a ser sentida.
Partindo da infância e da relação de Ney com sua família, passando por sua ascensão com o Secos & Molhados e com destaque especial aos seus relacionamentos afetivos, a direção de Esmir Filho corrige um erro comum em filmes do gênero ao não tentar domar o furacão que é Ney Matogrosso. Pelo contrário, o filme se rende à expressividade e à sensualidade que sempre marcaram sua presença de palco. O resultado é tão imersivo que, ao comparar cenas originais com as recriações cinematográficas, torna-se difícil distinguir onde termina o arquivo e começa a ficção. Números como “Sangue Latino” e “Bandido Corazón” capturam com maestria a estética visual e a ousadia performática que transformaram Ney em uma superestrela.
Nesse aspecto, a presença do artista na produção contribuiu positivamente para o resultado final. Em entrevistas, é evidente o carinho e a admiração dos atores pelo homenageado, que não apenas os recebeu em sua casa, como também esteve presente em diversas gravações, compartilhando memórias e detalhes das cenas recriadas. Naturalmente, a intimidade de Ney com o elenco deságua, de forma muito clara, na atuação de Jesuíta Barbosa, já muito conhecido pelo público por seus papéis na TV, mas que aqui entrega uma das melhores performances de sua carreira.
O trabalho corporal do ator em cena é arrepiante. Do olhar magnético aos gestos no palco, Jesuíta encarna Ney Matogrosso até o último fio de cabelo. Sua entrega é tamanha que, por vezes, a linha entre ator e personagem torna-se quase invisível. Embora o elenco de apoio, como um todo, cumpra bem seu papel (alguns melhores do que outros), nenhum outro desempenho se aproxima da potência e da presença cênica do pernambucano, que carrega o filme com autoridade e sensibilidade.

Outro grande acerto do filme está na decisão de utilizar a voz original de Ney nas performances musicais, em vez de exigir que Jesuíta tentasse imitá-la. A escolha preserva a autenticidade inconfundível de uma das maiores vozes da música nacional. Ainda assim, o trabalho de Jesuíta e da equipe de produção é tão bem feito que a dublagem se dissolve em cena, tornando-se imperceptível aos olhos do espectador.
Para além da voz, seria impensável fazer um filme sobre Ney Matogrosso sem se debruçar sobre a sexualidade, elemento indissociável tanto de sua vida pessoal quanto de sua vida nos palcos. Felizmente, o longa não se censura, abordando a temática com a mesma abertura e naturalidade com que Ney sempre a viveu. As cenas íntimas são numerosas e reforçam não apenas a dimensão política de sua trajetória, como também a relevância de sua figura no presente, em tempos de crescente moralismo.
Na reta final, o filme desacelera ao voltar sua atenção para os relacionamentos afetivos de Ney. A escolha faz sentido narrativamente, mostrando o artista em uma fase mais madura, já posterior ao auge de sua carreira, mas rompe com o ritmo eletrizante que move a maior parte do roteiro. Essa mudança de tom, embora represente a própria transformação do homem por trás do artista, nos deixa com um gostinho de quero mais, mas sem jamais perder de vista a complexidade e a grandiosidade de Ney Matogrosso.
Nota: 4/5



Depois dessa crítica incrível, com certeza irei assistir ao filme! Parabéns!
Texto maravilhoso, Carlos!