Entre a cruz e a estaca: a história do Vampiro no cinema
- Revista Curió
- 8 de mai. de 2025
- 6 min de leitura
Como uma criatura sombria ou um ícone teen, essa figura conquista o coração dos espectadores nas telonas há mais de um século
Por: Laura Torres e Vitor Pepino
Última atualização: 08/05

Drácula (1931), Crepúsculo (2008) e Nosferatu (2024). Por cerca de 100 anos, o cinema tem como protagonista um ser de pele pálida e caninos afiados: o Vampiro. Poucas figuras brilham por tantas gerações e são capazes de dizer tanto sobre o contexto histórico em que estão inseridas quanto essa. Ao espelhar os medos e desejos de cada época, o mito vai desde o aterrorizante monstro até o galã sedutor, não se prendendo a um padrão.
Entre a comédia, terror e romance, não é de hoje que essas obras, assim como seus protagonistas, seduzem os espectadores e permanecem eternamente vivas no imaginário popular. Mas afinal, como as diferentes representações vampirescas foram abordadas nas telonas ao longo do tempo?
As pálidas origens
Rico, elegante, bonito e reluzente – essa é a descrição de um dos personagens mais lembrados dos longas metragens. Porém, quem vê Robert Pattinson como Edward Cullen não imagina como foi o início dessa história nas exóticas regiões dos Bálcãs. Mesmo com a palavra “Vampiro” não sendo utilizada diretamente, a lenda surge por meio de um conjunto de mitos desses locais como uma figura de dentes afiados, que só é vista à noite e se assemelha a um morcego. Nos idiomas eslavos, palavras como upyr designavam esse ser que voltava à vida para se alimentar do sangue dos vivos ou causar doenças, consumindo a força vital dessas pessoas; algo que se aproxima do conceito visto nos dias atuais.
A primeira vez que se tem registro da aparição do termo é no ano de 1732, em um jornal alemão. Naquele tempo, as publicações tratavam o assunto como um folclore vindo de diferentes culturas do Leste Europeu, mais percebido como uma superstição do que como um tema levado a sério pelos cidadãos. Aos poucos, a criatura se tornou tema de autores na poesia europeia, não se limitando a uma figura assustadora e trazendo à tona temas mais complexos, como a religião e o erotismo.
Porém, foi só em 1819 que essa história ganhou fama, com o conto “O Vampiro”, de John Polidori. Em entrevista para o Estadão, Bruno Matangrano, doutor em Letras pela USP e pesquisador sobre o tema na ficção, declara que “Polidori desloca o vampiro dos Balcãs e o coloca em Londres, local em que a criatura se torna um nobre belo e aristocrático, alguém que seduz as damas e as corrompe, o que transforma a mordida em uma metáfora sexual”.
É diante desse cenário que, em 1897, a sua representação mais popular na cultura nasce no Reino Unido. Com o romance expressionista Drácula, Bram Stoker narra uma história inspirada em Vlad, príncipe da Valáquia - atual Romênia - conhecido por empalar seus inimigos. Ainda, no folclore romeno, o termo strigoi também é utilizado para descrever um espírito reanimado que retorna do túmulo para atormentar as pessoas. Eles são criaturas frequentemente associadas a Vampiros e, em algumas culturas, a demônios e bruxas.
No enredo criado por Bram, o conde Drácula é um nobre da Transilvânia que viaja até a Inglaterra em busca de novas vítimas para saciar a sua sede por sangue. Esse desejo entra em conflito com os padrões sociais existentes na aristocracia inglesa predominante que, além de possuir receio do estrangeiro, reprimia a sexualidade da população que ali vivia.
A dentuça sétima arte
Na década de 1930, a adaptação do livro de Stoker em um filme estadunidense apresenta ao público o ator Béla Lugosi como Conde Drácula. Com seu penteado, olhar sedutor e sotaque marcante, o intérprete húngaro consolida a figura do Vampiro não apenas como um ícone do cinema de horror clássico, mas também como um sex symbol. Essa versão encantadora se distanciava das manifestações grotescas anteriores e passa a incorporar os desejos de uma sociedade em transformação, marcada pelo início de uma modernidade libidinosa que tomava forma na tela.
Mas antes mesmo dessa idealização, a primeira grande aparição da criatura se manifesta numa produção do expressionismo alemão. Com o filme Nosferatu (1922), F.W. Murnau utiliza a obra de Stoker para dar vida (e morte) ao Conde Orlok: um homem cadavérico, de orelhas pontudas, unhas longas, aparência animalesca e solitário. Lançado pós-Primeira Guerra Mundial, o clássico expressa as consequências desse momento. O medo da destruição e o temor frente ao considerado estranho são representados por essa figura ameaçadora e misteriosa que, no contexto de uma Europa em crise, não tinha nada de romântico e galanteador, tal como o Vampiro de Lugosi.
Não é exagero dizer que a história do Drácula sobrevive com destaque até hoje graças a essas diferentes interpretações e tentativas de enxergar o personagem de outras maneiras. Dentre elas, é possível mencionar Blacula, o Vampiro Negro (1972), um Drácula de artes marciais, em A Lenda dos Sete Vampiros (1974), uma versão dos anos 70, em Drácula no Mundo da Minissaia (1972), e até mesmo um Drácula que sequer aparece no filme, em As Noivas do Vampiro (1960).
Também não podemos deixar de reconhecer a importância do Conde Orlok nesse processo. Nosferatu - O vampiro da noite (1979) e A Sombra do Vampiro (2000) adicionaram novas camadas à criação de Murnau. Mais de um século depois da versão original, Nosferatu (2024) ganha outra releitura, desta vez pela lente de Robert Eggers, um dos principais nomes no terror da última década. Interpretado por Bill Skarsgård, a figura monstruosa ganha um tom de contemporaneidade, mas se mantém fiel à obra original – repulsiva, atraindo pragas e sem um pingo de piedade perante suas vítimas.
A reluzente nova geração
Se, ao longo do século XX, os Vampiros eram figuras ameaçadoras, a saga Crepúsculo (2008), dirigida por Catherine Hardwicke e baseada nos livros de Stephenie Meyer, ressignifica a criatura para um novo público: os adolescentes. O protagonista é Edward Cullen, interpretado por Robert Pattinson, uma versão amorosa e sensível que luta contra o seu instinto natural de beber sangue humano para conviver na sociedade.
Com um misto de drama e fantasia, a obra desloca o Vampiro da posição de amedrontador para lidar com a tentativa de viver um amor considerado impossível. Mesmo com suas contradições e instintos agressivos, Edward encara um papel de heroi, se alimenta apenas de sangue animal, não dorme em caixão, não teme crucifixo e luta contra outros monstros e versões malvadas da sua própria espécie.
Aliás, a transformação de criatura temida para um ser mais humanizado não se limita a audiência adolescente e se expande para públicos ainda mais jovens. Exemplo disso é a animação Hotel Transilvânia (2012), dirigida por Genndy Tartakovsky, na qual o Drácula é retratado como um pai superprotetor e carismático, dono de um hotel para diferentes tipos de monstros. Essa abordagem permite que o Vampiro se torne um personagem agradável para as crianças, com novas camadas de significado ao tratar de tópicos como o respeito à diferença e a amizade.
Uma roupagem mais sangrenta do que nunca
Recentemente, o longa Pecadores (2025) ganhou destaque nas telonas ao mostrar como o tema sempre pode abordar novas camadas, sendo usado como uma metáfora na cultura pop para dialogar sobre questões como identidade e apropriação cultural. Na produção, escrita e dirigida por Ryan Coogler, o lado psicológico do Vampiro é explorado por meio de um ambiente carregado de tensões políticas e sociais de um Estados Unidos escravocrata dos anos 30 (década da primeira aparição de Conde Drácula no cinema).
No começo da narrativa de Coogler, um irlandês chega ao Mississippi e passa a transformar membros do Ku Klux Klan em Vampiros. Essa escolha de vítima não é em vão: ela liga a criatura às estruturas racistas presentes naquele contexto, com a ideia de que o mal sempre se reinventa por meio de novas formas. Através desse personagem, a questão do “estrangeiro”, que sempre esteve presente, ganha contornos especiais diante de um cenário em que diversos grupos marginalizados entram em confronto diante das suas próprias perspectivas de como alcançar o sonho da liberdade.
De um jeito ou de outro, o caminho é mais claro que os raios de sol: a música. Especialmente o blues, ritmo musical que nasce em um contexto de resistência contra a dominação do homem branco, a propriedade musical de estabelecer conexões entre passado, presente e futuro é um elemento central do longa. Ao se alimentarem de suas vítimas, os Vampiros tomam posse dessa memória e cultura ancestral, trazendo debates atuais para a trama.
A mistura do Vampiro com tensões raciais, blues e misticismo não-cristão talvez seja um produto que só poderia ser concebido no tempo atual. No entanto, como figura central do gênero do Terror, essa figura sempre foi capaz de traduzir os anseios e preocupações de cada sociedade que procurou retratá-la. Tanto em adaptações, como o Nosferatu de Eggers, e em produções originais, como Pecadores de Coogler, é nítido como elementos presentes desde o folclore balcânico ainda se preservam e mantêm uma tradição, ao mesmo tempo que se ressignificam e criam perspectivas totalmente novas.
O que será que as noites escuras dos próximos anos nos trarão? Basta aguardar para descobrir, já que os morcegos nunca saem de moda. Para nós, o que resta é preparar a pipoca com alho e um copo cheio de água benta para nos preparar para o que vem por aí nas telonas!



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