Entre a homenagem e a narrativa: as expectativas de um público dividido
- Revista Curió
- há 6 dias
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O filme do Rei do Pop agrada aqueles que foram em busca de um espetáculo, mas deixa a desejar para quem esperava mais do que uma celebração
Por Evelyn Costa
Última atualização: 14/05/2026

Algo bem comum em cinebiografias é a divisão de opiniões que as cercam, principalmente na internet, e com Michael (2026) não foi diferente. Houve uma grande divergência entre os espectadores: de um lado, a frustração com o produto, com críticas relacionadas à desconexão com a realidade e a uma narrativa incompleta e superficial, que evitou confrontar certas questões mais polêmicas da vida do artista, vindas de quem esperava um filme mais aprofundado. Do outro, aqueles que foram ao cinema esperando um espetáculo, um tributo e uma celebração ao artista com show visual e musical. Para esses, a obra conseguiu entregar toda essa experiência e representação, satisfazendo essa parcela do público.
É justamente nesse espetáculo que o filme encontra sua força– a sala do cinema se transforma em um palco compartilhado com quem assiste, contagiando todos os presentes. Essa representação performática de detalhes absurdos se torna uma característica marcante da obra, e mesmo diante de todas as polêmicas e do contraste de opiniões, um fato permanece incontestado: a produção entrega plenamente nos elementos musicais e visuais, nos figurinos icônicos e no desempenho excepcional de Jaafar Jackson, fazendo parecer que o espectador assistia a uma performance do próprio Michael.

Toda a caracterização e transformação de Jaafar foram muito além do que é visto na cinebiografia. Ele mergulhou completamente nas anotações, na história e nas conquistas do tio, estudando absolutamente tudo sobre ele, chegando até a retornar à mansão da família na Califórnia para despertar memórias e emoções adormecidas. Essa entrega alcança um estágio em que ele e Michael se confundem como se fossem um só: na fala, nos movimentos, nos gestos, na dança e até mesmo no canto, visto que, em algumas músicas, era a sua própria voz sobreposta à trilha, com uma entrega impressionante de como ele encarna o Michael Jackson. Tudo isso em seu primeiro trabalho como ator, fruto de uma dedicação que resultou em uma performance magnífica.
No entanto, mesmo diante de todo esse desempenho visual, o filme deixa a desejar em diversas falhas de roteiro que não sustentam as performances exibidas. A suavização de certos acontecimentos, como na representação do pai de Michael, a resolução apressada de muitos conflitos ou até mesmo a ausência de outros, deixa de aprofundar partes da história que o filme se propôs a contar, resultando em algo superficial que não satisfaz todos os fãs nem a crítica.
A ausência de certas pessoas próximas reforçou ainda mais a percepção de que o filme representa apenas uma versão específica e controlada da história. Também vale mencionar que certas polêmicas da vida do artista, como as acusações de pedofilia, não foram abordadas por imposição judicial prevista no acordo civil do caso de Jordan Chandler, pelo qual os Chandler jamais poderiam ser mencionados ou dramatizados em uma produção.

Diante de todas essas repercussões, fica claro que a questão não é somente sobre qualidade, mas também sobre a expectativa depositada na obra. O filme claramente escolhe qual público quer agradar por meio da narrativa que decide seguir, além de carregar consigo a influência daqueles que estão por trás da produção, trazendo à tona embates sobre memória e veracidade dos fatos.
Michael Jackson foi um artista que despertou um fascínio excessivo no público e na mídia: cercado por exploração, sensacionalismo, acusações e processos judiciais, foi uma figura tão complexa e singular que qualquer retrato seu inevitavelmente gerará opiniões divididas e questionamentos profundos sobre tudo aquilo que se propõe a retratar.



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