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Liberdade, luta e transformação: carnaval LGBTQIAPN+ em Belo Horizonte

  • Foto do escritor: Revista Curió
    Revista Curió
  • 24 de fev.
  • 16 min de leitura

Como um movimento amplo e plural conquistou as ruas da cidade e passou a ecoar representatividade em época de festa


Por: Alice Carvalho, Ester Tadim, Flor Sette Câmara, Maria Polito, Mariane Castro e Sophia Silvério

Última Atualização: 24/02/2026


Desfile de 2025 do bloco Truck do Desejo | Foto: Mayara Laila
Desfile de 2025 do bloco Truck do Desejo | Foto: Mayara Laila

São muitos os blocos que representam a cultura LGBTQIAPN+ no carnaval de rua de Belo Horizonte. Em toda a cidade, existem movimentos empenhados em garantir visibilidade para uma temática que antes era pouco discutida. O que pouca gente sabe é que essa é uma história antiga na cidade; a festa só se estabeleceu como é hoje por volta de 2009 e atualmente ainda enfrenta desafios ao colorir os bairros e ampliar espaços. 


Contexto histórico 


O carnaval em Belo Horizonte começa antes do que muitos imaginam: a capital é inaugurada em 1897 e após 2 anos já  há registros de folia. Em 1899,  havia um desfile carnavalesco, que alegrava a cidade, nomeado “Diabos de Luneta”, criado por operários que construíam a cidade; Em 1923, a cidade começou a cobrar taxas para bailes de rua e implementou a  Lei Municipal nº 263, de 8 de agosto de 1923, que estabelecia que “os bailes públicos, compreendendo-se como tais os que dependem da licença da polícia para o seu funcionamento, pagarão, por baile, o imposto de 50$000 no carnaval e 20$000 fora desta época”. A partir desse marco, o carnaval da cidade passou a enfrentar resistência pelos órgãos públicos: o ato de ocupar uma cidade criada para segregar ricos e pobres incomodava.


 O inventário do samba de Belo Horizonte, disponível no site da Universidade Federal de Minas Gerais,  afirma que os blocos de rua surgem antes mesmo que as escolas de samba; a partir de 1937 os blocos eram compostos por populares e contavam com a presença significativa da população negra. Na década de 1930 surgiu a primeira escola de samba, a “Pedreira Unida", criada na Pedreira Prado Lopes. Em jornais, falava-se sobre o sucesso do evento na cidade. O carnaval já nasce sendo periférico e símbolo de resistência e ocupação das ruas.


Carnaval de Belo Horizonte: em destaque, Popó. Reprodução Inventário do Samba. Fonte: Jornal Estado de Minas. Data: 27/01/1938
Carnaval de Belo Horizonte: em destaque, Popó. Reprodução Inventário do Samba. Fonte: Jornal Estado de Minas. Data: 27/01/1938

No ano de 1947 surgiu o primeiro bloco de rua com registros de Belo Horizonte, o “Leão da Lagoinha”, em que  homens e mulheres saíam às ruas com roupas trocadas. Hoje, o bloco ocorre no mesmo lugar, no cruzamento das ruas Itapecerica e Machado de Assis, no bairro Lagoinha, região Noroeste. O bloco é uma herança da comunidade e conta a história de um local excluído dos planejamentos higienistas da cidade. Em sua trajetória, ilustres na história do Brasil estiveram presentes, como o ex-presidente Juscelino Kubitschek e outras figuras notórias homenageadas, como Hilda Furacão e a  Loira do Bonfim.


Mais antigo bloco de BH. Reprodução Inventário do Samba. Foto:  Arquivo Belotur / Reprodução
Mais antigo bloco de BH. Reprodução Inventário do Samba. Foto:  Arquivo Belotur / Reprodução

Quando surgiu o “Leão da Lagoinha”, o carnaval de Belo Horizonte era um movimento diferente do inaugural da cidade, as festas eram mais focadas em clubes e nas ruas só passavam carros e fantasias. Esse fenômeno ocorreu devido às influências e determinações da Segunda Guerra Mundial (1938-1945), que impôs diversas regras sobre celebrações públicas, entre elas o fim dos desfiles, que tiveram que ficar quase restritos aos clubes privados da capital. Assim, o carnaval migrou massivamente para os interiores. Infelizmente, o “Leão da Lagoinha” perdeu força por questões financeiras em 1985 e só retornou em 2017. 


Em 1975 alguns foliões e músicos do “Leão da Lagoinha” se separaram e criaram a "Banda Mole", que permanece até hoje na cidade. A "Banda Mole" é um bloco tradicional do pré-carnaval e também tem como característica homens vestidos de mulheres e vice-versa.  Desde sempre, permite que as pessoas sejam quem são, para além da fantasia, tornando-se um movimento importante dentro do espaço queer. O pesquisador da UFMG, Juarez Guimarães Dias, que estuda o movimento LGBTQIAPN+, entende a "Banda Mole" como um elemento essencial dentro do carnaval de Belo Horizonte.


“A "Banda Mole", para mim, é o primeiro espaço no Carnaval de BH para pessoas LGBTQAPN+, principalmente para as pessoas travestis e pessoas trans que viam no Carnaval a possibilidade de existirem à luz do dia. Fantasiar-se do jeito que quisesse, expressar-se como quisesse, ter o seu momento ali de descontração, de lazer, de entretenimento e muito de expressividade”, afirma Juarez.

No carnaval, abrem-se portas para o corpo social ser aquilo que é e que a sociedade reprime, e ao mesmo tempo se fantasiar de um novo ser. É nessa festa que existe a liberdade de se transformar e performar quem habita no interior humano. 


Embora esse movimento fosse notório e importante em Belo Horizonte, no ano de 1989 surge o maior declínio do carnaval. Os desfiles de escola de samba foram cancelados pelo prefeito da época, Pimenta da Veiga, com a justificativa de falta de verba, sendo uma grande perda para a cultura da cidade. Fora do centro, os desfiles só voltaram a acontecer anos depois. Sem o apoio do poder público, o movimento foi se enfraquecendo. Ao restringir o acesso à cultura nessa data tão simbólica, as figuras de poder contrastavam com a ocupação do povo e com os trabalhadores, que buscavam  incessantemente o direito de existir. 


 Em 2009, o carnaval ressurge como forma de protesto contra o então prefeito Márcio Lacerda, que editou o decreto nº 13.798, proibindo eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, sob a justificativa de garantir a suposta segurança pública. O povo respondeu ocupando as ruas da cidade, principalmente a Praça da Estação e defendendo a expressão popular. Assim, teve início o movimento conhecido como “Praia da Estação”, essencial para a retomada do carnaval de rua de Belo Horizonte, uma demonstração de que a população pode ocupar as ruas em nome do lazer e da resistência. Para além de uma perspectiva LGBTQIAPN+, o carnaval em Belo Horizonte é, desde sua criação, um ato de resistência.


Para Juarez,  é nesse momento que os blocos LGBTQIAPN+ crescem na cidade.


“Se antes o carnaval era um espaço mesmo de aparecimento, de expressividade, é a Praia da estação que vai, de alguma forma, fermentar um carnaval de rua para além da "Banda Mole", ressalta Juarez. 


A "Banda Mole" foi um bloco essencial para que hoje os LGBTQIAPN+ ocupassem as ruas da cidade, mas a “Praia da Estação” foi o estopim para que  não só os participantes do movimento ocupassem a cidade, mas toda a população lutasse pelo direito de estar presente nas ruas. Hoje, inúmeros blocos pertencem a esse movimento, e os foliões LGBTQIAPN+  se diferenciam por diversas formas: gostos musicais, sexualidades e gêneros distintos. A diversidade e a personalidade ocupam  a capital belo-horizontina  em diferentes espaços e de diferentes maneiras. 


Significado sociocultural e político


Fantasia no desfile de 2025 do bloco Truck do Desejo | Créditos: Natália Hare
Fantasia no desfile de 2025 do bloco Truck do Desejo | Créditos: Natália Hare

Desde o movimento da “Praia da Estação”, no coração da cidade, a presença LGBTQIAPN+ teve muito a compartilhar com o teatro, a performance e a música, elementos utilizados para expressividade e para dar vida ao carnaval e à cultura desses grupos nas ruas de BH. Vestir-se sempre foi um ato político para esses grupos, pois sempre significou colocar em destaque elementos que antes precisavam ser escondidos, disfarçados.


A Parada do Orgulho também foi essencial no contexto político do carnaval ao abrir portas para que, ao menos uma vez por ano, a população LGBTQIAPN+ se sentisse confortável em ir para as ruas, ocupar espaço e se fazer visível.


Com cunho extremamente político e focado em firmar a luta por direitos e garantias, o evento inspira o carnaval a elaborar suas pautas com assuntos e demandas urgentes. Um exemplo é o tema mais recente da Parada, de 2025, “Envelhecer bem: direito às políticas públicas do bem viver, ao prazer e à cidade”, o qual ilustra bem como este sempre foi um movimento que buscou ressaltar necessidades para além da visibilidade. 


No carnaval, essa seriedade deve ser equilibrada de forma leve e descontraída com que o público já está acostumado na folia, por isso, temáticas como “A gente é Multidão” (Truck; 2024), “Rainhas do Esporte” (Corte Devassa; 2024) e “Você Tem Sede de Quê?” (Então brilha; 2024) tratam de ocupação de espaços, valorização de desejos e visibilidade, de forma a dialogar folia e desejo, festa e denúncia.


O Carnaval sempre foi denúncia, luta, liberdade e ação. Para o bloco Truck do desejo, por exemplo, a existência política é essencial na folia.


“Desse modo, inerentemente, nos atemos aos anseios de nossa população no exercício pleno da cidadania (direito ao trabalho, à saúde, lazer etc) guiada pela luta por uma vida digna para todas as pessoas”, afirmam as organizadoras.

Os blocos LGBTQIAPN+ nas ruas de Belo Horizonte


Bufonaria e decolonialidade: conheça a Corte Devassa


Criada em 2012, a Corte Devassa surge a partir de uma turma do Centro de Formação Artística do Palácio das Artes, o Cefar. A primeira versão do bloco, composta por figuras caricatas, utilizou-se da bufonaria — ação de zombaria — como inspiração técnica. Os atores e atrizes faziam personagens da corte em uma versão caricata, exagerada e cômica, buscando criticar e estereotipar a corte, a burguesia e a representação do colonialismo nos dias atuais, como explica o participante da organização do bloco Eli Nunes Monteiro.


Eli na Corte Devassa | Foto: Ronaldo Alves
Eli na Corte Devassa | Foto: Ronaldo Alves

Com a proposta de questionar os parâmetros de riqueza e de realeza da colonialidade, Eli conta que o bloco era quase “feio”, marcado por exageros. Posteriormente, foram adicionados outros detalhes, características e nuances das cortes, mas as ideias de devassidão e, principalmente, de liberdade sexual permanecem até os dias atuais. São colocadas em xeque noções de pureza, de santidade e de proibição dos corpos que havia dentro dos contextos das cortes e do colonialismo, provando que, desde sempre, a Corte Devassa demonstra interesse pela pauta de liberdade sexual.


A consciência política para a Corte Devassa é essencial, visto que o bloco é composto por muitas pessoas negras, da comunidade LGBTQIAPN+ e, de modo geral, forma um público diverso.


Esteticamente, o bloco tem muita história para contar. Nos primórdios, o foco eram apenas as figuras caricatas da corte. Posteriormente, tais efígies permanecem, mas o bloco se apropria das mesmas como forma de empoderamento focado em questões raciais e em corpos LGBTQIAPN+. A partir de um momento de fortalecimento e de acesso do público a questões raciais, surge o questionamento sobre qual seria a escolha de uma corte branca para os corpos tão diversos que permeiam o bloco, levando a um pensamento sobre outras realezas.


Nesse momento, a Corte Devassa começou a trabalhar com realezas africanas, afro futurísticas e, de maneira geral, realezas diversas que fogem do cenário eurocêntrico e colonial. Essa adaptação e conversa com o público são a origem da adaptabilidade a qual o bloco viveu. A Corte se coloca como um “bloco de chão”, sem trio elétrico, que opta pela proximidade com o público, para realmente viver a festa junto do folião, que, caso queira, pode fazer parte da bateria, mesmo sem conhecimento prévio. 


O modus operandi do bloco sempre foi uma pauta. Eli, assim como Michele Bernardino, Andreia Rodrigues e Ana Martins — rainha e vocalistas da corte, respectivamente —, fizeram parte de uma companhia que se chamava Espaço Preto, que existiu de 2012 a 2014, exemplificando o grande grupo de artistas de BH que trabalham com teatro político e que compõem a Corte. Inúmeras pessoas do bloco compuseram grupos e fizeram trabalhos de denúncia social, de pautas sobre a negritude, sobre empoderamento preto sobre corpos LGBTQIAPN+. 


“Muitos de nós, pessoas integrantes do bloco,  passamos por uma transição de gênero durante a participação no bloco. Então, essa pauta, ela fazia parte da nossa existência, né? Então, não tinha muita escolha de conciliar ou não isso, a alegria do carnaval. Isso fazia parte dos nossos corpos, até porque, quando a gente tá na rua, mesmo que na alegria do Carnaval, são momentos em que a gente passa por situações de racismo, de transfobia, de misoginia, de assédio. A gente nunca conseguiu descolar essas pautas do fazer carnavalesco da corte” , afirma Eli.

O Farol da Folia: conheça o Então, Brilha!


“Brilhar para sempre, brilhar como um farol, brilhar com brilho eterno, gente é pra brilhar, que tudo mais vá pro inferno”. Essa frase é do poeta e dramaturgo russo, Vladimir Maiakovski, que estampa a página inicial do Então, Brilha!


Bloco Então, Brilha! no Carnaval de 2025 / Foto: Henrique Marques
Bloco Então, Brilha! no Carnaval de 2025 / Foto: Henrique Marques

O “Então, Brilha!” nasceu em 2010 como um bloco de Carnaval e se tornou um dos maiores movimentos de rua e arte coletiva de Belo Horizonte. O grupo afirma ser mais que um cortejo ao celebrar a vida, a liberdade e a potência criadora das pessoas que se encontram para transformar o mundo juntas. Eles fazem da rua um palco, um templo e um território político ao usufruir do espaço como plataforma de invenção, reflexão, crítica e experimentação artística.


Por trás de um dos maiores e mais icônicos blocos, a Associação Cultural Então, Brilha! — uma organização sem fins lucrativos — sustenta e expande o projeto durante todo o ano, ao possibilitar a criação de ações nas áreas da arte, da educação, da cultura e da cidadania. Além de atuar na defesa de um carnaval livre, democrático e transformador, apoia explicitamente as lutas sociais e a diversidade ao garantir que a agenda de inclusão do bloco seja trabalhada durante o ano e no desfile. 


“Inspirada por um humanismo revolucionário, a Associação busca fortalecer laços comunitários, apoiar lutas sociais e desenvolver práticas artísticas e educativas que ampliem a consciência crítica e o cuidado com o planeta. É o Brilha que acontece o ano inteiro — nas ruas, nas ideias e nos corações.”, define em site próprio o Então, Brilha!

O bloco também inova e se reinventa em cada projeto. A escolha do tema anual acontece por meio do “Magia Tropical, concurso da música brilhante”, que todo ano convida compositores a embarcarem na criação da música do cortejo. O FAROL - Seminário de Formação do Bloco Então, Brilha! - chega com a proposta de ser um espaço para a construção e o fortalecimento das formas de expressão artística e seus ideais; já a Escola Brilhante de Artes, produzida durante o ano de 2018, foi um projeto de ação social em educação artística por meio do qual foi oferecido para a comunidade da favela da Serra um curso de canto.


Ao transformar a rua em um espaço seguro e político, o “Então, Brilha!” consolida o direito da comunidade LGBTQIAPN+ de existir em sua plenitude no Carnaval da capital mineira. Ao reafirmar que “gente é pra brilhar”, o bloco cria tanto um lema de festa quanto um manifesto de resistência.


Entre o asfalto e o arco-íris: conheça a Truck do Desejo


Fundado em 2018 por um grupo de amigas que percebeu a falta de um carnaval voltado ao protagonismo de pessoas lésbicas, bissexuais, não-binárias, trans masculinos e travestis na capital. A Truck do Desejo se apoia primordialmente na luta por direito à vida digna e ao pleno exercício da cidadania por essa parcela da população. É por meio da estética, da performance e da ocupação do espaço público com afetos e linguagens que o bloco não só representa, como une o desejo político por mais qualidade de vida cidadã à alegria do festejo carnavalesco.


Uma característica marcante do bloco é o repertório, que privilegia compositoras lésbicas, bissexuais e trans da MPB. As músicas são rearranjadas em ritmos de carnaval (como samba, reggae, ijexá, funk carioca e marchinha) e representam a riqueza e a diversidade da música brasileira, ressaltando o trabalho das compositoras.


Outro aspecto importante do bloco é a abertura à possibilidade — a integração de pessoas que antes não estavam inseridas no meio do carnaval. Desde o início do Truck, no primeiro ano, a bateria já era composta por cerca de 90 pessoas. Até 2025, mais de 1200 mulheres e pessoas trans já passaram pela ala de bateria e mais de 80% delas nunca tinham tido a oportunidade de experimentar um instrumento musical antes.


Para Lara Sousa e Fernanda Branco, respectivamente, fundadora e co-coordenadora do bloco, o maior diferencial do Truck é a linguagem, que forma caminhos para ampliar o público e se expressar com potência.


“A base de construção do bloco se alicerça em explorar os recursos de discursos e linguagens para dar o nosso recado por meio do tema de cada ano, ecoando nossa trajetória e luta por meio também de figurinos, repertórios, alegorias, parcerias de trabalho e toda rede LGBT+ de trabalhadores contratados para realizar junto esse sonho”, afirmam.



Dos ritmos latinos à representatividade: conheça o “Cómo te lhamá?”


Criado em 2017, o bloco de rua “Cómo te lhama?” surgiu com a ideia de trazer a cumbia — um gênero musical e dança de origem colombiana — para o carnaval de Belo Horizonte. Brincando com o uso do “portunhol”, a grafia incorreta faz um jogo com a palavra “llama”, que pode significar tanto o animal andino, como também o verbo “llamar”, que em português significa “chamar”.


Antes de a festa surgir, já existiam alguns gestos de aproximação com o ritmo cumbia, por parte dos blocos “Juventude Bronzeada", do Djalma não Entende de Política e do Frito na Hora. O objetivo do carnaval, no entanto, era “pegar firme na cumbia”, na intenção de aprofundar os conhecimentos acerca desse universo. Entre os fundadores do bloco também havia mais de um migrante, o que impulsionou a iniciativa.


Bloco “Como te lhamas” explorando o tema “Amor Prohibido” | Foto: Milena do Carmo
Bloco “Como te lhamas” explorando o tema “Amor Prohibido” | Foto: Milena do Carmo

Em 2025, “Amor Prohibido” foi o tema da folia. Aproveitando o título das canções mais famosas do estilo, o ensejo foi celebrado para intensificar uma discussão sobre amores que sofrem interdições. Além do tema central no último ano, um dos propósitos do bloco no geral é acolher pessoas de todas as orientações e identidades, apesar de os organizadores acreditarem que isso deveria ser regra de todo carnaval. 

“Quem estiver cheio de ódio e discrimação melhor não sair de casa”, ressaltou Carlos Bolívia, participante do bloco. 


Das figurinistas aos instrumentistas, “Cómo te lhama?” procura incluir o grupo LGBTQIAPN+ em todos os seus segmentos, para, assim, criar um cenário representativo. 


Identidade: a Autoficção da Liberdade


O Carnaval é uma festa de celebração da liberdade e é também o palco de uma das lutas mais essenciais do movimento LGBTQIAPN+: a afirmação da identidade. A retomada do Carnaval de Belo Horizonte não trouxe apenas a folia para a rua, mas afirmou um território de visibilidade e pertencimento. Blocos como o “Então Brilha!”, que afirma “Gente é pra brilhar!” com seu visual marcado pelo rosa, dourado e glitter, e o “Truck do Desejo", criado para dar visibilidade às mulheres lésbicas, bissexuais e trans, nascem da necessidade de tornar o invisível visível. 


O ativismo da comunidade queer em Belo Horizonte é antigo, começando discretamente nos anos 1950 e se consolidando ao longo das décadas, com a criação de organizações que buscam bater diretamente nas políticas públicas e garantir direitos civis. A cidade é cenário da Parada do Orgulho há mais de 25 anos, sendo reconhecida como uma das mais politizadas do Brasil, como afirmou o jornal Brasil de Fato, na matéria “Em BH, Parada do Orgulho LGBTQIA+ completa 25 anos como uma das mais politizadas do Brasil”. 

O evento é organizado pelo CELLOS-MG (Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual e Identidade de Gênero de Minas Gerais), que se orgulha ao celebrar um “Carnaval fora de data” com caráter político, em que as apresentações artísticas são organizadas com a presença de artistas locais, contemplando pessoas de cada uma das letras presentes na sigla e, especialmente, a população da periferia.


No Carnaval, a luta política continua. Para muitas das pessoas celebradas pela folia, a fantasia e a maquiagem da festa anual servem como licença poética para serem, em público, aquilo que a sociedade tenta reprimir no dia a dia. O ato de desfilar, de ocupar com o corpo e a voz é, por si só, uma declaração de caráter político que ressoa representatividade. Para Juarez Guimarães, esse exercício de performar, de evidenciar uma parte de sua identidade como fantasia se torna um objeto de estudo: a autoficção performática.


“A ideia da autoficção é você ser um personagem de você mesmo – como você se cria como personagem. E esse personagem está numa dimensão da performance, porque você está no espaço, você está na rua, você está se exibindo. E você tá performando essa identidade que você criou para você mesmo”, afirma Juarez.

São nesses poucos dias de comemoração que a identidade de gênero e a orientação sexual podem ser expressas em sua plenitude, sem medo e com a proteção da multidão. Segundo uma pesquisa do Observatório do Turismo de Belo Horizonte, 34% do público do Carnaval de BH faz parte da comunidade LGBTQIAPN+.


A escolha do tema anual dos blocos também é carregada de identidade. As escolhas não são meramente estéticas, mas refletem as pautas e as vivências específicas de cada grupo. O bloco “Truck do Desejo”, por exemplo, coloca em evidência a cultura lésbica, bissexual, travesti, transmasculina e não binária. Eles honram o movimento com cenografia, figurinos e discursos, tudo é pensado a partir de referências de dissidências de gênero e orientação sexual.


“Cada detalhe carrega o desejo de contar nossas histórias do nosso jeito, com orgulho. Do erotismo à política, da ironia ao deboche, do amor à resistência: a Truck é um manifesto vivo”, afirma a organização do bloco.
Bloco Truck do Desejo em 2025. Foto por Mayara Laila
Bloco Truck do Desejo em 2025. Foto por Mayara Laila

Estrutura, segurança e discriminação: os desafios de se manter um bloco LGBTQIAPN+


Existir como uma pessoa Queer em uma sociedade heteronormativa e patriarcal implica diversos desafios. No contexto de festividades de grande porte, como é o caso do carnaval, essas existências podem ser ainda mais ameaçadas, por meio de violência velada, verbal ou física que atinge facilmente as minorias. Nesse sentido, os blocos construídos por e para indivíduos LGBTQIAPN+ representam uma alternativa de maior segurança e liberdade, mesmo que ainda existam desafios na formação e manutenção dessas estruturas. 

Thiago Coacci, participante do coletivo Frente Autônoma LGBT, criticou a ideia de liberdade sexual no carnaval, em entrevista para o jornal O Tempo:  


"O Brasil sempre usou o Carnaval como uma forma de propaganda da liberdade sexual, mas sabemos que essa liberdade não é tão verdadeira assim. É seguro para o homem hétero e musculoso sair com roupas de mulher, mas para as bichas afeminadas, as travestis e as mulheres (cis e trans), não é nada seguro sair pelo carnaval”, ressalta Thiago.

Essa realidade não evidencia só uma exclusão, mas também uma normalização da violência contra esses grupos, mesmo dentro de espaços que se apresentam como democráticos. Os blocos Queer proporcionam uma maior segurança devido à coletividade, mas não eliminam os riscos de violência.


Celebração no bloco Corte Devassa/ Foto: Ronaldo Alves
Celebração no bloco Corte Devassa/ Foto: Ronaldo Alves

 Para Eli, do Corte Devassa, um dos principais desafios para o bloco é garantir o respeito.


“O Corte Devassa é formado por muitas pessoas negras,  LGBTQIA + de muitas diversidades possíveis, então foi aos poucos que a gente foi conseguindo criar uma noção de respeito que passe por uma consciência política atual”, afirma Eli.

Como um bloco que já nasceu da diversidade, o Corte Devassa enfrenta também a tarefa de educar o público, combatendo a normalização de violências simbólicas, como fantasias de “black power”, de povos indígenas ou outras representações estereotipadas. Mesmo entre grupos marginalizados, preconceitos podem se reproduzir de forma aparentemente inofensiva, em piadas ou fantasias. No Carnaval, quando tudo parece permitido, essas expressões ganham visibilidade e impacto. Por isso, manter um ambiente verdadeiramente livre de discriminação continua sendo uma dificuldade para os blocos LGBTQIAPN+.


Além disso, outro obstáculo é manter uma estrutura de qualidade e que proporcione uma boa experiência para uma plateia cada vez maior, principalmente quando a verba é limitada. É evidente que hoje, com a percepção do impacto turístico e econômico da celebração, além da aclamação midiática, a prefeitura investe e se aproxima da folia consideravelmente mais do que em anos anteriores. Mesmo assim, continua não sendo o suficiente para garantir a manutenção desses blocos.

 

O organizador do Corte Devassa conta que, apesar dessa aproximação, ainda é possível perceber a escassez de recursos, já que, de modo geral, o dinheiro não chega para os blocos. Um dos principais problemas estruturais dos blocos de carnaval é a distribuição sonora, tendo em vista que, além do alto custo desses equipamentos, há a preocupação em atingir o público mais distante sem gerar riscos auditivos para quem está mais próximo das caixas de som, exigindo adaptações complexas. Para os blocos queer, a importância do acesso ao som é ainda maior: não significa apenas música e festa, mas também acesso às mensagens políticas, centrais para esses movimentos. 


Para muitos, a falta de recursos não afeta apenas a estrutura física, mas também a permanência dos participantes. No caso da Corte Devassa, a maioria dos integrantes são artistas independentes, que, devido à má remuneração, acumulam trabalhos artísticos diversos simultaneamente, dificultando a estabilidade. Com isso, o grupo apresenta grande rotatividade dos cargos, o que pode comprometer a organização, a continuidade de ideias e os vínculos afetivos, extremamente importantes principalmente para blocos politicamente engajados.


Bloco “Como te lhamas” | Créditos: Milena do Carmo
Bloco “Como te lhamas” | Créditos: Milena do Carmo

Perspectivas futuras


De modo geral, os blocos não se planejam com tanta antecedência para os carnavais seguintes. Eli, da Corte Devassa, afirma que cada ano é vivido de forma muito intensa e inteira. Os sonhos a serem perseguidos e alcançados são o que instigam a continuidade de um trabalho que vem ocorrendo há mais de uma década.


“É um bloco de mais de 10 anos que tem esse movimento de resistência, de permanecer no centro da cidade, permanecer no chão da cidade, permanecer trazendo esses corpos dissidentes, que incomodam, para o centro. Então isso é um plano futuro bem consistente. Seguir acontecendo, não deixar que esse carnaval midiático e gigantesco de Belo Horizonte engula o bloco.”

A realidade é: o Carnaval de Belo Horizonte engloba um público muito grande e variado e, por meio de blocos de rua que resistem e representam, torna-se, cada vez mais, um palco de inclusão. 



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