Liberdade, luta e transformação: carnaval LGBTQIAPN+ em Belo Horizonte
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Como um movimento amplo e plural conquistou as ruas da cidade e passou a ecoar representatividade em Ʃpoca de festa
Por: Alice Carvalho, Ester Tadim, Flor Sette Câmara, Maria Polito, Mariane Castro e Sophia Silvério
Ćltima Atualização: 24/02/2026

SĆ£o muitos os blocos que representam a cultura LGBTQIAPN+ no carnaval de rua de Belo Horizonte. Em toda a cidade, existem movimentos empenhados em garantir visibilidade para uma temĆ”tica que antes era pouco discutida. O que pouca gente sabe Ć© que essa Ć© uma história antiga na cidade; a festa só se estabeleceu como Ć© hoje por volta de 2009 e atualmente ainda enfrenta desafios ao colorir os bairros e ampliar espaƧos.Ā
Contexto históricoĀ
O carnaval em Belo Horizonte comeƧa antes do que muitos imaginam: a capital Ć© inaugurada em 1897 e após 2 anos jÔ hĆ” registros de folia. Em 1899,Ā havia um desfile carnavalesco, que alegrava a cidade, nomeado āDiabos de Lunetaā, criado por operĆ”rios que construĆam a cidade; Em 1923, a cidade comeƧou a cobrar taxas para bailes de rua e implementou aĀ LeiĀ Municipal nĀŗ 263, de 8 de agosto de 1923, que estabelecia que āos bailes pĆŗblicos, compreendendo-se como tais os que dependem da licenƧa da polĆcia para o seu funcionamento, pagarĆ£o, por baile, o imposto de 50$000 no carnaval e 20$000 fora desta Ć©pocaā.Ā A partir desse marco, o carnaval da cidade passou a enfrentar resistĆŖncia pelos órgĆ£os pĆŗblicos: o ato de ocupar uma cidade criada para segregar ricos e pobres incomodava.
Ā O inventĆ”rio do samba de Belo Horizonte, disponĆvel no site da Universidade Federal de Minas Gerais,Ā afirma que os blocos de rua surgem antes mesmo que as escolas de samba; a partir de 1937 os blocos eram compostos por populares e contavam com a presenƧa significativa da população negra. Na dĆ©cada de 1930 surgiu a primeira escola de samba, a āPedreira Unida", criada na Pedreira Prado Lopes. Em jornais, falava-se sobre o sucesso do evento na cidade. O carnaval jĆ” nasce sendo perifĆ©rico e sĆmbolo de resistĆŖncia e ocupação das ruas.

No ano de 1947 surgiu o primeiro bloco de rua com registros de Belo Horizonte, oĀ āLeĆ£o da Lagoinhaā, em queĀ homens e mulheres saĆam Ć s ruas com roupas trocadas. Hoje, o bloco ocorre no mesmo lugar, no cruzamento das ruas Itapecerica e Machado de Assis, no bairro Lagoinha, regiĆ£o Noroeste. O bloco Ć© uma heranƧa da comunidade e conta a história de um local excluĆdo dos planejamentos higienistas da cidade. Em sua trajetória, ilustres na história do Brasil estiveram presentes, como o ex-presidente Juscelino Kubitschek e outras figuras notórias homenageadas, como Hilda FuracĆ£o e aĀ Loira do Bonfim.

Quando surgiu o āLeĆ£o da Lagoinhaā,Ā o carnaval de Belo Horizonte era um movimento diferente do inaugural da cidade, as festas eram mais focadas em clubes e nas ruas só passavam carros e fantasias. Esse fenĆ“meno ocorreu devido Ć s influĆŖncias e determinaƧƵes da Segunda Guerra Mundial (1938-1945), que impĆ“s diversas regras sobre celebraƧƵes pĆŗblicas, entre elas o fim dos desfiles, que tiveram que ficar quase restritos aos clubes privados da capital. Assim, o carnaval migrou massivamente para os interiores. Infelizmente, oĀ āLeĆ£o da LagoinhaāĀ perdeu forƧa por questƵes financeiras em 1985 e só retornou em 2017.Ā
Em 1975 alguns foliƵes e mĆŗsicos do āLeĆ£o da LagoinhaāĀ se separaram e criaram aĀ "Banda Mole", que permanece atĆ© hoje na cidade. A "Banda Mole" Ć© um bloco tradicional do prĆ©-carnaval e tambĆ©m tem como caracterĆstica homens vestidos de mulheres e vice-versa.Ā Desde sempre, permite que as pessoas sejam quem sĆ£o, para alĆ©m da fantasia, tornando-se um movimento importante dentro do espaƧo queer. O pesquisador da UFMG, Juarez GuimarĆ£es Dias, que estuda o movimento LGBTQIAPN+, entende a "Banda Mole" como um elemento essencial dentro do carnaval de Belo Horizonte.
āA "Banda Mole", para mim, Ć© o primeiro espaƧo no Carnaval de BH para pessoas LGBTQAPN+, principalmente para as pessoas travestis e pessoas trans que viam no Carnaval a possibilidade de existirem Ć luz do dia. Fantasiar-se do jeito que quisesse, expressar-se como quisesse, ter o seu momento ali de descontração, de lazer, de entretenimento e muito de expressividadeā, afirma Juarez.
No carnaval, abrem-se portas para o corpo social ser aquilo que Ć© e que a sociedade reprime, e ao mesmo tempo se fantasiar de um novo ser. Ć nessa festa que existe a liberdade de se transformar e performar quem habita no interior humano.Ā
Embora esse movimento fosse notório e importante em Belo Horizonte, no ano de 1989 surge o maior declĆnio do carnaval. Os desfiles de escola de samba foram cancelados pelo prefeito da Ć©poca, Pimenta da Veiga, com a justificativa de falta de verba, sendo uma grande perda para a cultura da cidade. Fora do centro, os desfiles só voltaram a acontecer anos depois. Sem o apoio do poder pĆŗblico, o movimento foi se enfraquecendo. Ao restringir o acesso Ć cultura nessa data tĆ£o simbólica, as figuras de poder contrastavam com a ocupação do povo e com os trabalhadores, que buscavamĀ incessantemente o direito de existir.Ā
Ā Em 2009, o carnaval ressurge como forma de protesto contra o entĆ£o prefeito MĆ”rcio Lacerda, que editou o decreto nĀŗ 13.798, proibindo eventos de qualquer natureza na PraƧa da Estação, sob a justificativa de garantir a suposta seguranƧa pĆŗblica. O povo respondeu ocupando as ruas da cidade, principalmente a PraƧa da Estação e defendendo a expressĆ£o popular. Assim, teve inĆcio o movimento conhecido como āPraia da Estaçãoā, essencial para a retomada do carnaval de rua de Belo Horizonte, uma demonstração de que a população pode ocupar as ruas em nome do lazer e da resistĆŖncia. Para alĆ©m de uma perspectiva LGBTQIAPN+, o carnaval em Belo Horizonte Ć©, desde sua criação, um ato de resistĆŖncia.
Para Juarez,Ā Ć© nesse momento que os blocos LGBTQIAPN+ crescem na cidade.
āSe antes o carnaval era um espaƧo mesmo de aparecimento, de expressividade, Ć© a Praia da estação que vai, de alguma forma, fermentar um carnaval de rua para alĆ©m da "Banda Mole", ressalta Juarez.Ā
AĀ "Banda Mole"Ā foi um bloco essencial para que hoje os LGBTQIAPN+ ocupassem as ruas da cidade, mas a āPraia da Estaçãoā foi o estopim para queĀ nĆ£o só os participantes do movimento ocupassem a cidade, mas toda a população lutasse pelo direito de estar presente nas ruas.Ā Hoje, inĆŗmeros blocos pertencem a esse movimento, e os foliƵes LGBTQIAPN+Ā se diferenciam por diversas formas: gostos musicais, sexualidades e gĆŖneros distintos. A diversidade e a personalidade ocupamĀ a capital belo-horizontinaĀ em diferentes espaƧos e de diferentes maneiras.Ā
Significado sociocultural e polĆtico

Desde o movimento da āPraia da Estaçãoā, no coração da cidade, a presenƧa LGBTQIAPN+ teve muito a compartilhar com o teatro, a performance e a mĆŗsica, elementos utilizados para expressividade e para dar vida ao carnaval e Ć cultura desses grupos nas ruas de BH. Vestir-se sempre foi um ato polĆtico para esses grupos, pois sempre significou colocar em destaque elementos que antes precisavam ser escondidos, disfarƧados.
A Parada do Orgulho tambĆ©m foi essencial no contexto polĆtico do carnaval ao abrir portas para que, ao menos uma vez por ano, a população LGBTQIAPN+ se sentisse confortĆ”vel em ir para as ruas, ocupar espaƧo e se fazer visĆvel.
Com cunho extremamente polĆtico e focado em firmar a luta por direitos e garantias, o evento inspira o carnaval a elaborar suas pautas com assuntos e demandas urgentes. Um exemplo Ć© o tema mais recente da Parada, de 2025, āEnvelhecer bem: direito Ć s polĆticas pĆŗblicas do bem viver, ao prazer e Ć cidadeā, o qual ilustra bem como este sempre foi um movimento que buscou ressaltar necessidades para alĆ©m da visibilidade.Ā
No carnaval, essa seriedade deve ser equilibrada de forma leve e descontraĆda com que o pĆŗblico jĆ” estĆ” acostumado na folia, por isso, temĆ”ticas como āA gente Ć© MultidĆ£oā (Truck; 2024), āRainhas do Esporteā (Corte Devassa; 2024) e āVocĆŖ Tem Sede de QuĆŖ?ā (EntĆ£o brilha; 2024) tratam de ocupação de espaƧos, valorização de desejos e visibilidade, de forma a dialogar folia e desejo, festa e denĆŗncia.
O Carnaval sempre foi denĆŗncia, luta, liberdade e ação. Para o bloco Truck do desejo, por exemplo, a existĆŖncia polĆtica Ć© essencial na folia.
āDesse modo, inerentemente, nos atemos aos anseios de nossa população no exercĆcio pleno da cidadania (direito ao trabalho, Ć saĆŗde, lazer etc) guiada pela luta por uma vida digna para todas as pessoasā, afirmam as organizadoras.
Os blocos LGBTQIAPN+ nas ruas de Belo Horizonte
Bufonaria e decolonialidade: conheƧa a Corte Devassa
Criada em 2012, a Corte Devassa surge a partir de uma turma do Centro de Formação ArtĆstica do PalĆ”cio das Artes, o Cefar. A primeira versĆ£o do bloco, composta por figuras caricatas, utilizou-se da bufonaria ā ação de zombaria ā como inspiração tĆ©cnica.Ā Os atores e atrizes faziam personagens da corte em uma versĆ£o caricata, exagerada e cĆ“mica, buscando criticar e estereotipar a corte, a burguesia e a representação do colonialismo nos dias atuais, como explica o participante da organização do bloco Eli Nunes Monteiro.

Com a proposta de questionar os parĆ¢metros de riqueza e de realeza da colonialidade, Eli conta que o bloco era quase āfeioā, marcado por exageros. Posteriormente, foram adicionados outros detalhes, caracterĆsticas e nuances das cortes, mas as ideias de devassidĆ£o e, principalmente, de liberdade sexual permanecem atĆ© os dias atuais. SĆ£o colocadas em xeque noƧƵes de pureza, de santidade e de proibição dos corpos que havia dentro dos contextos das cortes e do colonialismo, provando que, desde sempre, a Corte Devassa demonstra interesse pela pauta de liberdade sexual.
A consciĆŖncia polĆtica para a Corte Devassa Ć© essencial, visto que o bloco Ć© composto por muitas pessoas negras, da comunidade LGBTQIAPN+ e, de modo geral, forma um pĆŗblico diverso.
Esteticamente, o bloco tem muita história para contar. Nos primórdios, o foco eram apenas as figuras caricatas da corte. Posteriormente, tais efĆgies permanecem, mas o bloco se apropria das mesmas como forma de empoderamento focado em questƵes raciais e em corpos LGBTQIAPN+. A partir de um momento de fortalecimento e de acesso do pĆŗblico a questƵes raciais, surge o questionamento sobre qual seria a escolha de uma corte branca para os corpos tĆ£o diversos que permeiam o bloco, levando a um pensamento sobre outras realezas.
Nesse momento, a Corte Devassa comeƧou a trabalhar com realezas africanas, afro futurĆsticas e, de maneira geral, realezas diversas que fogem do cenĆ”rio eurocĆŖntrico e colonial. Essa adaptação e conversa com o pĆŗblico sĆ£o a origem da adaptabilidade a qual o bloco viveu. A Corte se coloca como um ābloco de chĆ£oā, sem trio elĆ©trico, que opta pela proximidade com o pĆŗblico, para realmente viver a festa junto do foliĆ£o, que, caso queira, pode fazer parte da bateria, mesmo sem conhecimento prĆ©vio.Ā
O modus operandi do bloco sempre foi uma pauta. Eli, assim como Michele Bernardino, Andreia Rodrigues e Ana Martins ā rainha e vocalistas da corte, respectivamente ā, fizeram parte de uma companhia que se chamava EspaƧo Preto, que existiu de 2012 a 2014, exemplificando o grande grupo de artistas de BH que trabalham com teatro polĆtico e que compƵem a Corte. InĆŗmeras pessoas do bloco compuseram grupos e fizeram trabalhos de denĆŗncia social, de pautas sobre a negritude, sobre empoderamento preto sobre corpos LGBTQIAPN+.Ā
āMuitos de nós, pessoas integrantes do bloco,Ā passamos por uma transição de gĆŖnero durante a participação no bloco. EntĆ£o, essa pauta, ela fazia parte da nossa existĆŖncia, nĆ©? EntĆ£o, nĆ£o tinha muita escolha de conciliar ou nĆ£o isso, a alegria do carnaval. Isso fazia parte dos nossos corpos, atĆ© porque, quando a gente tĆ” na rua, mesmo que na alegria do Carnaval, sĆ£o momentos em que a gente passa por situaƧƵes de racismo, de transfobia, de misoginia, de assĆ©dio. A gente nunca conseguiu descolar essas pautas do fazer carnavalesco da corteā , afirma Eli.
O Farol da Folia: conheça o Então, Brilha!
āBrilhar para sempre, brilhar como um farol, brilhar com brilho eterno, gente Ć© pra brilhar, que tudo mais vĆ” pro infernoā. Essa frase Ć© do poeta e dramaturgo russo, Vladimir Maiakovski, que estampa a pĆ”gina inicial do EntĆ£o, Brilha!

O āEntĆ£o, Brilha!āĀ nasceu em 2010 como um bloco de Carnaval e se tornou um dos maiores movimentos de rua e arte coletiva de Belo Horizonte. O grupo afirma ser mais que um cortejo ao celebrar a vida, a liberdade e a potĆŖncia criadora das pessoas que se encontram para transformar o mundo juntas. Eles fazem da rua um palco, um templo e um território polĆtico ao usufruir do espaƧo como plataforma de invenção, reflexĆ£o, crĆtica e experimentação artĆstica.
Por trĆ”s de um dos maiores e mais icĆ“nicos blocos, a Associação Cultural EntĆ£o, Brilha! ā uma organização sem fins lucrativos ā sustenta e expande o projeto durante todo o ano, ao possibilitar a criação de aƧƵes nas Ć”reas da arte, da educação, da cultura e da cidadania. AlĆ©m de atuar na defesa de um carnaval livre, democrĆ”tico e transformador, apoia explicitamente as lutas sociais e a diversidade ao garantir que a agenda de inclusĆ£o do bloco seja trabalhada durante o ano e no desfile.Ā
āInspirada por um humanismo revolucionĆ”rio, a Associação busca fortalecer laƧos comunitĆ”rios, apoiar lutas sociais e desenvolver prĆ”ticas artĆsticas e educativas que ampliem a consciĆŖncia crĆtica e o cuidado com o planeta. Ć o Brilha que acontece o ano inteiro ā nas ruas, nas ideias e nos coraƧƵes.ā, define em site próprio o EntĆ£o, Brilha!
O bloco tambĆ©m inova e se reinventa em cada projeto. A escolha do tema anual acontece por meio do āMagia Tropical, concurso da mĆŗsica brilhanteā, que todo ano convida compositores a embarcarem na criação da mĆŗsica do cortejo. O FAROL - SeminĆ”rio de Formação do Bloco EntĆ£o, Brilha!Ā - chega com a proposta de ser um espaƧo para a construção e o fortalecimento das formas de expressĆ£o artĆstica e seus ideais; jĆ” a Escola Brilhante de Artes, produzida durante o ano de 2018, foi um projeto de ação social em educação artĆstica por meio do qual foi oferecido para a comunidade da favela da Serra um curso de canto.
Ao transformar a rua em um espaƧo seguro e polĆtico, oĀ āEntĆ£o, Brilha!āĀ consolida o direito da comunidade LGBTQIAPN+ de existir em sua plenitude no Carnaval da capital mineira. Ao reafirmar que āgente Ć© pra brilharā, o bloco cria tanto um lema de festa quanto um manifesto de resistĆŖncia.
Entre o asfalto e o arco-Ćris: conheƧa a Truck do Desejo
Fundado em 2018 por um grupo de amigas que percebeu a falta de um carnaval voltado ao protagonismo de pessoas lĆ©sbicas, bissexuais, nĆ£o-binĆ”rias, trans masculinos e travestis na capital. A Truck do Desejo se apoia primordialmente na luta por direito Ć vida digna e ao pleno exercĆcio da cidadania por essa parcela da população. Ć por meio da estĆ©tica, da performance e da ocupação do espaƧo pĆŗblico com afetos e linguagens que o bloco nĆ£o só representa, como une o desejo polĆtico por mais qualidade de vida cidadĆ£ Ć alegria do festejo carnavalesco.
Uma caracterĆstica marcante do bloco Ć© o repertório, que privilegia compositoras lĆ©sbicas, bissexuais e trans da MPB. As mĆŗsicas sĆ£o rearranjadas em ritmos de carnaval (como samba, reggae, ijexĆ”, funk carioca e marchinha) e representam a riqueza e a diversidade da mĆŗsica brasileira, ressaltando o trabalho das compositoras.
Outro aspecto importante do bloco Ć© a abertura Ć possibilidade ā a integração de pessoas que antes nĆ£o estavam inseridas no meio do carnaval. Desde o inĆcio do Truck, no primeiro ano, a bateria jĆ” era composta por cerca de 90 pessoas. AtĆ© 2025, mais de 1200 mulheres e pessoas trans jĆ” passaram pela ala de bateria e mais de 80% delas nunca tinham tido a oportunidade de experimentar um instrumento musical antes.
Para Lara Sousa e Fernanda Branco, respectivamente, fundadora e co-coordenadora do bloco, o maior diferencial do Truck Ć© a linguagem, que forma caminhos para ampliar o pĆŗblico e se expressar com potĆŖncia.
āA base de construção do bloco se alicerƧa em explorar os recursos de discursos e linguagens para dar o nosso recado por meio do tema de cada ano, ecoando nossa trajetória e luta por meio tambĆ©m de figurinos, repertórios, alegorias, parcerias de trabalho e toda rede LGBT+ de trabalhadores contratados para realizar junto esse sonhoā, afirmam.
Dos ritmos latinos Ć representatividade: conheƧa o āCómo te lhamĆ”?ā
Criado em 2017, o bloco de rua āCómo te lhama?ā surgiu com a ideia de trazer a cumbia ā um gĆŖnero musical e danƧa de origem colombiana ā para o carnaval de Belo Horizonte. Brincando com o uso do āportunholā, a grafia incorreta faz um jogo com a palavra āllamaā, que pode significar tanto o animal andino, como tambĆ©m o verbo āllamarā, que em portuguĆŖs significa āchamarā.
Antes de a festa surgir, jĆ” existiam alguns gestos de aproximação com o ritmo cumbia, por parte dos blocos āJuventude Bronzeada", doĀ Djalma nĆ£o Entende de PolĆtica e do Frito na Hora.Ā O objetivo do carnaval, no entanto, era āpegar firme na cumbiaā, na intenção de aprofundar os conhecimentos acerca desse universo. Entre os fundadores do bloco tambĆ©m havia mais de um migrante, o que impulsionou a iniciativa.

Em 2025, āAmor Prohibidoā foi o tema da folia. Aproveitando o tĆtulo das canƧƵes mais famosas do estilo, o ensejo foi celebrado para intensificar uma discussĆ£o sobre amores que sofrem interdiƧƵes. AlĆ©m do tema central no Ćŗltimo ano, um dos propósitos do bloco no geral Ć© acolher pessoas de todas as orientaƧƵes e identidades, apesar de os organizadores acreditarem que isso deveria ser regra de todo carnaval.Ā
āQuem estiver cheio de ódio e discrimação melhor nĆ£o sair de casaā, ressaltou Carlos BolĆvia, participante do bloco.Ā
Das figurinistas aos instrumentistas, āCómo te lhama?ā procura incluir o grupo LGBTQIAPN+ em todos os seus segmentos, para, assim, criar um cenĆ”rio representativo.Ā
Identidade: a Autoficção da Liberdade
O Carnaval Ć© uma festa de celebração da liberdade e Ć© tambĆ©m o palco de uma das lutas mais essenciais do movimento LGBTQIAPN+: a afirmação da identidade. A retomada do Carnaval de Belo Horizonte nĆ£o trouxe apenas a folia para a rua, mas afirmou um território de visibilidade e pertencimento. Blocos como o āEntĆ£o Brilha!ā,Ā que afirma āGente Ć© pra brilhar!ā com seu visual marcado pelo rosa, dourado e glitter, e o āTruck do Desejo", criado para dar visibilidade Ć s mulheres lĆ©sbicas, bissexuais e trans, nascem da necessidade de tornar o invisĆvel visĆvel.Ā
O ativismo da comunidade queer em Belo Horizonte Ć© antigo, comeƧando discretamente nos anos 1950 e se consolidando ao longo das dĆ©cadas, com a criação de organizaƧƵes que buscam bater diretamente nas polĆticas pĆŗblicas e garantir direitos civis. A cidade Ć© cenĆ”rio da Parada do Orgulho hĆ” mais de 25 anos, sendo reconhecida como uma das mais politizadas do Brasil, como afirmou o jornal Brasil de Fato, na matĆ©ria āEm BH, Parada do Orgulho LGBTQIA+ completa 25 anos como uma das mais politizadas do Brasilā.Ā
O evento Ć© organizado pelo CELLOS-MG (Centro de Luta pela Livre Orientação Sexual e Identidade de GĆŖnero de Minas Gerais), que se orgulha ao celebrar um āCarnaval fora de dataā com carĆ”ter polĆtico, em que as apresentaƧƵes artĆsticas sĆ£o organizadas com a presenƧa de artistas locais, contemplando pessoas de cada uma das letras presentes na sigla e, especialmente, a população da periferia.
No Carnaval, a luta polĆtica continua. Para muitas das pessoas celebradas pela folia, a fantasia e a maquiagem da festa anual servem como licenƧa poĆ©tica para serem, em pĆŗblico, aquilo que a sociedade tenta reprimir no dia a dia. O ato de desfilar, de ocupar com o corpo e a voz Ć©, por si só, uma declaração de carĆ”ter polĆtico que ressoa representatividade. Para Juarez GuimarĆ£es, esse exercĆcio de performar, de evidenciar uma parte de sua identidade como fantasia se torna um objeto de estudo: a autoficção performĆ”tica.
āA ideia da autoficção Ć© vocĆŖ ser um personagem de vocĆŖ mesmo ā como vocĆŖ se cria como personagem. E esse personagem estĆ” numa dimensĆ£o da performance, porque vocĆŖ estĆ” no espaƧo, vocĆŖ estĆ” na rua, vocĆŖ estĆ” se exibindo. E vocĆŖ tĆ” performando essa identidade que vocĆŖ criou para vocĆŖ mesmoā, afirma Juarez.
São nesses poucos dias de comemoração que a identidade de gênero e a orientação sexual podem ser expressas em sua plenitude, sem medo e com a proteção da multidão. Segundo uma pesquisa do Observatório do Turismo de Belo Horizonte, 34% do público do Carnaval de BH faz parte da comunidade LGBTQIAPN+.
A escolha do tema anual dos blocos tambĆ©m Ć© carregada de identidade. As escolhas nĆ£o sĆ£o meramente estĆ©ticas, mas refletem as pautas e as vivĆŖncias especĆficas de cada grupo. O bloco āTruck do Desejoā, por exemplo, coloca em evidĆŖncia a cultura lĆ©sbica, bissexual, travesti, transmasculina e nĆ£o binĆ”ria. Eles honram o movimento com cenografia, figurinos e discursos, tudo Ć© pensado a partir de referĆŖncias de dissidĆŖncias de gĆŖnero e orientação sexual.
āCada detalhe carrega o desejo de contar nossas histórias do nosso jeito, com orgulho. Do erotismo Ć polĆtica, da ironia ao deboche, do amor Ć resistĆŖncia: a Truck Ć© um manifesto vivoā,Ā afirma a organização do bloco.

Estrutura, segurança e discriminação: os desafios de se manter um bloco LGBTQIAPN+
Existir como uma pessoa QueerĀ em uma sociedade heteronormativa e patriarcal implica diversos desafios. No contexto de festividades de grande porte, como Ć© o caso do carnaval, essas existĆŖncias podem ser ainda mais ameaƧadas, por meio de violĆŖncia velada, verbal ou fĆsica que atinge facilmente as minorias. Nesse sentido, os blocos construĆdos por e para indivĆduos LGBTQIAPN+ representam uma alternativa de maior seguranƧa e liberdade, mesmo que ainda existam desafios na formação e manutenção dessas estruturas.Ā
Thiago Coacci, participante do coletivo Frente AutĆ“noma LGBT, criticou a ideia de liberdade sexual no carnaval, em entrevista para o jornal O Tempo:Ā Ā
"O Brasil sempre usou o Carnaval como uma forma de propaganda da liberdade sexual, mas sabemos que essa liberdade nĆ£o Ć© tĆ£o verdadeira assim. Ć seguro para o homem hĆ©tero e musculoso sair com roupas de mulher, mas para as bichas afeminadas, as travestis e as mulheres (cis e trans), nĆ£o Ć© nada seguro sair pelo carnavalā, ressalta Thiago.
Essa realidade não evidencia só uma exclusão, mas também uma normalização da violência contra esses grupos, mesmo dentro de espaços que se apresentam como democrÔticos. Os blocos Queer proporcionam uma maior segurança devido à coletividade, mas não eliminam os riscos de violência.

Ā Para Eli, do Corte Devassa, um dos principais desafios para o bloco Ć© garantir o respeito.
āO Corte Devassa Ć© formado por muitas pessoas negras,Ā LGBTQIA + de muitas diversidades possĆveis, entĆ£o foi aos poucos que a gente foi conseguindo criar uma noção de respeito que passe por uma consciĆŖncia polĆtica atualā, afirma Eli.
Como um bloco que jĆ” nasceu da diversidade, o Corte Devassa enfrenta tambĆ©m a tarefa de educar o pĆŗblico, combatendo a normalização de violĆŖncias simbólicas, como fantasias de āblack powerā, de povos indĆgenas ou outras representaƧƵes estereotipadas. Mesmo entre grupos marginalizados, preconceitos podem se reproduzir de forma aparentemente inofensiva, em piadas ou fantasias. No Carnaval, quando tudo parece permitido, essas expressƵes ganham visibilidade e impacto. Por isso, manter um ambiente verdadeiramente livre de discriminação continua sendo uma dificuldade para os blocos LGBTQIAPN+.
AlĆ©m disso, outro obstĆ”culo Ć© manter uma estrutura de qualidade e que proporcione uma boa experiĆŖncia para uma plateia cada vez maior, principalmente quando a verba Ć© limitada. Ć evidente que hoje, com a percepção do impacto turĆstico e econĆ“mico da celebração, alĆ©m da aclamação midiĆ”tica, a prefeitura investe e se aproxima da folia consideravelmente mais do que em anos anteriores. Mesmo assim, continua nĆ£o sendo o suficiente para garantir a manutenção desses blocos.
Ā
O organizador do Corte Devassa conta que, apesar dessa aproximação, ainda Ć© possĆvel perceber a escassez de recursos, jĆ” que, de modo geral, o dinheiro nĆ£o chega para os blocos. Um dos principais problemas estruturais dos blocos de carnaval Ć© a distribuição sonora, tendo em vista que, alĆ©m do alto custo desses equipamentos, hĆ” a preocupação em atingir o pĆŗblico mais distante sem gerar riscos auditivos para quem estĆ” mais próximo das caixas de som, exigindo adaptaƧƵes complexas. Para os blocos queer, a importĆ¢ncia do acesso ao som Ć© ainda maior: nĆ£o significa apenas mĆŗsica e festa, mas tambĆ©m acesso Ć s mensagens polĆticas, centrais para esses movimentos.Ā
Para muitos, a falta de recursos nĆ£o afeta apenas a estrutura fĆsica, mas tambĆ©m a permanĆŖncia dos participantes. No caso da Corte Devassa, a maioria dos integrantes sĆ£o artistas independentes, que, devido Ć mĆ” remuneração, acumulam trabalhos artĆsticos diversos simultaneamente, dificultando a estabilidade. Com isso, o grupo apresenta grande rotatividade dos cargos, o que pode comprometer a organização, a continuidade de ideias e os vĆnculos afetivos, extremamente importantes principalmente para blocos politicamente engajados.

Perspectivas futuras
De modo geral, os blocos não se planejam com tanta antecedência para os carnavais seguintes. Eli, da Corte Devassa, afirma que cada ano é vivido de forma muito intensa e inteira. Os sonhos a serem perseguidos e alcançados são o que instigam a continuidade de um trabalho que vem ocorrendo hÔ mais de uma década.
āĆ um bloco de mais de 10 anos que tem esse movimento de resistĆŖncia, de permanecer no centro da cidade, permanecer no chĆ£o da cidade, permanecer trazendo esses corpos dissidentes, que incomodam, para o centro. EntĆ£o isso Ć© um plano futuro bem consistente. Seguir acontecendo, nĆ£o deixar que esse carnaval midiĆ”tico e gigantesco de Belo Horizonte engula o bloco.ā
A realidade Ć©: o Carnaval de Belo Horizonte engloba um pĆŗblico muito grande e variado e, por meio de blocos de rua que resistem e representam, torna-se, cada vez mais, um palco de inclusĆ£o.Ā