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Mostras da 20ª CineBH cruzam ficção científica, fé e denúncia social

Foto do escritor: Revista Curió
Revista Curió
há 8 horas
4 min de leitura

Mostras Vertentes e A Cidade em Movimento colocam o território, o corpo e a memória no centro da programação da 20ª Cine BH


Por: Evelyn Costa e Raytê Mendes

Última atualização: 30/09/2026


Assim como no sentido figurado da palavra, a mostra Vertentes - que integrou a programação da 20ª Cine BH - busca expor o caráter multifacetado do cinema contemporâneo na América Latina. A curadoria, realizada por Marcelo Miranda e Rubens Fabricio Anzolin, permeia os mais diversos gêneros e cenários, apresentando como cada filme encontra, da sua maneira, diferentes formas de se conectar com o presente e observar o mundo ao seu redor.


Yellow Cake


O novo longa de ficção-científica de Tiago Melo, exibido na última sexta (25), apresenta uma história que se passa na pequena cidade de Picuí, no sertão da Paraíba. O enredo gira em torno de Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), uma física nuclear que, junto de um grupo de cientistas estadunidenses, tenta erradicar a disseminação do mosquito Aedes Aegypti utilizando o urânio das minas da cidade. Porém, o experimento dá errado e resta à Rúbia achar a solução para esse problema. 


Yellow Cake (2026)/Divulgação
Yellow Cake (2026)/Divulgação

Apesar da trama aparentemente simples, o filme chama atenção pelo aproveitamento da beleza natural da locação e da produção realizada. A fotografia faz uso de composições que destacam o relevo e a diversidade que a paisagem da caatinga pode proporcionar. Assim como o figurino, que expõe a diferença entre os cidadãos e os cientistas, que ocupam o papel de colonizadores e exploram as riquezas e a mão de obra local para benefício próprio.


Rejane Faria como Rúbia Ribeiro/Yellow Cake/Divulgação
Rejane Faria como Rúbia Ribeiro/Yellow Cake/Divulgação

Além do apuro paisagístico, Yellow Cake (2026) se destaca ao construir uma ficção científica calcada em uma estética atemporal e tátil. Fugindo do futurismo digital genérico, o filme aposta em um laboratório com ar analógico, no qual equipamentos inventados e objetos reais se fundem para dar verossimilhança ao universo da radiação. 


“A gente tinha medo do filme parecer ‘tosco’. Como tudo sobre radiação é analógico, decidimos construir um laboratório meio atemporal, unindo o passado e o futuro. A partir de muita pesquisa, pegamos equipamentos que existem de fato e adaptamos outros -como o detector de urânio- para que ficasse visualmente instigante e trouxesse uma camada de realidade para a fantasia do filme”,  afirma Tiago Melo, diretor do filme, ao ser questionado sobre a construção do cenário.


Mostra "A Cidade em Movimento"


Sob curadoria de Bruna Piantino, a mostra A Cidade em Movimento reuniu, em cinco programas, filmes que abordam a cidade-território como espaço de experiência direta e exploram dimensões fundamentais da existência humana. Na Sessão 4, A não domesticação da experiência, o fio condutor são corpos e imaginários que se recusam a se enquadrar em discursos padronizados. As obras revelam o que há de mais livre e imprevisível no comportamento humano, ao rejeitarem regras sociais e discursos prontos e evidenciarem como a experiência vivida, intensa e muitas vezes brusca, escapa ao controle da razão.


A abertura com Queremos praia, anunciação…(2025), de Chico Pelúcio, Marcelo Braga e Rodolfo Magalhães, acompanha ao longo de trinta anos três eventos que buscam uma relação com o mar em um território montanhoso. Em um estado sem litoral, o mar aparece na tela como delírio, sonho, disputa política e crime ambiental. O curta faz da fantasia litorânea uma forma de denúncia e termina de maneira impactante. Em silêncio profundo, a frase "E o mar chegou…" surge na tela do cinema, seguida por imagens do rompimento da barragem de Brumadinho, com a água tomando conta de tudo ao redor.


Queremos praia, anunciação…/Cine BH
Queremos praia, anunciação…/Cine BH

Já Sexta (2026), de Pedro Cordeiro, sobrepõe a revolta dos operários da construção civil em 1979 ao áudio de um trabalhador brasileiro em 2021. Em apenas um minuto, imagens de um tempo e a voz de outro se cruzam para mostrar a continuidade das desigualdades entre gerações. O curta provoca em quem assiste uma reflexão sobre aquilo que não evoluiu de uma geração a outra e sobre uma realidade da qual estamos muito próximos e inseridos.


Após os dois curtas que refletem denúncias e questionamentos, a tela do cinema se abre para o fantástico e o místico como forma de ocupar a cidade. Metamórfike (2025), de Lui Nascimento, apresenta Lolo, jovem não binário, influenciadore e diretore de videoclipes, que faz entregas por Belo Horizonte enquanto a carreira não decola, até receber uma encomenda misteriosa que de forma enigmática altera tudo o que está à sua volta, transformando BH em um lugar utópico. 


Já em Bloco Fantasma (2025), de Rafael Zorzal, o Carnaval é o cenário de um bloco com propriedades misteriosas e do surgimento de uma paixão por uma foliã que parece estar ali há muito tempo. Nos dois, o fantástico é uma maneira de reinventar a cidade e de driblar as normas que ela impõe, transformando as ruas de Belo Horizonte em espaços onde o improvável ganha forma e a liberdade de existir se torna possível. Diferentemente de Metamórfike, que é produzido a partir de cenas em vídeo, o curta é construído por meio de imagens que representam e reconstituem os acontecimentos narrados.


Cordões e Sinos de Além-mar/Divulgação
Cordões e Sinos de Além-mar/Divulgação

Fechando a sessão, Cordões e Sinos de Além-mar (2026), de Yuji Kodato e Jeremias Brasileiro, leva o sagrado para a tela. O documentário experimental acompanha os bastidores das Congadas em Ibiá, Machado, Uberlândia e no Quilombo dos Arturos, em Contagem, propondo um mergulho sensorial nas festas de Congado ao combinar vídeo digital e fotografias analógicas de dupla exposição. O curta apresenta a fé como parte da vida cotidiana, atravessada pelo trabalho, pela memória e pela comunidade, e transforma a fusão de tradições em imagens marcadas pelo ritmo, pelos sons e pelos gestos das celebrações.


Para além da Sessão 4, a mostra A Cidade em Movimento reuniu outros quatro programas que atravessaram diferentes dimensões da existência humana, do território e da experiência ao corpo. Juntas, as cinco sessões formaram o Abecedário da Existência, e cada uma olhou para a cidade por um ângulo próprio. Ao final, fica a certeza de que a cidade só se movimenta quando suas histórias, seus corpos e suas crenças encontram espaço, e de que a cultura revela as transformações e reinvenções presentes nos modos de viver a cidade.

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